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Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

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Mônica Salmaso

parte 19/25

Tenho resistência estética ao improviso melódico

Tacioli – Mas você acha que pode ser mais ousada em seus trabalhos?
Mônica – Acho. Mas eu nunca tive esse ímpeto natural. Eu acho que eu sou… Um passinho, outro passinho, outro passinho… Eu sou assim. Então, dentro da linguagem da música, do Afro-sambas até o Voadeira, existem umas coisas que às vezes nem são perceptíveis, mas que pra mim são. De tatear uma outra coisa. Quando entrei na Orquestra Popular de Câmara, pra mim foi um negócio muito grande, porque não gosto de improvisar. Não sei improvisar. Então improvisar pra mim é pegar um cidadão e jogá-lo de asa delta sem nunca ter feito isso. E ele vai dar de cara na pedra da Gávea… Então, pra mim era isso. Eu tenho um pouco de receio. Não é receio, não. Eu tenho resistência estética ao improviso melódico que não seja dentro de uma cultura do jazz ou de alguma outra coisa… Em português, o tipo de improviso vocal à jazz é muito feio. Eu não gosto. Não é isso que eu quero aprender, entendeu? E de repente eu estava num grupo super incrível de um monte gente que toca lindamente, e improvisa, e tudo mais e… sem palavras! Porque eu vocalizo a maior parte do tempo lá. E, além disso, a função da voz é a função de um instrumento melódico. Só que pra um cantor é um negócio diferente. De tudo aquilo, do cantor é a última coisa que se espera, arquetipicamente, é que ele esteja igualado aos outros instrumentos a ponto dele ser, às vezes, o acompanhante do outro instrumento. Nem existe mais, na realidade, essa hierarquia, mas dá pra falar isso: se tem alguém improvisando e eu estou fazendo uma cama com a voz com outra pessoa, estou acompanhando aquele cara. Então, pra mim foi muito ousado entrar na Orquestra. E dentro da Orquestra também, eu sinto que eu fui… assim…tateando… Hoje, sinto que eu sou mais livre de som dentro da Orquestra do que eu era. No começo eu fazia, “Ah, deixa eu experimentar [vocaliza] ‘Dãrãrã’” Aí eu perguntava pro Benja, “Você acha que está… Você acha que eu fui muito… Você acha que eu não-sei-o-quê?” Eu estava super tateando. Aí gostei e comecei a ouvir outras coisas de sons de pessoas que eu curto quando cantam e que tem essa história de vocalismo e tal. E daí deu vontade de “Vou experimentar isso aqui. Mas é meio devagarzinho.” Eu não me jogo. Eu acho que eu sou muito, muito responsável nisso. Eu não sei se é um jeito de controlar. Quero saber muito onde estou pisando, sempre, até demais.

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