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Entrevistas de música brasileira

Ná Ozzetti

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Ná Ozzetti

parte 20/28

Eu compraria esse disco?

Max – É algum dilema pra você pensar nessa questão da comunicação com seu público e o que você fazer da sua verdade? Como equalizar essas duas coisas?
Ná – Olha, pra mim, se faço um trabalho, se me dedico a um trabalho, pra mim é ele ali. Não tenho problema com isso. Claro, se não me vejo num trabalho, nem faço. Agora, se aceito fazer o trabalho, como foi o Show ou o Love Lee Rita [ n.e. Disco de 1996 lançado pela Dabliú ], que não foram ideias minhas, foram propostas por outras pessoas, [e adoro], [aceito] na hora. O Piano e voz foi um projeto para um show do meu encontro com o André [Mehmari]. Quero dizer, a gente já tinha feito trabalhos juntos, mas bem pouco e sempre envolvendo outros artistas. Essa foi a a primeira vez que a gente montou um trabalho, mas o projeto era um piano e voz, na verdade, não era o repertório.
Max – Mas tem aquele momento do trabalho em que você pensa na comunicação com o público ou isso não…? Você tá entendendo?
Ná – Então, até hoje nunca tive isso. Agora começo a pensar um pouco mais no público, do que o público quer ouvir, do que eu, como ouvinte, gostaria de ouvir. Porque eu simplesmente fazia [os meus trabalhos], mas sem esse distanciamento de pensar: “Puxa, será que quero ouvir isso?”. E hoje tô com esse movimento interno. Estou pensando num trabalho e fico: “Gosto de ouvir isso? Eu compraria esse disco?” [risos] É gozado, né?
Tacioli – Mas aí você compraria.
Ná – Eu, né? “Eu ouviria esse disco?” Mas não é um pensamento mercadológico porque acho que essas coisas são relativas…
Dafne – “Será que os fãs de Capitu vão gostar de…”
Ná – É, já vi isso acontecer. Quando você tem uma força numa linha de trabalho, e aquilo tem a ver com sua personalidade, ali está sua força. Não adianta você querer fugir daquilo. Não adianta querer ser o Zezé di Camargo & Luciano que nunca vou fazer tão bem. Nunca vou convencer o público deles com a voz que tenho, com meu jeito de ser. Não vai ser autêntico. Dei um exemplo extremo, mas sei lá, não adianta querer fazer uma coisa que não sou. Então, acho que quem faz sucesso, faz porque tá no trabalho certo, com a personalidade que lhe condiz e que tem a ver com aquele trabalho. Porque senão não cola. Então nunca me preocupei com a coisa vista de fora. Sempre me preocupei em ser a Ná, porque quem gosta da Ná, vai gostar porque ela é autêntica, ela é o que ela é. E não porque, sei lá, né? Mas a gente nunca para de evoluir. Não dá pra dizer que sou assim e pronto. Aí você começa a estagnar sua criatividade. Então me dou essa liberdade de seguir algum impulso e sinto que o movimento hoje é esse. Consigo ter esse distanciamento naturalmente.
Tacioli – Se acostumar com o trabalho é uma visão muito de artista antigo. Não pode mudar, não pode desagradar meu público…
Dafne – Uma fórmula.
Tacioli – Sei lá, o Jorge Veiga se apresentava somente de smoking porque o público dele tinha que ser bem recebido e ele nunca poderia se apresentar de outro jeito. Ou cantores que não podem cantar certas coisas porque o público não vai gostar. O foco está no público. Pelo que entendi, você coloca esse foco em você e agora está abrindo um pouco mais isso.
Ná – É, minha postura é essa, mas não vejo problema nenhum no artista também… Nem gosto de falar que está engessado, porque não é engessado, na verdade. Porque, por exemplo, se você pega o Roberto Carlos… na medida que virou cantor de música romântica ele permanece igual há anos, não ousa mudar. Quero dizer, não tem sentido o Roberto Carlos mudar aqueles arranjos, aquele terno azul que ele veste, aquele jeito de cantar. Aquilo em si já supre todas as necessidades de quem vai escutar o Roberto Carlos.
Tacioli – Supre a sua?
Ná – Não compro disco do Roberto Carlos, mas já fui no show dele e fiquei em estado de êxtase de ver uma pessoa… de ver o Roberto Carlos. Vou abrir outro paralelo: João Gilberto. João Gilberto, longe de ser engessado, é uma coisa impressionante também. Ele é o João Gilberto e você vai ali pra ter contato com aquela música absoluta que somente o João Gilberto faz. Então ele não precisa ficar se renovando, se recriando. Mas isso é uma característica dele. Jorge Ben, a mesma coisa…
Dafne – Todos esses casos são de artistas que acabaram ficando maiores que suas próprias músicas.
Ná – Não maior que a música. Acho que você não consegue mais diferenciar o que é música e o que é persona. Acho que é isso. A mesma coisa com o Tom Jobim. Ele compõe daquele jeito desde sempre e é aquela música absoluta. Agora, cada um tem seu caminho. Eu acho que vivo a música o tempo todo e isso tem a ver com meu jeito de ser na vida, tá claro?

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