gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

MonicaSalmaso-940

Mônica Salmaso

parte 6/25

Cantei “Espanhola” poucas vezes. Eu tinha os meus limites

Tacioli – Mas havia algum receio de se tornar, unicamente, mais uma cantora da noite?
Mônica – Teoricamente eu tinha, mas, na verdade, era o passo que eu tinha pra dar. Eu não tinha outro passo pra dar. Eu pensava, achava que não era legal. Por outro lado, foi uma fase em que aprendi muita música, porque é óbvio que eu não ia embora (do barzinho depois de cantar)… eu ficava e ficava ainda cantando nas entradas dos outros. No Vou Vivendo tinha, depois de mim, um regional, que era campeão… Tinha o Xixa – pai do Pixinga – que tocava cavaquinho, e ele era lindo! Eu ficava e ficava cantando. Aí comecei a ouvir pra aprender a cantar coisas que são do repertório do regional e eles não agüentavam mais e queriam cantar… O Xixa com o cavaquinho falava assim, “Eu tirei uma música da novela”. Acho que era uma música do Pepeu Gomes, que ele queria que eu cantasse na entrada, e eu falava, “Não! [risos] Quero cantar ‘Lábios que beijei!’” Então eu aprendia muita música. Tem uma coisa legal de cantar a noite: você não prepara um show. Não é um show. E quem está lá, está a fim de ver cover. Está a fim de ver você cantar a música que o cara já gosta, se possível, igual à que ele já canta.
Seabra – Mas “Espanhola” você cantou quantas vezes?
Mônica – Ah, poucas… Cantei poucas vezes, eu tinha os meus limites. [risos]
Tacioli – Você se esquivava?
Mônica – Fala que não tem, que não dá… Tem gente que pede, depende do lugar, né? No Café Paris, que é um lugar bem pequenininho, esquisito e divertido ao mesmo tempo, não sei se vocês já foram lá, fica na frente da USP. Ele é compridinho e os músicos ficam num mezanino, no fundão, mas dá pra ver… É esquisito, meio distante; ao mesmo tempo é pequenininho, e tem sempre aquele cara que sai do trabalho e vai sempre naquele mesmo lugar, já entra na cozinha… E esse cara, [grita] “Ô, Mônica!”, aí você fala “Não, não dá! Não canto, não tem, sei lá!” E você consegue falar porque vê aquele cara toda hora e fala “Não!”, pronto, acabou. No Vou Vivendo, que tinha muita rotatividade, aparecia o papelzinho. A gente olhava, e se estivesse a fim, a gente cantava, se não, não. Era mais ou menos isso. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha uma super curiosidade de ouvir coisas e você não está pensando que aquele repertório vai delinear a sua personalidade artística. Não tem essa. Ninguém está te vendo com personalidade artística, inclusive; “Canta aí enquanto a gente bebe aqui”, entendeu? Então eu cantava músicas que eu acho lindas mas que hoje, por exemplo, quando vou pensar em gravar, eu não gravaria, porque elas são, ou pelo menos eu as vejo agora dentro de uma coisa que é muito datada. Às vezes é política em relação ao Brasil de uma outra hora, tem uma mensagem de texto ou uma coisa até musical, melódica, rítmica que não combina.., Mas lá tudo estava valendo.
Tacioli – Quais músicas?
Mônica – Ah! Havia um monte de coisas, não sei se eu vou me lembrar… Falando veio na cabeça uma, que era do Paulo Cesar Pinheiro. Como é que se chamava? Era super de protesto assim… “Olha aí”? É, chamava-se “Olha aí”, que era super de protesto e a letra é forte… Eu adorava cantar, mas não gravaria. Não agora. Não vejo ela caber em lugar nenhum. Ou músicas que já foram muito gravadas e que você não acha… Eu não estava preocupada se eu tinha uma coisa pra expressar através da música. Eu estava a fim de aprender música. E tinha um cara lá, que tocava no mesmo lugar, que ele tinha uma pasta enorme de letras de tudo o que você imaginasse. E ele fazia assim, parava numa e falava “E essa daqui”. E tocava. O cara era uma enciclopédia de música, de várias áreas da música popular. Eu acho que era tudo em português. Então eu estava a fim de aprender. E aí fiquei assim… Era pra contar a história toda ou era só pra perguntar quando começou? [risos]
Monteiro – Esse é um site de grandes entrevistas. [risos]
Mônica – E eu cantando no Vou Vivendo, o Eduardo Gudin, que era um freqüentador, ex-sócio do Vou Vivendo, estava passando por ali e estava com uma idéia, que ele queria montar um grupo, e queria convidar uns cantores que cantassem solo bem, mas que se comportassem bem em arranjos vocais, também. Porque ele tinha um projeto pessoal de criar um trabalho em que ele pudesse escrever arranjos e ao mesmo tempo vozes-solo, fazendo as melodias das músicas que ele compunha e tudo o mais. Era um projeto dele. Daí ele me viu cantando e me convidou. Então foi dali que saiu o próximo degrau. Pra mim, sempre vejo assim… Foi muito assim… Nada doeu, até hoje, nada foi dor, tudo cabia. Toda hora eu falava, “Ah! Será que eu sei, será que eu dou conta”, mas não era, sempre deu pra dar conta. E aí ele me convidou, a gente começou a ensaiar. Minha prioridade era esse trabalho. Eu só fazia isso…
Tacioli – Esse aí era o Notícias?
Mônica – É o Notícias. O Notícias teve duas formações anteriores a essa. Foi longo o processo. A gente fez uma formação, aí começou a trabalhar. Daí não era bem isso o que ele queria e desfez a formação. Aí fez uma outra… Eu estava desde o começo, então, aprendi tudo, desaprendi, “Não é nada disso! Não é isso o que eu quero! Pára!”, e aí vai tudo de novo. Até que virou finalmente aquela formação que gravou o primeiro disco do Notícias. Nessa época, o Gudin era produtor da Velas. Ele era um dos produtores artísticos… Não sei se o nome era esse, mas ele levava projetos pra Velas e o disco saiu pela Velas, originalmente. Aí ele me perguntou se eu estava a fim de… porque a gente já se conhecia bastante. Foram cinco anos, sei lá…

Tags
Mônica Salmaso
de 25