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Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

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Mônica Salmaso

parte 25/25

Na linguagem do caboclo há uma coisa irmã com a do malandro

Seabra – Queridos, temos cinco minutos. Quatro agora.
Dafne – Considerações finais…
Tacioli – Mônica, você acha que existe um canto brasileiro, uma forma de cantar brasileira?
Mônica – Existe uma alma brasileira na música, que não é a maneira de cantar. Não sei exatamente como é que se explica isso, mas vejo uma coisa da letra de música no Brasil. O canto tem no Brasil, em quase todas as áreas que eu tenha visto, do rap ao folclore da Lagoinha. Lá existe uma tradição oral, a letra da música é quase tão importante quanto a melodia. Isso é uma característica. Não deve ser somente do Brasil, mas é uma característica do Brasil, que não é da música americana. A música americana é muito mais tema do que letra. A letra são aquelas trinta palavras que vão trocando. A música brasileira tem uma riqueza, uma densidade de letra e uns temperos culturais que são o Brasil. Tudo isso junto é a alma brasileira. Eu sinto que você consegue tocar. Existe um ponto em comum entre – puta, juro que eu não quis fazer um trocadilho [risos] –, uma intersecção entre os brasileiros. Existe! Quando fiz o negócio do samba [n.e. Projeto Ponto in comum – Samba carioca], lá da Lapa, em que ouvi aqueles sambas, quando visitei o Seu Jair na casa dele, então eu quis dar uma mergulhada, foi rápida, mas foi um mergulho, vi que tem a linguagem do malandro do morro, até arquetípico, do personagem, que no final também não é. Existe uma linguagem, um vocabulário, que é uma coisa própria dali. São metáforas muito engraçadas, há uma sacanagem, “Vou enganar esse cara! Sou uma coisa inferior de classe social que vou, de algum jeito, sobreviver a isso! Sobrevivo criando uma língua que o cara não vai entender.” Há um comportamento, uma coisa que gera uma língua. Para o projeto da música caipira, fui ouvir um cara que nem deu pra usar no show, porque era tudo muito grande. Ele é um contador de causos de Goiás. Esse cara falando, um jeito de mineiro, goiano, do interior, do caboclo, a história dele, é um outro time – o jeito de falar, a palavra usada, a metáfora é completamente outra, mas existe uma coisa na linguagem do caboclo, do personagem, que é muito irmão do malandro do morro. E são histórias diferentes. Mas existe uma resistência, uma provocação, uma esperteza, uma coisa que é a alma do Brasil, entendeu? E que foi separado, que é da mistura. Misturou, misturou, misturou, mas os primeiros pontos são aqueles; em todos os lugares aparecem. O resultado é muito lindo, muito diverso e muito rico, mas tem pontos em que eles se encontram… A alma é igual. É um pouco aquele lado do Darcy Ribeiro, entendeu? Eu sinto isso assim. Gosto de ver assim.

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