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Entrevistas de música brasileira

Ná Ozzetti

NaOzzetti-940

Ná Ozzetti

parte 18/28

Quantas vezes não ouvi isso: "Você canta?"

Tacioli – Você falou dos circos no Rio de Janeiro. Em São Paulo, onde eram esses pontos de concentração?
Ná – Nessa época, o Lira Paulistana começou a fechar e surgiu o SESC Pompeia, que foi a primeira ação cultural do SESC. E o Rumo começou a fazer suas temporadas lá; e não somente o Rumo, mas também o Arrigo [Barnabé], todo mundo migrou pro SESC. Olha, depois a gente passou um período que não tinha lugar pra tocar, somente o SESC Pompeia. Não tô lembrando de um lugar legal que reunisse as pessoas. Tanto que depois… Havia um circo ali no final da [Rua] Augusta, lembra desse circo? Todo mundo do pop rock se apresentava lá. Era o point.
Almeida – Eu sei onde é o espaço, fica na [Rua] Caio Prado com a [Rua] Augusta.
Ná – Isso, ali.
Dafne – Até hoje tem circo de vez em quando.
Ná – Chamava-se Projeto SP. Lembro que todo mundo se apresentava lá. Mas ficou uma coisa muito de gravadora, de mercado. Não havia lugar pra gente. Aí a gente começou a ficar alternativo demais. Até, não sei, meados da década de 1980, toda a imprensa e o público em geral davam atenção para o que a gente fazia sendo independente. Logo na sequência veio o pop rock…
Dafne – E tomou tudo.
Ná – E com o respaldo das gravadoras, investindo tubos de dinheiro nesse mercado. Então ficou muito claro o que era regra de mercado e o que era não regra de mercado.
Max – O que era alternativo e o que era mercado.
Ná – É, porque até então, tudo era música, era mais democrático.
Tacioli – Não existia alternativo.
Ná – Não tinha isso. Também não tinham os independentes. Aí começou o tal do mercado paralelo que somente no fim da década de 1990 amadureceu. Somente então a gente aprendeu a se profissionalizar dentro da música independente. Então hoje você vê um monte de selos independentes que são hiper profissionais. Tem a Biscoito Fino, a MCD, que agora concorrem com as gravadoras multinacionais. Mas teve um buraco aí até o final da década de 1990 que foi difícil. Quem produzia música independente tinha que vender nos shows. Foi um período muito difícil pra música.
Dafne – Foram grandes ondas sucessivas de fenômenos populares: pop rock, depois sertanejo, pagode e axé…
Ná – O grande mercado.
Tacioli – Mas em relação ao pop rock… No início, o Rumo e esses grupos transitavam no mesmo espaço para depois, com a entrada das grandes gravadoras, ocorrer uma separação. Houve uma mudança nesse convívio?
Ná – Pro convívio, não. Aqui em São Paulo, quem frequenta os mesmos programas de televisão começa a se encontrar e a ficar amigo. Mas, vamos supor, os Titãs, que eram muito próximos do Rumo – alguns foram alunos do Luiz [Tatit], do Paulo [Tatit] e do Akira [Ueno] -, apesar deles estarem no mainstream e o Rumo não, o convívio sempre foi um convívio de músico. Agora, para o grande público, ele conhece o que vai para televisão. Quantas vezes não ouvi isso: “Você canta? Mas em que canal você aparece?” [risos]

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