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Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

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Mônica Salmaso

parte 5/25

A Rosi Campos era um ícone pra mim

Dafne Sampaio – Como foi a reação em sua casa?
Mônica – Esses dias a minha mãe lembrou disso. Eles foram legais. Segundo a minha mãe, ela estava já cansada de me ver aflita, porque é insuportável. É uma hora meio cruel, né? Meio não, é uma puta de uma crueldade você pegar um adolescente cheio de hormônio e falar pra ele “Decida o que você vai ser o resto da sua vida”. E tudo o que você tem é a imagem de uns caras com 30 anos, descoladaços, que você acha… E meu, é muito trash… É muito errado… Eu estava cheia de coceira, cheia de alergia, histérica e sofrendo com isso e tal. Ela disse que na hora em que ouviu, falou, “Nossa, depois eu penso o tamanho que é isso, mas tá bom… Escolheu? Oh, vamos nessa, vamos ver se você se acalma!” [risos] O meu pai é um engenheiro que tem um ouvido musical muito especial. Ele é doido, apaixonado por música. Então, metade dele ficou preocupado e a outra metade deu uma coceirinha, um negócio de, “Pô, legal, né?!” Eles toparam. Na hora, eu me lembro, enquanto eu chorava, eles toparam tudo. Mas hoje eles falam que deu um… Esquisito, né? Porque não há um caminho que pareça pelo menos com um caminho. É uma coisa meio… Então, está bom. E falei, “Acho que eu devo fazer umas aulas e estudar.” “Está bom!” “Então, está bom?!” Aí, eu fiz. E aconteceu um negócio legal. Essa aula da Regina me levou pra um grupo de estudo, de leitura… e daí era legal porque eu já estava cantando com outras pessoas. Aí, no Equipe, eu tenho uma amiga, que ainda é minha amiga, que a mãe dela trabalhava com a Rosi Campos – ela era ícone pra mim, porque era Mãe Ubu, e eu tinha visto Ubu, que foi uma febre no meu terceiro colegial. [n.e. Ubu – Pholyas Physicas, Pataphísicas e Musicaes, célebre e premiada montagem do Grupo Ornitorrinco, dirigido por Cacá Rosset]
Almeida – Eu conheci o Ubu pelo Chiclete com Banana, do Angeli. Havia umas foto-novelas da peça e aí eu ficava, “Puta, isso aqui…”
Mônica – Meu, era uma febre. A moçada enlouqueceu, virou um troço de filas gigantescas… Era o forró, era o Ubu. [risos] Nego ia no Ubu. E eu fui várias vezes. E a Rosi ela é muito fodona, né? Ela é um mulheraço. Ela tem uma puta voz linda. Ela canta pra burro. Ela canta super, super. Ela é uma cantora, não é uma atriz que canta. Ela é uma atriz! “Uau!” E essa minha amiga conhecia, porque a mãe dela e a Rosi trabalhavam juntas. Como foi meio de sopetão e eu tinha recém saído do colegial, essa minha amiga também soube que eu tinha resolvido que seria cantora e sei lá em que situação ela comentou com a Rosi, ou foi a mãe que comentou, sei lá, que uma menina maluca da escola falou que não queria fazer faculdade porque seria cantora. Eu nem sei como foi. Eu só sei que a Rosi estava fazendo uma peça de teatro que era dirigida pelo Gabriel Vilela. E ele estava montando uma próxima peça e ele queria uma cantora pra fazer uma coisa específica, que era uma Verônica de Cristo – na procissão da Paixão tem um personagem da Verônica, aquela que enxuga o rosto de Jesus – e canta um canto na procissão da Paixão. E ele queria essa figura dentro da peça e não sabia… Ao mesmo tempo era um elenco muito maior daquele que a Rosi tinha; que já era um grupo na verdade. Era um elenco meio grande e meio de gente nova, começando. E aí ele pediu pra Rosi uma indicação. E ela blefou. Falou que ela conhecia uma menina que tinha 19 anos, que cantava pra caramba…
Sampaio – E ela não te conhecia ainda.
Mônica – Nada. Que essa cantora era foda! Lia música. Ela falou qualquer negócio assim. E aí ela me ligou, “Olha, Mônica, aqui é a Rosi Campos. Estou ligando porque eu pedi o seu telefone pra Juliana e… Estou fazendo a peça do Gabriel Vilela. Ele está montando uma outra peça, e pediu a minha indicação e eu dei o seu nome. Você vai e faz o teste e faz a peça, está bom?”, e puf!, desligou. Daí eu, “Ah!”. Aí o Gabriel ligou. E eu era assim, uma pulga, mas também eu não tinha nada pra… Entre nada e a possibilidade de alguma coisa, então, está bom. Acho que eles me ligaram em julho… Ou comecei a ensaiar em julho e esse negócio já tinha sido no comecinho do ano, alguma coisa assim…
Seabra – Sim, mas no mesmo ano…
Mônica – Foi. É, não foi tão longe, não foi. Era divertido pensar que eu ia fazer. Pra mim foi, na verdade, uma mão na roda porque era um grupo e não era eu sozinha. Eu não sabia por onde começar, eu não tinha amigos que… Tinha até amigos músicos, mas eu achava que eles eram muito mais profissionais, sabe? E eu não, estava começando. Eu tinha muitas vergonhas… O cantor meio que lidera isso, entendeu, e eu não tinha a menor possibilidade de liderar ou formar grupo ou qualquer coisas dessas, né?! Então fui fazer o teste lá. E aí eles disseram que acharam a minha voz bonita mas, na verdade, eles me deixaram entrar porque eu tinha sido corajosa; porque eu cheguei com o violãozinho assim, “Rangandam, garangandam”, e cantei uma única música que eu conhecia… [risos]
Tacioli – Qual era a música?
Mônica – Acho que “Lugar comum”, do João Donato e do Gil, que é bem fácil de tocar. Foi assim que eu entrei. Aí foi um puta de um investimento… Fizemos uma peça que chamava O concílio do amor lá no Centro Cultural Vergueiro, onde hoje há uma biblioteca de braile, ali onde é o negativo da biblioteca, do outro lado, era só cimento e a gente fez tudo lá. E era um grupo assim, daquele que pinta o chão, limpa, faz faxina, costura o figurino… O meu papel não falava nada, mas mesmo assim eu estava dentro da balada. E a gente fazia de quarta a domingo direto. Foi sensacional! Pra mim foi escandalosamente bom. Havia o nervoso de me apresentar, eu cantava mas ficava escondida. O meu figurino era um véu preto. Eu adorava fazer a peça, só que não dava pra fazer mais nada, porque a gente chegava lá às 6 da tarde e saía à meia-noite, de quarta a domingo. E segunda e terça eram os days off que tínhamos; o nosso final de semana. E eu não tinha coragem de… Eu tinha a sensação de culpada católica, de que eu estava bundando, enquanto o mundo trabalhava. Eu não conseguia não fazer, ficava tentando estudar. Era uma neurótica! Aí fiquei fazendo a peça e fui convidada, nem lembro como, por umas pessoas que eram da minha geração e que estavam tocando. Elas vinham do Oswald… Eu não lembro como chegou o convite, “Ah, quer fazer um grupo?” Aí fui fazer. Também super insegura. Pra mim era uma relação séria, tudo era muito sério… Eu ia ser cantora, né? Aí saí da peça, porque comecei a fazer uns showzinhos no Blue Note, no Café Piu Piu, no Bar da Virada, lá na Vila Madalena.
Tacioli – O que você cantava nesses barzinho?
Mônica – A gente fez um show mesmo. Então, havia Chico, Milton, umas coisas em inglês, uma música do Seal – mas isso foi mais pra frente. Tinha uns trecos em inglês e muitas coisas em português. Era legal! Era um som meio pop, bonito. Eles tocavam bem e tocam ainda. E eu curtia fazer. Aí o grupo se desfez porque dois deles foram viajar, foram fazer curso fora, nos EUA. Aí dançou e eu fiquei… já estava cantando. Chegou uma hora em que fui cantar na noite. Aí cantei no Bom Motivo, que ainda existe, no Vou Vivendo, que infelizmente não tem mais, e no Café Paris, que deve ter, mas eu não sei, porque há muito tempo ele estava no vai-não vai. Mas era muito legal. E eu cantei uns dois anos, dois anos e meio, lá. Então eu fazia assim: eu entrava e cantava uma entrada só, porque eu não queria me viciar naquele pique de ficar… No Vou Vivendo era assim: eu entrava, fazia a minha entrada e poderia ir embora… Eu dava o maior gás; aquilo lá era super sério. Existem os vícios da noite, né?! E você vai ficando calejado: muita gente cantando parabéns enquanto você canta, muita gente conversando. Uma vez eu estava no Bom Motivo e não havia lugar. Havia uma esquininha entre a janela, que na verdade era uma varanda, uma parede e ali é que eu estava em pé. O pedestal do microfone estava na minha frente. Aí, lotou. Eu cantando e daqui a pouco um garçom pega o pedestal e tira pra passar…[risos]. Eu estava cantando e o microfone foi embora… [risos] Falei, “Acabou minha… vou embora do Bom Motivo”.

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