gafieiras

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Entrevistas de música brasileira

Ná Ozzetti

NaOzzetti-940

Ná Ozzetti

parte 13/28

Era muita teoria pra mim; queria cantar!

Dafne – Ná, como foi o seu primeiro contato com o canto falado?
Ná – Primeiro, entrei no grupo.
Tacioli – Entrou como?
Ná – Vou explicar então. Estava cursando Artes Plásticas e vivia cantando. Essa fase das Artes Plásticas foi a que mais cantei na vida porque tinha que fazer os trabalhos, que geralmente eram práticos, e ficava desenvolvendo em casa, sempre ouvindo música e cantando. Aí ia pra faculdade, continuava cantando nas aulas e em todo trabalho que a gente fazia eu criava a trilha sonora. Uma colega de faculdade, a Edith Derdyk, artista plástica, era mulher do Paulo Tatit e sempre me via cantando. E teve uma época em que o Rumo, que nem tinha gravado disco ainda, queria colocar uma mulher. Eram oito homens. Então a Edith falou pro Paulo: “Tem uma menina na minha faculdade que canta e você precisa escutá-la.” Então, meu pai tinha um sítio e eu levava muito o pessoal da faculdade pra lá. Numa dessas vezes, levei o Paulo e a Edith, entre outras pessoas, e o Paulo me escutou cantar e veio conversar comigo. Falou: “Olha, tenho um grupo, você não quer entrar? Tá faltando uma mulher”. Bom, juntou a fome com a vontade de comer, porque estava louca pra cantar. Já tinha percebido que o meu negócio era música. Então eu falei: “Claro, quero entrar”. “Então vamos marcar um encontro pra você conhecer os outros integrantes e o trabalho.” Lembro que o estúdio era na casa do Hélio Ziskind. E aí eles me explicaram que havia dois trabalhos: um era do canto falado. Era muita teoria pra mim; queria cantar! [risos]
Tacioli – Para de falar! [risos]
Ná – Vieram com aquela teoria toda do canto falado e lembro que, pra mim, a primeira impressão foi: “Nossa, será que vou me acostumar, será que vai dar certo?”. Fiquei um pouco preocupada. Mas decidi encarar. “Quero fazer música, vou encarar.” E, ao mesmo tempo, já estava começando com outros trabalhos. Cantava numa gafieira no Instituto dos Arquitetos Brasileiros, lá na Rêgo Freitas. Cantava lá. Foi meu primeiro emprego como cantora.
Max – Tinha um bar no subsolo.
Ná – É, e tinha uma gafieira às sextas. Mas no dia-a-dia do Rumo fui entendendo o trabalho. No primeiro show que a gente fez só cantava uma. Eles me convidaram no final de janeiro e em março já tinha uma temporada no Teatro do Bexiga. Não dava tempo de ensaiar o repertório das músicas do Rumo. Então só cantava uma única música, “Quantos beijos”, do Noel Rosa. O Hélio [Ziskind] também trouxe pro Rumo uma outra cantora. Era a Téia, que cantava uma outra música do Noel Rosa. No mais, eu operava a mesa de som. [risos] Passava o show inteiro regulando, porque o Rumo trocava muito de instrumento, cada música era um diferente. Então demorava essa troca de instrumentos entre uma música e outra, era muito engraçado. E eu tinha que mixar. Na hora de cantar “Quantos beijos” eu ia pro palco, cantava e depois voltava pra mesa. Esse foi o primeiro show. Aí, logo na sequência, a gente fez um trabalho… Eles já tinham feito Lamartine Babo e Noel Rosa, e iam começar a fazer o Sinhô. O trabalho era ir em casa de colecionadores, ouvir aquilo tudo em 78 rotações e gravar em fita cassete. Cada um ia fazendo sua seleção pessoal e depois a gente reunia todo esse material, todo mundo ouvia, pra fazer uma seleção de músicas pro repertório do próximo show. A gente fez uma nova temporada, no mesmo ano, de novo no Teatro do Bexiga. Nem existia o Lira Paulistana nessa época.

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