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Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

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Mônica Salmaso

parte 4/25

“Peixes é assim: quem pega, frita e come!” Fodeu!

Flávio Monteiro – Você já falou do Globo de Ouro. Quando é que a música começou a ter importância em sua vida? Nessa época de Globo de Ouro você já pensava nisso?
Mônica – Desde pequenininha eu gostava de cantar. Gostava, assim…
Monteiro – Sua família é…?
Mônica – Não tinha nenhum. Hoje tem. Meu irmão é baterista. Ele toca com a Paula Lima, com o Mattoli [n.e. Líder do Clube do Balanço].
Tacioli – Seu irmão é mais novo?
Mônica – É. Edu Salmaso. Mas ele nem tinha… Eu era pequena, pequenininha mesmo. Minha mãe tocava um pouco de violão de farra, a gente cantava – eu, o Edu e a minha irmã. Eu tenho mais uma irmã mais nova e a gente cantava junto, mas eu era afinada. Eu vim fácil de cantar. Eu cantava e os adultos achavam bonitinho que eu era afinada e blá, blá, blá…
Monteiro – Você cantava o quê? Você lembra de alguma coisa?
Mônica – Ah! Era engraçado. Na casa dos meus pais tinha uns vinis de MPB que eu gostava. Eu amava o Chico Buarque. Mas eu amava, assim… Eu era uma coisica, assim que deu pra entender o que nego estava falando, eu amava o Chico Buarque, entendeu? Eu acho que eu nasci meio velha, já. Eu sempre tive um interesse dramático, que é muito mais velho do que eu estava vivendo ali. Então eu ouvia… Tinha um disco que tem “Feijoada completa”, “Cálice!”, “Pedaço de mim”… Trash! E eu amava! E eu ouvia e cantava junto e tal. Tinha umas coisas do Milton, mais velhas, tinha Elis, um pouco, tinha muita coisa do Chico, Roberto Carlos. Não tinha muita coisa. Tinha o Sargent Peppers, dos Beatles. Ah! Tinha um disco importante: um do Dorival Caymmi que era furado porque eu ouvia muito.
Tacioli – Que disco era esse do Caymmi?
Mônica – Era um disco cor-de-rosa, não sei que nome ele tem. Ele é branco com cor-de-rosa. Quase tudo ele cantando sozinho. E tem ele e a Nana cantando “Acalanto”, que é trash!. É muito lindo e eu ouvia muito. Então isso eu ouvia e cantava junto. Eu via shows, eu achava bonito, colorido também, mas muito distante. Eu não sabia o que era, o que poderia ser cantora, não tinha nenhuma referência… Nada, nada. Aí fui pro Equipe fazer o meu colegial e lá eu também cantava. Festinha, Pink Floyd, aquelas coisas. Aí quando saí do Equipe resolvi que eu não ia prestar vestibular logo naquele ano porque eu precisava curtir o último ano da escola. Quando eu saí, decidi que eu ia fazer Jornalismo e aí fui fazer cursinho. Fui pro lugar mais nojento, horrível do mundo que era o Anglo, na rua Sergipe, manhã, Humanas. [risos] Eu não sei se vocês já fizeram… É horrível, é o pior lugar do mundo, não tinha janela, tinha 230 alunos, aquele professor fazendo piada e aqueles caras jogando bolinha de papel… Aí, meu Deus, pra mim era assim um inferno. Absolutamente! Humanas ainda é aquela moçada que não sabe o que vai fazer, sabe? [risos] “Ah! Acho que vou fazer publicidade. Ah! Não-sei-o-quê. ” Aí fica truco, aquele pique… [risos] Puta, fiquei muito infeliz, mas muito mesmo. Aí fui fazer aula de canto. Eu sabia que tinha uma escola, na Vila Madalena, que é o Espaço Musical, que ainda tem, do Ricardo Breim, que era do grupo Rumo. Ele tem uma escola que era legal já desde aquela época… Isso foi em 1988, 89. Eu sabia que ele dava uma aula muito legal de percepção musical pra todo mundo, quaisquer pessoas… E eu fui fazer essa aula de canto porque eu precisava de alguma alegria. Eu estava muito insuportável! Só que daí eu entrei na classe – foi até engraçado, ela vai ficar brava, mas eu vou contar: essa professora dá aula até hoje. Chama-se Regina Machado, é uma cantora, gravou disco e tudo, e tem uma escola e dá aula. E a Regina é uma escorpiana, assim, brava, né?! Então eu cheguei na primeira aula, meio tímida e tal, ela estava com uma caderno na mão, e nem olhou. “Mônica, né?” Aí ela anotou e falou, “Que signo você é?” “Peixes.” “Você sabe qual é a história de Peixes?” Eu falei, “Não!” “Ah! Peixes é assim: ninguém consegue pegar. Quem pega, frita e come.” Daí eu falei, “Uau”! [risos] Fodeu! Aí fiquei fazendo aula com ela. Foram dois meses de aula de canto de pura alegria, vivido simultaneamente com um treco que era insuportável. E foi o que precisava. Aí anunciei na minha casa que eu queria ser cantora.
Tacioli – E não prestou vestibular?
Mônica – Não. Saí do cursinho. Saí total. Fui fazer aula de violão. Foi meio esquisito, ninguém sabia, nem eu, o que é que era isso. Minha mãe perguntou, “Mas faz o quê?” Eu falei, “Não sei.” “Aulas?” Não tinha nem faculdade de… Estava abrindo a de Música Popular da Unicamp. Eu até conhecia umas pessoas que vinham do Oswald, do Equipe, do Vera Cruz e que entraram na… Não me lembro se isso foi exatamente naquele ano, mas estava meio assim… Não, certamente não foi, porque eu já havia começado a trabalhar. Então, não tinha faculdade de música popular e fui fazendo aulas, aulinhas aqui, aulinhas ali.

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