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Entrevistas de música brasileira

Ná Ozzetti

NaOzzetti-940

Ná Ozzetti

parte 14/28

A emoção era musical

Tacioli – Isso era 70 e…
Ná – Isso era 1979. Comecei a cantar as músicas do Sinhô pra esse novo trabalho, e na minha cabeça era isso… Cada compositor do Rumo cantava sua própria música e como eu não compunha, então não ia cantar as músicas do Rumo. Só cantaria mesmo as dos antigos. Até que o Zecarlos [Ribeiro] levou uma música pra eu cantar… Era “Cansaço”. Foi a primeira música do Rumo que cantei.
Max – Como era?
Ná – [canta] “Cansaço / Esse sentimento infinito tomou conta de mim.” Ele levou, com ele tocando violão e cantando, e fui pra casa estudar a música pra apresentar no próximo ensaio. Isso vale a pena contar… Pra mim aquilo era um texto falado, e aí comecei a cantar [canta]: “Esse sentimento infinito tomou conta de mim de um tal jeito”. Fazia teatralmente, e ficava: “Que ridículo, tô com vergonha de ir pro ensaio cantando desse jeito”. [risos] Não fazia as notas que eram [pra fazer]. Entendi o texto teatralmente e tentava dar uma interpretação teatral. Então voltei ao que o Zecarlos estava cantando. Colei o ouvido nas notas e comecei a perceber que não precisava de esforço nenhum pra cantar aquelas músicas, bastava cantar as mesmas notas, e que a expressão daquilo que estava sendo dito se dava pela precisão das notas e não pela emoção que traria de dentro. Na verdade, a emoção era musical. Era puramente musical. Então comecei a colar: [canta] “Cansaço / Esse sentimento infinito tomou conta de mim de um tal jeito / Eu procurei definir, é preguiça, incapacidade de seguir / Cansaço”. Aí vinha: [canta] “De tentar ocupar um novo espaço / Esse cansaço é físico e mental / Eu ando tão desanimado que nada nesse mundo se arrasta além de mim / Além desse bendito cansaço”. Aí fui pro ensaio e o Zecarlos me acompanhou. A partir daquele dia foi muito legal. Eles começaram ver que daria pra eu cantar as músicas.
Tacioli – Nenhuma das meninas cantava, nem a…
Ná – A Téia começou a cantar também. O Luiz começou a fazer música pra ela cantar e me deu “Canção bonita”. Então cantava “Canção bonita” e “Cansaço”.
Max – Essa maneira que você encontrou de interpretar “Cansaço” foi como se você tivesse descoberto ou eles também iam descobrindo isso na hora?
Ná – É, exatamente. E que dava pra um interpretar a música do outro.
Max – Mas isso era uma coisa que eles ainda não tinham percebido, foi uma coisa que você trouxe pro grupo ou…
Dafne – Você entrou na sintonia deles. É isso?
Ná – Não sei dizer. Precisa perguntar pra eles. Sei que pra mim foi uma descoberta, porque, inclusive o meu ouvido, o meu sentido auditivo abriu, porque comecei a perceber que estava com uma definição melódica muito mais aguçada do que tinha antes. Agora, coincidiu o fato de cantar a música do Rumo e o fato da coisa começar a abrir ali. Agora não sei como que isso…
Max – Bateu neles.
Ná – Por onde essa porta se abriu. Qual foi o caminho pra eles.
Max – Porque nunca te deram essa orientação também.
Ná – Nunca me deram e nunca também cheguei pra eles e falei: “Olha, saquei isso. Eu simplesmente cantei a música.”
Max – Foi orgânico até.
Ná – É, aí eles perceberam do jeito deles alguma coisa, e eu tô contando a minha versão aqui. [risos]

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