gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

MonicaSalmaso-940

Mônica Salmaso

parte 3/25

A função da arte é colorir a vida do outro

Tacioli – Você acha que isso é “geracional”, algo de sua geração, ou vem dessa coisa de disco independente? Porque se você tem uma grande gravadora, há uma estrutura maior e as coisas não costumam se comportar assim.
Mônica – Eu acho que sim. As coisas são mais escancaradas hoje. Em todas as áreas. Na música é assim. A partir do momento em que ficou possível você gravar o seu próprio disco, até dentro de sua casa, e mais gente passou a fazer, e mais estúdios menores foram acontecendo, e selos pequenos acontecendo, e lojas meio “cabeça” que estão fazendo um tipo…, que criam também, as coisas vão se abrindo, entendeu? Não é mais aquele artista que… Ainda tem isso e vai ter por muito tempo, mas é uma herança da desinformação, sabe? O artista era um cara que era um ser diferente, colorido. “Ele é uma coisa que eu não sou. Eu trabalho no banco e esse cara, não. Esse cara é artista. Ah! Eu dou aula, mas esse cara, não. Ele canta!”, entendeu? Uma distância de desinformação entre uma carreira artística e uma carreira normal. Eu acho que, conforme esses meios de fazer, de produzir se tornaram mais visíveis fica mais fácil pra entender que é um ofício como qualquer outro. É colorido, mas porque não ser colorido qualquer outro também, entendeu? Eu gosto muito mais disso. Eu acho que – até respondendo aquele negócio [n.e. Sobre o show com o Benjamim] – essa relação que a gente tenta fazer é, primeiro, porque é uma relação muito mais segura pra gente, a gente se sente feliz assim. E não sou somente eu, por isso que eu falo assim. E é meio propósito da arte, entendeu? Pra mim. O propósito é colorir a vida do outro, não é falar pro outro quanto branco e preto você é e eu que sou colorido, entendeu? É o contrário. É colorir… a expressão passa por isso.

Seabra – Como você tem o seu momento no dia de passar fax, essa coisa mais prática, o sujeito que tem a vida prática tem o direito…?
Mônica – Ele vai colorir… Exatamente… Eu acho assim… Eu não sei… Estudei no Equipe, que é uma escola “humanas”, mesmo quem escolheu outra coisa, fundamentalmente, é. Isso foi referência. O que eu escolhi não passou por nenhum conteúdo de nenhuma das matérias que eu fazia lá. Um pouco de História, mas quase nada, né? Mas eu tenho uma referência muito forte da paixão com que alguns professores davam aula, entendeu? Eu não lembro nada de Biologia, mas o professor de Biologia é uma das pessoas mais geniais que eu conheci. De Artes também, de História também, de Geografia também! A gente – eu e minha turma – teve uma puta sorte. Foi muito legal. Eu não sabia o que eu queria ser, mas eu queria ser apaixonada como aquele cara ali, entendeu? Isso é artístico! A minha aula de Biologia era uma arte, porque o cara me tocava, não pela mitocôndria, mas pelo jeito como ele ia pra me dizer aquilo que era importante pra ele, entendeu?
Almeida – E é foda pensar que hoje em dia a molecada não vai ter esse tipo de inspiração, ou muito poucos…
Mônica – Mas, olha, é uma exceção o que eu tive…
Almeida – Não era. Eu estudei em escola estadual a minha vida inteira e, até o ginásio, eram caras que defendiam a profissão e a função deles com muito…
Seabra – É mais um caso mais isolado…
Mônica – Não sei se isso foi… eu imagino… eu espero que isso tenha sido assim e que volte a ser… É difícil, né…
Seabra – Não. Numa escola particular hoje em dia, provavelmente, isso deve até ser cobrado dos professores, para que eles se dediquem mais… A questão não é essa. Se há cobrança, a coisa não acontece…
Almeida – Não… Não sei qual que é a relação. Não dá pra falar isso, dá? Se era caras realmente apaixonados ou se eram bem remunerados.
Mônica – Não. Eles eram, primeiro, apaixonados.
Almeida – Sem dúvida.
Mônica – Depois remunerados.
Almeida – Talvez por isso eles estivessem lá, não?
Mônica – Não. Ali é um exemplo muito específico porque são professores que estão lá desde que fundou o cursinho do Equipe, entendeu? É uma outra relação.
Tacioli – O Equipe é conhecido por essa formação artística, humana…
Mônica – Quem quisesse entrar na Poli, talvez o Equipe não fosse o melhor lugar. Dá pra entrar, porque você aprende a pensar num tipo de educação igual a essa. Mas tem um tipo de carga, de dados, de coisas do estudo exato ou do estudo biológico também…Não sei se estou falando besteira. Tem gente da minha turma que entrou na Poli, na Medicina da USP. Você não vai lá pra estudar, estudar, estudar… Essas pessoas, elas meio que se prepararam exclusivamente pra isso, mesmo estando lá. Eu não. Eu chorava porque era o último ano, e eu nunca mais iria ver aqueles professores. Então eu era uma humana dentro das Humanas. É triste quando você percebe que as coisas muito básicas, de qualidade de gente, não estão acontecendo. Não sei, eu acho muito triste quando chego numa situação de grupo ou de dar aula e percebo que o mínimo do contato da pessoa com ela mesmo, pra ela descobrir qual é a dela, não existe, entendeu? O mínimo. Mas é o mínimo mesmo! Tem um olhar sempre pra fora, sempre comprado de uma imagem, de alguém que você não conhece, nunca viu, mas na propaganda da Lux Luxo disse que é… Isso é sério! Você olha de fora depois, quando você está numa boa, e acha engraçado ou até compra também… E você fala, “Pô, queria ser bonita e gostosa que nem essa daí!”. Ou, “Quero aquele vestido daquela outra ali!”. Mas é grave quando você não tem uma formação que te faz olhar para o que você acha que bate com você. É grave quando você não tem uma formação que lhe permita olhar assim…
Almeida – Talvez seja esse o ponto: crianças que não têm mais contato com adultos apaixonados pelo que fazem.
Mônica – Esse é o grave, porque disso sai não somente uma má formação acadêmica. O cara não vai conseguir ensinar.
Almeida – Mas um caminho pra essa criança.
Mônica – Mas também, o cara não vai dar um tipo de exemplo que é o único exemplo real. O exemplo da TV, do shopping center é um tipo de contato muito meia boca. Agora, o professor é um contato humano, a família é um contato humano, o amigo é um contato humano. Já na rua ninguém vai, porque é perigoso e não-sei-o-quê, vai fechando o cara e sobra pra ele um tipo de contato muito superficial. Uma coisa é você querer se apaixonar pelo seu professor – todo mundo já se apaixonou… Eu, pelo menos, assim… [risos] Mas era um cara que eu estava ali, numa maior crise, mas ele é gente… Outra coisa é eu ficar sonhando com o…
Tacioli – Era o de Biologia?! [risos]
Mônica – Não era. Ele era muito mais velho. Não, não. O de Biologia eu queria que ele morasse na minha casa somente pra eu ficar olhando pra ele, assim, mas era outra questão. Havia lá os gatos, né? E a gente ficava meio, meio… Puta, era muito engraçado… É bizarro! Eu não tenho saudades de ser o que eu era, mas eu acho que era importante.

Tags
Mônica Salmaso
de 25