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Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

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Mônica Salmaso

parte 20/25

É impossível trabalhar pensando que você tem que ser original

Tacioli – Você acha que faz parte do papel do artista, se é que há um papel, surpreender o seu próprio público?
Mônica – Não, isso é uma história engraçada, né? É um clássico da… não sei.
Tacioli – O que você espera de um artista que você gosta?
Mônica – Eu não sei, porque às vezes… Entendi… Eu espero… Isso é bom, hein?
Tacioli – Não sei. [risos]
Mônica – Não, isso aí é uma boa… É um… [pensativa] Eu primeiro espero achar bonito. Pode ser… Eu não ouço… É… Eu espero achar bonito, ponto! Primeiro. Aí se aquele cara, além de bonito, é inovador, eu acho ele curioso e então, legal. Se aquele cara, além de bonito, é das antigas, eu acho legal, eu passeio e viajo no tempo. Se aquele cara, além de bonito, é tecnicamente super incrível, eu acho assim, quero dizer, primeiro ele é expressivo, depois ele é outras coisas. Então, às vezes, eu acho esse negócio… pensar… é absolutamente impossível você trabalhar pensando que você tem que ser original. E nem sei o que é que tem mais pra ser original. Já… Já… Já deu a volta. Você vê o cult, é uma coisa, às vezes, que não é tão original, mas ela deu a volta e virou cult, entendeu? Não existe esse tipo de classificação. É uma simplificação: deve ser original; deve ser tradicional; deve ser moderno… Não dá pra classificar isso, nunca! São expressões individuais. Quanto mais livre o cara está pra fazer o que ele estiver a fim, o que quer que seja, a coisa mais folclórica, básica, tradicional, ou a música contemporânea mais absurda, ou qualquer coisa, é só assim que ele vai se expressar. Se eu tentar ser a Björk, eu nunca vou ser a Björk. E eu acho a Björk sensacional, porque ela é a Björk. Não dá… e assim que é bom. Hoje eu vi uma entrevista na Folha do ator que faz o Zé Bonitinho, sabe? Pô, ele é sensacional. E aí ele estava falando isso. São qualidades humanas de expressão. Cada um tem uma história. Cada um funciona de um jeito. Cada um fez escolhas de uma maneira. O cara às vezes estoura… Eu acho que o bonito da carreira artística é a história dela, e com tudo o que ela é: aí casou com o mercado naquela hora, ou então entrou no mercado e ficou conhecido, e aí desapareceu, mas aí criou um outro jeito de… Eu fico feliz quando vejo esses caras contando a história deles. Esse cara aí (o ator do Zé Bonitinho), por exemplo, fez Direito. Direito? Eu acho que é Direito. E ele continuou como advogado durante o tempo todo, porque pessoalmente não achava confortável ser ator e viver com medo dos altos e baixos. Então ele, aquela pessoa – ser humano – inventou uma maneira em que ele faz um e outro trabalho. Um ele adora um, como adora o outro. Esse aqui ele faz amanhã e, provavelmente, o outro ele faça… Essa é a escolha que ele fez. Mas eu também adoro ouvir outra história de pessoas que falam, “Ah, sou uma porra louca! Gastei todo o dinheiro que eu tinha e…” O produto artístico também é assim. É um erro meio simplificado demais esperar que a arte tenha que provocar. Tem arte que é pra provocar, tem arte que é pra entreter, tem arte que é pra tocar, emocionar, tem arte que é pra distrair, tem tudo isso. E tem que ser assim.
Seabra – E a sua (arte) é pra quê?
Mônica – Acho que a minha é pra… Pra quê é a minha? [pensativa] Pra escutar! [ri] A minha é pra escutar. Não é uma música pra ouvir no supermercado, no elevador – pode ouvir! – mas assim, a pretensão, no melhor sentido dela, é que encontre um ser humano do outro lado e que crie, com ele, uma coisinha. Não é de dançar, não é! De dançar não é. É de ouvir mesmo, no sentido mais humano da palavra. E é de ver. Eu gosto de show. Eu gosto de fazer. Gosto desse negócio… Só não gosto da tensão que precede, mas do durante eu acho legal, porque tem gente também dos dois lados.

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