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Entrevistas de música brasileira

Ná Ozzetti

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Ná Ozzetti

parte 19/28

"Quantas pessoas estão assistindo a gente?" "51 milhões!"

Tacioli – Falando em TV, fora o programa Fábrica do Som, o Rumo…
Ná – A gente foi no Fantástico uma vez, acredita?
Dafne – Teve o clipe do Fernando Meirelles [ n.e. da música “Bem alto” ]…
Ná – Mas não deu em nada. [risos] Aquilo e nada foi a mesma coisa, porque também não era a linguagem. Acho muito complexo esse assunto, sobre o que é mercadológico e o que não é, ou o que poderia ser se fosse divulgado. Porque um trabalho como o do Rumo teve lá sua chance no Fantástico… Não sei também se basta uma aparição, mas a gente apareceu uma vez e não deu em nada. Agora, por exemplo, tive uma surpresa agradável quando participei do Festival da Globo. [ n.e. O Festival da Música Brasileira aconteceu entre agosto e setembro de 2000 e Ná Ozzetti defendeu a música “Show”, de Fábio Tagliaferri e Luiz Tatit, que lhe conferiu o prêmio de melhor intérprete ] Nunca tinha aparecido numa emissora dessas poderosas, somente nas TVs educativas. Lembro que antes de entrar no palco pra cantar, perguntei: “Quantas pessoas estão assistindo a gente?” Perguntei pra alguém da Globo. Aí falaram assim: “Olha, calculo umas 51 milhões!” [risos] Aquilo me deu um gelo. Gente, 51 milhões de pessoas vão me ver agora! E eu já era velha, não era assim, sabe, achando que tudo era natural, já tinha ralado muito, sempre tendo um pouco de controle sobre o público que estava me vendo. 51 milhões! Comecei a tremer, juro, minha boca secou. Foi muito emocionante pra mim cantar ali… E foi uma aparição relâmpago, quase nada. Ainda mais que o festival não teve repercussão.
Max – Passava tarde, né?
Ná – Teve uma repercussão negativa que a própria emissora tratou de abafar pra não denegrir a imagem. Foi uma coisa muito modesta. Mas minha carreira mudou a partir de então. No lançamento do Show [ n.e. Disco de 2001, lançado pela Som Livre e fruto de sua premiação no Festival da Música Brasileira da TV Globo ], pô, eu nunca tive um público igual aquele. Lembro que formava fila pra ver…
Max – Fui ao lançamento do Estopim [ n.e. CD de Ná lançado em 1999 pela Ná Records e relançado em 2005 pela MCD ], que é o disco anterior, e depois no Show. Era totalmente diferente. Desde a quantidade até o tipo de público.
Ná – É. E depois que lancei o Show aumentaram as vendas do Estopim, porque muita gente começou a procurar saber quem era eu. Então fiquei pensando: “Puxa, sempre fui taxada de cantora alternativa, que não tem talento pro sucesso. E eu mesma criei essa autoimagem e esse fato me mostrou que estava enganada. Que, na verdade, basta você mostrar”. Eu falei: “Puxa, consigo me comunicar com o grande público também”. Foi um flash, foi muito rápido e tive essa grande repercussão. Imagina se tivesse uma continuidade nessa exposição… As coisas teriam sido muito diferentes.
Almeida – E até hoje você colhe os frutos dessa exposição?
Ná – Então, sinto que de lá pra cá o público só vem aumentando. Depois do Show demorei um pouquinho [para lançar outro disco] e lancei o Piano e voz [ n.e. CD de Ná e André Mehmari lançado em 2005 pela MCD ], que já foi um outro momento porque já pegou também o fato de estar junto com André [Mehmari]. Era um fato inusitado até pra nós, criou um bafafá maior do que a gente esperava. Então a gente teve muito retorno e peguei um público que não era nem de festival, nem que curtia a minha trajetória, e que era um público mais da linha do André, que curtia outras coisas, que é um público numeroso até. E vice-versa, o meu pra ele. Quero dizer, a gente somou. Então, sinto que a cada novo trabalho se abre uma porta nova.
Almeida – Mesmo fora das capitais?
Ná – Sim, mesmo fora. Tenho feito muitos shows fora, em outros estados. Bom, a gente ganhou um patrocínio e fez uma turnê nacional que rendeu muito. Voltamos pra algumas cidades, fomos pra outras. Rendeu muito.
Tacioli – Essa exposição que a TV te deu em 2000 e essa percepção de que as pessoas te viram influenciou de alguma forma no seu trabalho artístico? Mesmo inconscientemente, algo que você foi perceber depois?
Ná – Não, na essência do trabalho, não. O que acontece é que a cada novo trabalho ou a cada ano que passa vou tentando desvendar essa comunicação. “Que mistério é esse da comunicação com o grande público?” E vou mexendo no repertório. Por exemplo: o Show foi completamente diferente do Estopim, porque tinha um repertório muito localizado. O Estopim foi um disco que fiz questão de trabalhar com os meus colegas de trajetória. Então ali tem o Dante [Ozzetti], o Luiz [Tatit], o Itamar [Assumpção] e o Zé Miguel [Wisnik], que até então eram as pessoas mais importantes da minha trajetória. E, de certa forma, a Suzana Salles, que chamei pra gravar “Princesa encantada”, além dos músicos presentes no disco e que montaram esse trabalho comigo. É um trabalho que tem um conceito que é o das pessoas da minha trajetória e de uma música que desabrochou em São Paulo. Foi muito claro isso. Aí no Show peguei um repertório, por sugestão da Som Livre, bem consagrado, bem nacional, mas no fim das apresentações cantava “Capitu”, do Luiz Tatit, e a galera do meu público ia ao delírio, porque se sentia presenteado, reconhecido. Piano e voz foi um repertório bem aberto, no qual a gente cantou Beatles, Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Egberto [Gismonti], Milton Nascimento. Foi um repertório muito aberto.

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