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Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

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Mônica Salmaso

parte 1/25

Parecia que eu estava no Globo de Ouro

Ricardo Tacioli – Vamos lá. Falávamos do Festival. Fala, Serjão?
Sérgio Seabra – Dá uma olhada aqui?
Mônica Salmaso – Não estava melhor o outro?
Seabra – Está com chiado.
Daniel Almeida – E aí, Tacioli, está me ouvindo?
Tacioli – Estou.
Seabra – Está ouvindo ele falar daqui ou pelo fone?
Tacioli – Estou ouvindo, mas com chiado.
Almeida – Por que?
Tacioli – Não sei.
Mônica – Põe em outra entrada, no mic. Esse MD é igual ao meu.
Tacioli – Mas não está no mic?

[silêncio]

[risos]

Mônica – Deu? Foi? [risos] Como é que é? Onde é que a gente estava? Eu já me esqueci.
Tacioli – A gente falava do festival?
Mônica – Então, deu um pouco de trabalho pra fazer essa coisa… E isso era o mais chato, mas na hora, assim… A final foi chata, eu não gostei do dia da final. Estava um histerismo na produção antes de cantar. Mudava de regra toda hora. Daí eles inventaram que a gente tinha de atravessar o público, e isso é muito chato. Você vai se apresentar, é uma final, os músicos estavam em cima do palco e eu estava numa fila de amigos. Tinha um monte de… Tinha a Ná, que é minha amiga. Quem havia mais? Nem lembro. Eu lembro que eu fiquei do lado da Ná e as duas assim… Porque estávamos no meio de um público que não estava torcendo pra ninguém. Um negócio muito esquisito. Então, esse dia foi ruim, mas a primeira eliminatória foi super legal. Adorei na hora em que cantei.
Tacioli – Pra você havia alguma referência com os festivais antigos por participar e concorrer daquele da Globo? O que passava pela sua cabeça?
Mônica – Nenhuma. E não poderia ter tido porque são momentos muito diferentes. Mas, se talvez acontecesse a possibilidade mínima da gente pensar nisso… A Globo estava forçando tanto a barra pra que isso fosse um fato, que toda hora você falava, “Meu, mas não é! Sabe o que é: não é! No máximo, é um festival em que a Tetê ganhou com “Escrito nas estrelas”, mas no máximo! [n.e. Festival realizado em 1985] Agora, eles queriam forçar um festival da Record que não é assim. Não tocava no rádio pra ser aquilo, não tinha a relação… A música popular não era o que era, naquela hora dos festivais da Record, e não ia virar só porque a Globo estava inventado um festival. Porque ela também não fez virar, e nem faria. A relação é outra, são planetas diferentes. A gente podia até sentir, mas eu não senti nada disso, não. Pra mim parecia, no máximo, que eu estava no Globo de Ouro, que é o que eu vi quando eu era pequena e acabou. [risos] Mas eles tentaram isso, demais! É difícil. Eu até entendo. Eu acho que tem uma crise engraçada, que é uma crise de criatividade em uns lugares que acabaram sendo corrompidos – não é nem corrompidos, é pior. Eu acho que a indústria fonográfica e a televisão – a Rede Globo, mais do que qualquer coisa – criaram uns modos de viver e umas relações de dinheiro que são castradoras, entendeu? Não dá mesmo, pra quantidade de dinheiro que rola ali, não dá pra eles se darem ao luxo criativo de tentar fazer alguma coisa realmente orgânica e dela poder ou não poder dar certo. Então, quando um canal, fora dessa pressão de dinheiro, inventa um troço, e um jornalista lá é divertido, tem um jeito próprio, faz uma coisa dele e aquilo ali pega, todo mundo sai soltando fogos naquele canal porque ninguém estava esperando aquilo. Ele teve espaço pra virar aquilo. Uma coisa igual a Globo não tem mais esse espaço do erro, e isso é sufocante, é criativamente castrador. Não tem como o cara correr o risco daquilo não dar certo porque tem o patrocinador, o comercial… É um esquema no limite e dá pra entender como é que funciona. Com a gravadora é igual, eu acho. Como é que você vai deixar uma carreira crescer naturalmente com os seus altos e baixos normais ou com o tempo pra ver que cara ela tem, pra onde é que ela vai? Demora mesmo. Eles têm uma necessidade de rotatividade de dinheiro que não permite mais isso, e não mesmo. Fali!

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