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Entrevistas de música brasileira

Ná Ozzetti

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Ná Ozzetti

parte 5/28

O ideal de cidade sempre foi o Rio de Janeiro

Tacioli – Essa sua vinda pra Jundiaí tem a ver com sua relação com a casa da infância, de ter um quintal, um espaço? O que você buscou vindo pra cá?
Ná – Depois que estava aqui fiz uma associação… No primeiro momento não foi com a casa, nem com a infância. Na verdade, sempre gostei de mato, da natureza, e sou paulistana. Vivi a vida inteira em São Paulo, mas sempre gostei de viajar. Então sempre que chegava em São Paulo vinha pela Marginal Tietê. Agora a Marginal está bem mais bonita do que foi há uns anos. Mas ficava, sinceramente, deprimida de chegar na Marginal e encontrar a minha cidade tão árida, tão fria. Sentia falta da natureza mesmo morando na cidade. Então sempre procurei sair, sempre procurei esse contato, porque quando chegava sentia isso… É tão legal São Paulo, tudo que ela tem, mas ela podia ser mais arborizada, como o Rio de Janeiro. O Rio é uma cidade que, tirando os problemas que está enfrentando nos dias de hoje, é uma loucura! Você tem o mar, a mata, a Floresta da Tijuca ali, que é uma mata atlântica exuberante… E, culturalmente, uma grande cidade, no meio dessa exuberância toda. Então, pra mim, o ideal de cidade sempre foi o Rio de Janeiro. E aí voltava pra São Paulo e achava “Por que São Paulo não pode?” Tudo bem, não tem mar, mas a gente pode criar… Tem rios, dois rios enormes. A gente podia criar algo na cidade que desse mais condições de prazer pras pessoas.
Dafne – Você sentia essa beleza que falta em São Paulo desde a infância?
Ná – Eu me incomodava com isso desde a infância. E me incomodava muito com a mentalidade. Tem um lado da cidade que me incomoda e outro que acho maravilhoso. Tô abrindo um parênteses: agora que vivo no mato, quando vou pra cidade fico eufórica com tanta gente. Vejo essa efervescência… É uma cidade elétrica, tem muita eletricidade ali, de muita gente fazendo coisas. Acho isso fascinante. É uma cidade que reúne tantas coisas e que está sempre olhando pro futuro. Isso é maravilhoso! Mas tem outro lado que essa característica da cidade traz… Ela não preserva muito a qualidade de vida. Passa-se por cima de muita coisa importante em prol de um “fazer grana”, sabe? Por exemplo: a especulação imobiliária que existe na cidade, a verticalização. Todos os bairros estão ficando cheio de prédios.
Almeida – A gente estava falando da Lapa, que está virando uma selva de torres.
Ná – Pompeia. Em qualquer bairro da cidade está acontecendo isso. Tudo bem, vamos morar, mas e aí, cada pessoa, cada apartamento daquele vai ter no mínimo dois carros. Então como vão ficar essas ruas estreitas? Você vê que cada rua que verticaliza fica condenada a não ter mais um tráfego saudável. Nesses detalhes não se pensam. É um lugar de fazer dinheiro, então é um fazer dinheiro sem ter muito essa preocupação (de qualidade de vida). Essa mentalidade está mudando aos poucos. Sinto que já mudou, mas ao mesmo tempo a verticalização ainda é mais forte.

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