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Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

MonicaSalmaso-940

Mônica Salmaso

parte 16/25

“Olha aí, mocinha, por favor, meu quarto, Tia Doca da Portela!”

Tacioli – O que pode estar nesse disco da Biscoito Fino? O que você imagina? Ouvi que em 2001 você estava namorando o samba?
Mônica – É, foi…
Tacioli – Foi, não é mais?
Mônica – Não, é, não sei… [risos]
Tacioli – Não sei? [risos]
Mônica – Eu não sei o que é que vai ser. Esse é um pepino. Agora está fresquinho, ainda. Isso tudo clareia.
Monteiro – Isso foi sempre assim pra você?
Mônica – Ô! É sempre assim. De show é sempre assim; de disco foi assim nas duas vezes. Na primeira é aquele negócio do projeto, a segunda, que foi o Trampolim, foi a primeira vez em que escolhi pra pensar que ia virar disco. Essa (música) com aquela e com aquela outra. Na verdade eu não fiz isso sozinha e nem faria; era o primeirão mesmo, então foi um processo meio cegueta total. O Rodolfo Stroeter, que é o dono da Pau Brasil e produziu esse disco, falou “Traga umas coisas que você gosta, sem pensar, somente traga.” Aí eu selecionei 52 músicas em fitas cassetes, mas fui gravando coisas que eu achava gostoso. Algumas que cantei na noite e que eu curtia, outras que eu nunca havia cantado mas que eu achava bonitas. Fria, sem pensar em gosto, porque era um produtor que não conhecia nada da pessoa que ele convidou pra gravar e precisava conhecer. Aí eu levei, e a gente ouviu. Acho que a gente se encontrou umas cinco vezes somente pra ouvir juntos e conversar. Aí ele apontou, ouvindo o material, “Olha, tem de tudo.” E tinha mesmo. “É um assunto que acontece várias vezes no Brasil, parece que você tem essa… E de várias maneiras diferentes, você tem uma cantiga de roda, mas aí tem uma coisa que é folclórica ou se parece com, e aí tem um negócio modernoso… Parece que você gosta de falar disso.” “Eu adoro falar disso” “Vamos falar disso?” “Vamos!” Então a gente topou, conversando a partir do que eu levei, que o universo do Trampolim ia ser esse. Aí tudo o que não tinha nada a ver com isso caiu. E eu ainda fui atrás de mais… Tem o Paulo Dias, que é um pesquisador que tem a ver com a USP e com a UNICAMP, e há muitos anos recolhe material folclórico.
Tacioli – Do Cachuera?
Mônica – Exatamente. Nem havia o Cachuera ainda. Eles estavam na casinha deles, em Pinheiros. Ele e o Marcelo estavam começando a catalogar aquele material, a digitalizar e transcrever. Eram só milhões de fitinhas, fitinhas e fitinhas. Aí eu cheguei lá e falei, “Olha, vou fazer um disco assim e assado. A gente tem esse olhar. Não é um disco acadêmico.” Ele já havia tocado percussão comigo, num daqueles grupos lá do começo. Aí ele falou, “Ó, tem umas coisas que eu acho que você vai gostar.” E me mostrou Mestra Virgínia, de quem gravei dois trechos que ela canta; mostrou um disco que eu não conhecia que é o Canto dos escravos, que foi da gravadora Eldorado, com a Clementina, o Geraldo [Filme]…
Tacioli – Vão relançar agora. [n.e. Na verdade, foi lançado em CD em outubro de 2003]
Mônica – Vão?! Eu falei tanto pra eles. A EMI fez uma coleção da Clementina mas não tem o direito desse disco. E a Petrobras, a EMI, sei lá, não lançaram essa coleção comercialmente, só deram de brinde pros amigos da diretoria…
Tacioli – Você não tem?
Mônica – Eu tenho porque eu dei muita sorte! [risos] Cara, se eu te contar?! Fiquei mal. Acompanhei o Pedro Alexandre Sanches, da Folha, que falou, “Vai ter!” E aí, eu falei, “Puta! Vai Ter? Vai ter? Vai ter? Já tem? Já tem? E não tem.” Depois apareceu outra, “Não vai mais! É mentira. Não vai ter, a EMI desencanou, acha que não é um bom produto, que não vai vender. Então ficou só de brinde para a Petrobras”. Aí eu fiquei com zero, mal, mal mesmo, e pensei, “Pô, como é que faz? Eu não conheço ninguém da Petrobras, puta merda! Aí um dia um cara que é um conhecido meu de público de show, e eu sabia que ele fazia pesquisas – tem uma história de pesquisa com a Cristina Buarque – mandou um e-mail comentando. Ele se chama Heron [n.e. O produtor e editor Heron Coelho]. Eu conhecia o Heron dessas coisas, de dentro de fazer música, mas eu nem sabia direito o que ele fazia. Ele me contou uma história da Cristina, um negócio que eles estavam fazendo que eu não sei o que é, e até hoje eu não sei, mas eu sabia que ele tinha um interesse de pesquisa em música popular. Aí ele me mandou um e-mail, falando, “Você tem a caixa da Clementina, né?” Eu falei, “Você está falando daquela da caixa da EMI que eu não tenho e nunca terei, porque a EMI, porque o mercado, porque os discos, porque a indústria fonográfica, porque a puta que o pariu… Eu não vou ter nunca esse negócio!” Ele falou, “Pô, eu fiz o projeto gráfico desse negócio e eu tenho um. Um!” “Onde está?” “Está aqui.” “Então você segura, fica quieto, não se mexe, não respira, põe a mão e fica segurando. Onde é?” Peguei o carro e fui lá correndo. Imediatamente. Deixei a luz acesa. “Meu é já! Passar um vento e jogar aquela caixa fora eu nunca mais… Eu preciso ir lá já!” Aí fui. Puta, agradeço o Heron todo dia que eu encontro com ele. “Pelo amor de Deus, pelo amor de Deus, muito obrigado, você arrasou.” Era a última caixa que ele tinha. “Pô, eu tinha certeza que eu tinha te mandado. Esqueci, pô, imagina! Até foram pra umas pessoas que eu acho que nem iam curtir.” Eu assim… surreal! Aí falei pro pessoal da Eldorado, “Vocês têm que lançar esse disco porque quem ficou como eu, apavorado em não ter, ainda tem um”. Na verdade são dois: um do MIS, que nunca virou disco, eu acho, e o Canto dos escravos. São as duas únicas oportunidades de se ter a Clementina de Jesus fora da EMI. Tesão que eles vão relançar.
Tacioli – Tem a Tia Doca.
Mônica – Têm! Linda! Copiei pra ela. Ela não tinha. Eu conheci a Tia Doca e falei, “A Tia Doca do Canto dos escravos.” Aí ela riu. “Você né?” Ela falou, “É, minha filha, mas isso faz tanto tempo. Você sabe que eu nem tenho mais esse disco. Emprestei, alguém levou…” Aí eu copiei o CD pra ela, e levei naquele dia do Ponto in comum. Figuraça! Linda, linda! A gente foi, no dia em que eles vieram, eu estava com muito cuidado com a Tia Doca, com a Surica e com o Seu Jair, né? Por quê? Por todos os motivos. E eles tinham me dado os nomes e eu resolvi que eu ia buscá-los no aeroporto, junto com a van e levá-los para o hotel. Fazer o check-in, tudo. Eu já tinha ido pro Rio, ensaiar com eles e voltei uma noite antes.
Tacioli – Produção!
Mônica – Doar, na verdade. Eu fiquei assim… mas feliz! Eu estava a fim de cuidar mesmo. É pra produzir? Então vamos produzir. Tudo! Como é que é? O pãozinho do negócio. Está faltando o pãozinho do negócio! Está bom. Aí cheguei com eles no hotel e eu estava com a lista dos nomes. Mas Tia Doca não se chama Doca, chama-se Jilçaria [n.e. Jilçaria Cruz Costa está na Velha Guarda da Portela desde os anos 1970]. A Surica eu nem sei… E eu cheguei no balcão (do hotel), a tia Doca me atravessou e chegou pra mocinha, falando assim, “Pode olhar aí, minha filha, Tia Doca da Portela.” [risos] Pra achar o quarto dela. “Não, Tia Doca, não é esse nome. Está no nome mesmo.” “Ah, tá bom, minha filha, tá bom…” [risos] “Olha aí. mocinha, por favor, meu quarto, Tia Doca da Portela!” Linda!

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