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Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

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Mônica Salmaso

parte 18/25

Poucas vezes aprendi com a crítica

Seabra – Mônica, você falou que o público grita “Linda! Escandalosa!” [risos] Por outro lado, quando você pega uma crítica toda adjetivada, superlativa, qual é a sua reação? O que você espera do crítico?
Mônica – Então, são duas coisas. Primeiro que todo mundo gosta de elogios, claro. Você fala, “Ó, legal!”. Às vezes é super demais, e quando é super demais desvaloriza o crítico e não a crítica somente. O crítico em relação a como ele faz em geral. Isso é um pouco esquisito. Dá um pouco de medo quando é uma coisa muito… que você olha e fala “Pô, que preguiça! Por que o cara não pensou e viu qual era o adjetivo que ele queria botar?” É um “geralzão”, tão geral que acaba não sendo nada. Às vezes isso acontece. Tem muito poucos críticos, mas muito poucos, e eu não tive a oportunidade de ser criticada por muitos. De todas as pessoas que escreveram sobre o que eu fiz, muito poucas vezes eu aprendi com a crítica, entendeu? Muitas vezes eu li. Não teve nenhuma escrachando, mas teve uma, por exemplo, do Rio, que não era uma crítica, era uma seção de comentários, e havia um que dizia que eu era meio pra boi dormir, meio desanimado o som ou qualquer coisa assim. Mas assim, tiveram algumas que pra mim são históricas, de ouvir e falar “Putz! Vou ter que ler isso aqui com calma pra aprender.” Tem uma que o J. J. de Moraes fez do Afro-sambas… Ele foi lá, ouviu o primeiro disco do Baden e do Vinicius, daí ele ouviu esse, entende de música e é apaixonado por música, se dedica à música de várias maneiras: dando aula, escrevendo resenha. Então é uma outra realidade. É um cara que escreve sobre o que quer. Então ali ele fez um trabalho. Você precisava parar pra ler mesmo aquela crítica. E é diferente a maneira: você pega o papel e o papel é pesado, sabe? O outro papel você olha e fala assim, “Ah, legal, gostaram.” Outro papel você fala, “Pô, é pesado!” E tem o Arthur Nestrovski, que escreve na Folha, e que também tem o mesmo perfil autoral como crítico e paixão por música. Sempre caímos naquele velho e básico fator humano de que é preciso gostar de fazer; e pra fazer bem é preciso gostar. Quando ele escreve dá vontade de ouvir o que ele está falando, entendeu? Senão existe a primeira preocupação, a mais superficial, “foi bem aceita ou não foi”. Porque é uma divulgação também. Então isso é assim. Eu fico um pouco frustrada quando vejo as aspas que não rolaram – que tem –, que não são o que eu falei e daí você fica com medo e, ao mesmo tempo, eu sei, “Pô, eu leio o jornal, eu acredito nas aspas que eu leio. Eu acredito. E eu fico mal assim.” Eu olho e falo, “Meu Deus! O cara falou isso?!”
Tacioli – Mas o que você busca ao ler uma crítica sobre um de seus trabalhos?
Mônica – Eu fico curiosa. Bem básico assim. Curiosidade, mesmo. Ué! É um retorno, né?
Tacioli – Já houve alguma crítica que fez você repensar um pouco no caminho de um trabalho?
Mônica – Não.
Tacioli – Não. As críticas não têm essa consistência?
Mônica – Não. Já houve crítica que, como essas duas, mostravam coisas que eu não tinha visto a respeito, entendeu? Elas partiam do princípio daquilo que eu tinha feito, quando falavam de mim. Quando falavam das outras coisas também. Não sei. Eu imagino uma crítica que mude mesmo no seu jeito, ela deve ser uma crítica contrária, uma coisa negativa. Como elas não foram…
Seabra – Mas é uma satisfação por estabelecer um diálogo em outro nível, diferente daquele que você estabelece com o ouvinte. Existe essa satisfação?
Mônica – Aí você pegou num ponto bom. Quando você diz que aquela crítica é a do papel leve, ela não é uma relação. Ela é só uma divulgação. Bom, ali ele vai fazer as mesmas perguntas, vou responder e ele vai escrever o que der na telha e seja o que Deus quiser.
Seabra – Mal comparando é o grito histérico da platéia?
Mônica – Não, não é. Não porque ali… não sei. Não consigo comparar. Mas é uma coisa meio titia assim, sabe? É nesse sentido de que está dentro da fábrica, entendeu? É um mimeógrafo lá rodando. Não é exatamente uma coisa autoral. A relação se estabelece quando é um jornalista autoral que está ali fazendo uma coisa, que ele não precisa ser famoso, só precisa estar ali, que ele dê uma lida, que ele pensou outras coisas. Ele se preparou ou já tem aquela bagagem que é do interesse dele. Ele já informado sobre aquilo ou foi se informar, entendeu? E, na maioria das vezes, o que acontece não é assim. É um cara que cobre; ele tem que fazer naquele dias três quatro resenhas. Então vai ter que cabular. Vai ficando mais ou menos. Então eu sinto… Isso aparece na entrevista e muitas vezes você lê o release na entrevista. A abertura da entrevista foi você quem deu, resumida. Então, tudo bem, divulga, né? Eu acho que eu ficaria muito puta de ver uma crítica negativa vagabunda. Aí sim. Porque aí você fala, “Pô, você faz com todo capricho e nego detona, mal detonando. Pelo menos detone direito.” A positiva, meia boca, pelo menos está divulgando o que você fez com um dez, entendeu? Agora, quando você vê que tem uma coisa vaidosa do cara, detonando, “Não ouvi, não gostei!” Ah, vá cagar. Você recebe pra falar isso? Salário? Décimo-terceiro? Fundo de garantia pra falar isso? Aí não dá, né?! Não dá.

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