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Entrevistas de música brasileira

Ná Ozzetti

NaOzzetti-940

Ná Ozzetti

parte 3/28

Vi aparecer a luz de mercúrio, que pra nós foi a glória

Max – Acho que você viveu a perda dessa cidade que você cresceu, né?
Ná – Eu me lembro que, quando era criança, a rua não era nem asfaltada. E aí fizeram um loteamento, um tal de Parque Antártica. Parece que era tudo arborizado ali perto do Palmeiras; aí lotearam e meu pai foi daquela primeira leva. Comprou dois lotes, fez uma casa grande, térrea, com um quintalzão. Então, a rua era de terra e não havia luz. Era um bairro dentro da cidade, vizinho da Santa Cecília, que já é bem central. A Avenida Sumaré ainda não existia. Lembro quando fizeram a Avenida Sumaré, tinha, sei lá, uns 11 anos [de idade], por aí. Era um córrego. Mas já existia o bairro das Perdizes, Pompeia, mas não tinham esses prédios, era somente residência.
Max – E a Lapa já era periferia da cidade.
Ná – Era. Era um loteamentozinho novo dentro de uma cidade que já existia. E meu pai trabalhava no Largo do Ouvidor.
Tacioli – O que ele fazia?
Ná – Meu pai tinha uma imobiliária. E aí ele pegava um ônibus na [Avenida] Francisco Matarazzo, que era do lado, e ia num retão até a Praça Patriarca, que já era centro da cidade. Depois ele voltava pra roça [ri], que era a casa. E aí, vi primeiro o asfalto, vi asfaltarem as ruas. Foi o máximo! Pra criançada era muito legal. Vi construir a maioria daquelas casas. Quando mudei pra lá ainda existiam muitos terrenos vazios. Aliás, muitos lugares onde são prédios hoje naquela redondeza eram campinhos de futebol. Então, depois vi aparecer a luz de mercúrio, que pra nós foi a glória. A gente viu que podia ficar jogando queimada por mais tempo [ri], e começamos a jogar de noite. E aí depois vi os primeiros prédios. E quando já tinha os meus 20 e poucos anos, aquela região começou a ficar mais comercial. E o bairro foi ficando assim…
Almeida – Já tinha perdido essa característica de fazendinha.
Ná – E a casa ficou muito grande pros meus pais. Aí a gente vendeu e resolveu mudar pra um apartamento ali na rua do lado, que é onde minha mãe mora até hoje.
Tacioli – A casa existe ainda?
Ná – Existe. Foi comprada por uma empresa que construiu um segundo andar. Descaracterizou completamente o que era. Não sei dentro da casa, mas por fora…
Dafne – Por fora não sobrou nada.
Ná – Não. Eles aproveitaram toda a estrutura, mas como fizeram um segundo andar ficou muito diferente. Não reconheço a casa. Olho e não reconheço.
Almeida – Sua mãe ficava em casa?
Ná – Minha mãe ficava em casa. Ela criou os quatro filhos.

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