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Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

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Mônica Salmaso

parte 2/25

Me sinto muito mais um padeiro do que uma diva

Seabra – Mônica, indo de um pólo ao outro, num show seu que eu vi, do Benjamim [ Taubkin ] com uns colegas latinos…
Mônica – O Carlos Aguirre.
Seabra – Isso, lá no auditório do SESC Vila Mariana. Digo de um pólo ao outro porque nessa apresentação você e o Benjamim quiseram estabelecer uma outra relação com a platéia.
Mônica – Ficou engraçado. [risos]
Seabra – Ficou engraçado. Onde você tem conseguido esse tipo reação que vocês tentaram colocar ali?
Mônica – Aquilo ali foi uma experiência de um… O projeto [n.e. Ares e pensares, projeto realizado pelo SESC São Paulo, em outubro/novembro de 2002. Nesse show – Carlos Aguirre e Núcleo Contemporâneo –, o músico argentino que esteve pela primeira vez em São Paulo, apresentou-se com Benjamim Taubkin, Mônica Salmaso, Lui Coimbra, João Taubkin e Ari Colares] era esse… Na verdade fui convidada pelo Benjamim. Mas esse convite de criar um projeto que tentasse quebrar umas regras de comportamento do público em relação ao show e dos papéis do artista e tal, isso tudo era, na verdade, um plano, uma idéia do próprio SESC, que convidou o Benjamim. Foi mel na sopa porque ele adora isso mesmo. Ele topou e aí me convidou, assim como as outras pessoas. Eu, pessoalmente, acho que nem é tão por ali: essa questão de se as pessoas devem ou não se manifestar assim ou assado. Acho que aquilo era uma hora, numa experiência, era uma brincadeira, era uma história que rolou naquele dia. Mas eu não sinto… A minha natureza de gente, não é nem de cantora, nunca foi uma natureza de gente que gosta dessa relação mitificada do artista. Nem eu gosto de ver, nem eu gosto de ser vista, nem dura cinco minutos, porque eu não sou assim. Não estou nessa. Nunca estive. Então, eu acho que isso se manifesta o tempo inteiro no tipo de coisa que é… Aí eu acho que o jeito que eu faço, o jeito que o Benjamim faz, todo mundo da Orquestra Popular de Câmara faz, a postura do Núcleo Contemporâneo, a postura da Pau Brasil, é um pouco assim. É um monte de gente que está trabalhando e que aquilo que a gente faz é o nosso ofício, não é o nosso dom e portanto… sabe… vestido longo, orquestra e distância… autógrafo no final. Não é isso! Tem isso se quiser, mas não é… Essa relação, ela não é assim. Então me sinto muito mais um padeiro do que uma diva, entendeu? Porque é muito mais assim. Eu fico o dia inteiro mandando fax, mandando e-mail, fazendo foto, material, aí pensa no disco, aí negocia não-sei-o-quê com a gravadora, aí junto aparece um show, aí tem que arrumar tempo, aí faz Ecad, aí tem que nota contratual… E cantar é, às vezes, a parte mais fácil e, com certeza, a mais gostosa, que justifica todo o resto. Então, eu acho que ali era uma experiência muito focada de uma coisa que na verdade a gente acha que é… eu me sinto muito mais segura cantando quando olho e vejo pessoas. Esse é o meu problema. Tem gente que se sente mais seguro quanto mais distante de gente que essa pessoa estiver. Então precisa daquele palco com aquele puta canhão na frente para que a pessoa não enxerga nada… Tudo o que faça com que a pessoa se proteja dentro daquilo. Pra mim isso é assustador. Eu não me sinto bem. Eu me sinto mais pelada do que se eu olhar e ver. Então eu gosto que tenha pouca luz pra eu enxergar o rosto, eu seleciono, na cara, quando eu entro, vou olhando onde estou, que cara que tem aquele ali. E não importa… Não é nem aprovação, assim, é gente mesmo. “Puta, aquele lá está com sono. Que divertido! Aquela lá dormiu!” Aí eu fico relax. Mas se é uma situação muito popopó assim, ela não combina… Ela é mais agressiva pra mim do que a outra. Esse é o caminho natural da música popular. Eu acho cada vez mais que esse padrão que o Brasil viveu, o mundo inteiro viveu com os cantores, os grandes, as vozes, blá, blá, blá… e a gente teve na era do rádio. Esse tipo de relação de artista com público é antigo porque a realidade é muito outra. Eu e o Homero Ferreira, que é o meu produtor, a gente trabalha junto. Não é uma relação de empresário. Eu nem sei o que é isso. Nem conseguiria ter um moço que decide o que é que eu vou fazer. Mas eu conheço pessoas de gerações anteriores a minha que precisam. É psicológico que exista essa figura que tome conta daquele artista, entendeu? Então, eu acho assim, que combina a minha natureza de fazer as coisas com o fato de que cada vez mais isso é irreal e a relação com o público também passa a ser diferente. Quando comecei a cantar não havia gravadora pequena, selo independente, disco independente; havia saído um do Boca Livre que “Oh, era uma coisa muito louca”, que uns malucos fizeram lá. Mas não era uma realidade, era caríssimo, impossível de se fazer. Hoje, eu já vejo. Tem gente que já sabe que existe isso; que vai atrás disso, e que quando você vai fazer o show e o cara vem falar com você, ele não fica histérico querendo arrancar o seu cabelo. Ele quer conversar com você, entendeu? Eu tenho medo de gente que quer arrancar o meu cabelo. [ri]
Tacioli – Mas existe.
Mônica – Mas eu estou super a fim de conversar. Tem, mas quebra-se, né. Eu tenho uma experiência assim: em Curitiba, tem um festival de música que é bem legal. Ele é como esses que tem em Campos do Jordão – tem em vários lugares. Lá tem um de música popular e eu fui dar aula umas quatro vezes. E desde a primeira vez que fui, eu me apresentei. Aí tem uma rádio muito legal lá que é Educativa; fui lá, dei entrevista, conversei com os caras. Então, pelo fato de eu ter dado aulas, entrei na cidade e fiquei conhecida em Curitiba. Aí tá bom… No ano seguinte à primeira vez em que fui dar aula durante o Festival, já havia mais gente interessada no meu curso. No ano seguinte, mais… E agora da última vez deu pau. E no meio sempre aparece uns dois, três que ficam assim… É muito engraçado, porque não faz muito sentido, sabe? Você está falando e o cara “Oh!”. Aí na primeira hora ele fala assim, “Não, eu vim aqui… sua mão…” Aí, tudo bem, você pega na mão do cara e, “Bom, beleza! Então, acabou?! Agora, vamos conversar.” E acaba mesmo, porque atrás tem gente. Mas tem gente que gosta dessa relação. Tem gente que preserva dentro de si a vontade de idolatrar. Também não vou tirar o cara da sua trip, mas não sou assim, entendeu? Talvez, ele até se decepcione se eu tiver uma convivência, porque eu não vou brincar disso.

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