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Entrevistas de música brasileira

Ná Ozzetti

NaOzzetti-940

Ná Ozzetti

parte 12/28

Minha voz se aproximava mais da brejeirice da Carmen Miranda

Almeida – Como foi sua primeira apresentação como cantora, independentemente de estar num banda ou não? Você estava cantando igual à Elis ou à Bethânia? [risos]
Ná – A primeira vez que me apresentei foi como backing do Dante [Ozzetti] num desses festivais de colégio. Era um samba. Tinha uns 15 anos. Aí comecei a cantar com o Dante, que já tinha umas apresentações. Ele fez uma música especial pra eu cantar; ele tocava no piano e era estilo Maria Bethânia. [risos] Claro que a minha voz não tem nada a ver com a da Bethânia, não chega nem perto, mas tinha um jeito de frasear que era muito baseado nela. Não devia sair igual à Bethânia porque era outra natureza de voz. Depois entrei na faculdade e fiquei ouvindo muitas cantoras de jazz também. Já na faculdade entrei no Rumo, e aí não tinha como fazer uso dessas escolas porque era o canto falado. Quando não era canto falado era o Rumo aos antigos [ n.e. Projeto paralelo do grupo com releituras de autores clássicos como Noel Rosa, Lamartine Babo e Sinhô ], que me levou a ouvir as cantoras antigas. Foi assim que conheci a Carmen Miranda mais a fundo e fiquei fascinada. Pra mim era uma incógnita aquele jeito de cantar, aquela pegada sambista cheia de graça e malandragem que ela tinha. Descobri que tinha mais facilidade pra imitar a Carmen Miranda do que a Elis Regina, por exemplo, ou a Maria Bethânia, porque elas tinham uma outra natureza de voz e minha voz se aproximava mais da brejeirice da Carmen Miranda. Então comecei a perceber essas coisas de pra onde rendia mais a minha voz. No Rumo parei de ter como referências as outras cantoras que tinha até então. Tinha um pouco da Carmen Miranda pra cantar o Rumo aos antigos e nas outras [músicas] do Rumo, era a Ná mesmo, nua e crua, porque não tinha referência nenhuma de músicas que lembravam as músicas do Rumo pra tentar cantar igual.
Tacioli – Mas a Carmen Miranda tem uma célula que tem a ver com o Rumo também, não?
Ná – Então, no Rumo aos antigos.
Tacioli – Mas somente nele? A forma com que a Carmen canta não tem a ver com o canto falado?
Ná – As composições do Rumo eram muito diferentes dos sambas que a Carmen Miranda cantava… Era bem diferente, sei lá: [canta] “Cansaço / Esse sentimento infinito / Tomou conta de mim de um tal jeito / Eu procurei definir a preguiça”. Ou então: [canta] “Ele fez uma canção bonita pra amiga dele / E disse tudo que cê pode dizer pra uma amiga na hora do desespero”. Não dá pra comparar esse estilo com os sambas que a Carmen Miranda cantava. Não tinha como aplicar nessa fala o jeito coloquial da Carmen Miranda. Mas, por exemplo, nas mais brejeiras, mais tarde fui percebendo, por exemplo, no “Decorrer da madrugada”, eu faço uma Carmen Miranda ali, né? É aquela: [canta] “Deitado no trilho de um trem / Estando amarrado”… não, desculpa, corta! Essa é da própria Carmen… [ n.e. Estes são os primeiros versos de “O que é que você fazia?”, de Noel Rosa e Hervê Cordovil ]
Tacioli – Viu só como mistura? [risos]
Ná – Pois é. [risos] Pera aí: [canta] “Um movimento inesperado no decorrer da madrugada / E foi ficando assim de gente / Uma legião de acordados com os olhos no horizonte / O que se passa, o que é isso? / Uma multidão olhando pra um lugar tão fixo, tão explícito, tão expresso / O que é isso? / Vai ver que tem alguma coisa que se move, ou uma nave ou ovni, alguma coisa”. Tem uma brejeirice ali porque tentei trazer um pouco da Carmen Miranda pra cá. Era mais fácil trazer minha experiência do canto falado pra entender o canto da Carmen.

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