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Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

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Mônica Salmaso

parte 23/25

Tentei achar a palavra no meio do palco, “Field, felt, full, fell”

Sampaio – Quais foram as melhores experiências desses shows no exterior?
Mônica – Puta, sabe o que é legal Foi a primeira vez em que eu me senti on the road, sabe aquele troço? É todo dia. Sempre faço “vou ali pra Belo Horizonte, volto pra casa”; daí “vou pra Curitiba, volto pra casa”; daí “vou pra não-sei-onde, volto pra casa”. Mesmo pra fora do pais, eu ia, fazia um show e voltava. De repente fiquei todo o dia assim: acordava às cinco da manhã, pegava o avião, ia pro lugar, almoçava, ia pro hotel, jogava as coisas lá, blá, blá, blá, passava o som, cantava, jantava, voltava pro hotel. Acordava às cinco da manhã, pegava o avião, blá, blá, blá… Tem hora que você não sabe em que cidade mais você está. Isso é divertido, porque vai dando um barato. [risos] No primeiro show eu estava nervosa. No último, parece que você faz isso como fritar ovo. É muito mais fácil. Você já não tem medo da situação, aquilo vira um ritmo de trabalho, com o cansaço, mas também dá uma segurança. É legal!
Almeida – É pela experiência de vida, pela aventura?
Mônica – Também! Puta, tinha o negócio da língua. Meu inglês não era suficiente. Eu achava que ele era muito insuficiente pra eu conseguir falar alguma coisa no palco…
Almeida – Mas todo mundo pensa isso.
Mônica – Eu imagino. Aí o Bill de cara falou, “Ó, fica feliz porque é bonito; quanto mais erros você fizer, mais charmoso fica. Então vai relax, vai tranqüila, erre porque seus erros serão aceitos!” [risos] “Ah, tá bom!” Mas o primeiro show foi justo esse em que o Jon Pareles estava. O primeiro eu estava muuuito nervosa, muito. Levei um papel pra falar, resolvi que eu ia ler, porque eu não ia conseguir, na hora eu ia travar. Pedi licença e desculpa, avisei de cara, “Ó, meu inglês é ruim. Vou fazer o melhor que der, mas estou bem feliz e seja o que Deus quiser!” No último, a gente estava em um duo de novo. Eu e o Benjamin. A gente estava em Vancouver. A gente saiu de Seattle, pegou o carro e foi pra Vancouver. A gente estava bêbado de cansado. O que a gente falou de merda no show, em inglês, piadas. Aí uma hora fui falar uma coisa e não lembrava a palavra… Tentei achar a palavra no meio do palco, “Field, felt, foll, fell”. Falei, “Olha, esse é o último show, a gente está meio feliz. Foi muito bom, deu tudo certo!” E foi mesmo, foi muito legal. A gente estava mesmo com um puta tesão de fazer direito. Eu estava como uma criança.
Tacioli – Mas havia um lance meio pop star?
Mônica – Tinha, né!? [risos]
Tacioli – Não de estrutura, mas de…
Mônica – De estrutura, nenhuma.
Tacioli – Não de estrutura, mas não voltar pra casa, ficar um mês na estrada…
Mônica – Tem uma sensação, tem um negócio.
Tacioli – Tem aquelas bandas que ficam dois meses na estrada, voltam pra casa…
Mônica – Oh, aí eu já não sei se eu queria dois meses…
Tacioli – Um mês, que seja…
Mônica – Não, não. Mas é sério. O Bill não pode saber, porque o que ele quer é que eu nunca mais pise na minha casa, né?! O business, o job dele é justamente esse.
Monteiro – Quanto menos o artista ficar em casa, melhor pra ele.
Mônica – Não, é todo dia. Isso é que é fazer sucesso. O sucesso é esse. Na minha cabeça, antes de viajar, eu entendia que o sucesso era você aparecer na TV e não conseguir mais ir até a padaria sem ser reconhecido. E isso muda a sua vida numa série de coisas, pra bom ou pra ruim. Isso era o que eu via. Daí eu tive um gostinho de entender, não o sucesso, mas o que é a agenda, a vida de um cara assim. É um tesão, mas ó, três por ano, de vinte dias no máximo, entendeu? Não dá pra viver assim! Você não lê um jornal, você não conhece cidade nenhuma, você não sabe nem onde está. O seu contato é repetido, as perguntas dos jornalistas são as mesmas, a piada no show se repete também. O cara vem falar, cinco minutos depois de um show, você não tem muita coisa pra… não dá. Não é uma conversa. O contato que você tem é de uma conversa, você tenta, mas é tudo rápido, tem um monte de gente, todo mundo comprou CD, quer que você autografe. E você vai assinar, a conversa é muito parecida. Emburrece um cara, entendeu? Você não tem tempo mínimo pra nada; você não vai pegar um livro; você não dorme! Não são muitas pessoas que têm essa vida, mas quem tem, porra, é dureza.

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