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Entrevistas de música brasileira

Ná Ozzetti

NaOzzetti-940

Ná Ozzetti

parte 10/28

Queria aprender a cantar rock daquele jeito

Max – Qual foi a primeira [cantora] que você cantou igual?
Ná – A primeira de todas, sem pensar em técnica, foi a Rita Pavone. Depois, na sequência, a Elis Regina, desde a aparição dela no festival…
Tacioli – Desde a Brotolândia? [ n.e. Referência ao disco Viva a Brotolândia, o primeiro de Elis, em 1961 ]
Ná – Achava o máximo cantar igual a Elis Regina. Ficava escutando os discos dela… E da Bethânia… Houve uma época em que fui assistir um show da Bethânia. Tinha 14 anos. Foi o Drama – Luz da noite, lá no Tuca. [ n.e. Show que se transformou no disco Drama – 3º ato, de 1973; o áudio do show, na íntegra, está aqui ] Foi a primeira vez que fui a um show na vida. E aí comprei o disco, que sabia de cor e salteado. Cantava igualzinho à Bethânia, claro que guardada as devidas proporções. [risos] Mas cantava com os mesmos trejeitos dela, a respiração igualzinha. Ficava escutando um disco exaustivamente até conseguir cantar igual. Lembro quando surgiu a Rita Lee com aquele disco Atrás do porto tem uma cidade. [ n.e. Disco de 1974, o terceiro solo de Rita Lee ]. Achei demais aquele jeito de cantar em português. Porque escutava Beatles e Rolling Stones e eles cantavam o rock em outra língua. E aí apareceu a Rita Lee de uma forma muito natural. Ela foi muito inteligente em escrever as canções e fazer um rock que soava bem em português. E isso me chamou atenção na época; foi um impacto! Vi aquilo com uma naturalidade grande e era rock mesmo. Não era rock com sotaque brasileiro.
Tacioli – Mas o que diferenciava o rock da Rita Lee do rock do Roberto Carlos?
Ná – Acho que o Roberto Carlos fazia mais canções. Não era rock’n’roll. Acho que a Rita Lee veio com o rock mesmo, com a linguagem Rolling Stones na veia, sabe? O Luiz Carlini na guitarra, que era diferente do Roberto Carlos. O Roberto Carlos tinha um outro tratamento musical…
Dafne – Como se ele apropriasse de uma coisinha ou outra do rock, mas que não era rock.
Ná – Não era rock, aquilo já tinha um jeito, tinha um sotaque brasileiro. A Rita também era música brasileira, era rock brasileiro, mas tinha uma alma do rock, não sei, é uma coisa difícil de explicar. Mas era um alma rock’n’roll.
Tacioli – O Roberto Carlos não ia tocar fogo na guitarra. [risos]
Ná – É. Mesmo o Tropicalismo, com Mutantes e tudo, nunca me veio na mente que aquilo era rock’n’roll. Pra mim, rock era Rolling Stones, Led Zeppelin, sabe? E o que se fazia com guitarras na época do Tropicalismo, mesmo o que os Mutantes faziam, era uma outra história. Acho que a Rita Lee foi a primeira. Foi um impacto pra mim escutar Atrás do porto tem uma cidade. Fiquei na cola mesmo, queria aprender a cantar rock daquele jeito, porque havia um modo de cantar que era o da escola da Elis, que era o da escola da Bethânia. Isso antes da minha carreira profissional, eu como aspirante à cantora. Achei o máximo aquela pegada rock da Rita Lee. Fiquei mesmo fascinada. Delirava nos shows, entrava em êxtase.

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