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Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

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Mônica Salmaso

parte 15/25

Era como se eu fizesse um disco a cada bimestre

Seabra – Mônica, você já está numa fase de escolha de repertório para o próximo trabalho?
Mônica – Comecei agora, porque vou assinar um contrato com a Biscoito Fino. Então, a princípio, esse contrato é um contrato longo de três discos. E agora é que eu estou com vontade de pensar… No ano passado (2002) eu já estava a fim, já estava com coceirinhas de… Tá na hora, tô com vontade, já faz tempo. O Voadeira é de 99.
Seabra – Por que essa demora?
Mônica – Por várias coisas. A primeira: quando eu gravei o Voadeira, que foi por conta do Prêmio, foi super bem na Eldorado. Eles curtiram e a gente teve uma relação de trabalho bem boa. Eu estava a fim de fazer outro disco lá também e eles também estavam. Começamos a namorar a possibilidade de fazer outro disco lá, mas aí a distribuidora Eldorado fechou. Então é assim: a gravadora Eldorado é uma coisa, a distribuidora Eldorado distribuía não só a Eldorado, mas selos pequenos como a Pau Brasil, que era onde estava o Trampolim, e o Afro-sambas, que estava licenciado pela Pau Brasil. Então os três discos que eu tinha, por sorte, naquele momento, estavam sendo distribuídos pela mesma distribuidora. E essa distribuidora fechou e os três discos evaporaram, sumiram e nem fabricavam mais, porque a gravadora estava negociando com outra distribuidora e, no momento em que esse acerto é feito, a Eldorado não pode mais vender esses discos que tem em estoque. Na verdade, aconteceu uma paralisia maior do que a minha, muito maior. A Pau Brasil, como selo, parou naquela hora. A WU foi atrás de outra distribuidora. A Ná, que já tinha até uma firma, a NÁ Records, que também era distribuída pela Eldorado; assim como a Palavra Cantada e um monte de gente ficaram parados esperando outros resolverem; uns tentaram fazer acordos, outros resolveram fazer distribuição independente, que é uma loucura. A Eldorado fez um contrato de distribuição com a Sony e nesse contrato algumas coisas dos selos, que estavam sendo distribuídos, permaneceram: o Voadeira, o Trampolim e o Afro-sambas, também. Então, esses três discos começaram a ser encontrados novamente por causa da nova distribuição, mas isso foi uma negociação de quase uma ano. E eu não estava procurando gravadora. Eu achava que provavelmente a gente ia mesmo conseguir fazer, eu e a Eldorado, porque estava gostoso, entendeu? Mas aí, pára tudo. Ao mesmo tempo, mesmo agora que a Sony está distribuindo, a Eldorado, eu nem sei porque essa negociação parou, mas a Pau Brasil e as outras pessoas ficaram reticentes em lançar coisa nova, porque é uma relação de trabalho que tem um contrato, então precisa ver se funciona. Dá medo de você pegar o seu novo lance, que é o momento de maior gás, porque a hora do lançamento é quando você consegue mais imprensa, mais tudo, e gastar esse gás numa relação em que você nem sabe se vai rolar direito, entendeu? Então teve em São Paulo, dentro desse lugar onde estou, uma paralisia geral. Isso é uma coisa. A outra coisa é que eu não tive um convite. Teve um interesse, já faz uns dois anos, da Biscoito Fino, faz um ano e meio, por aí. A gente começou a conversar; eles também estavam lotados de lançamentos, e é no Rio de Janeiro. Então eu tenho que ir pra lá e a gente ficou, “Agora eu não posso”, “E agora sou eu que não posso”, e assim por diante. E quando eu vi, passou um ano e eu já nem achava mais que a gente não ia fazer, mas aí voltou. A gente se falou, fui lá, fizemos uma reunião, “Vamos, vamos”, então está certo. Acho que vamos mesmo. Então agora dá pra pensar.
Seabra – Você não ficou ansiosa pra fazer esse disco logo?
Mônica – Eu fiquei. Mas logo depois apareceu essa história do Ponto in comum [n.e. Projeto realizado no SESC Ipiranga, em que a cantora paulistana recebia convidados especiais para shows únicos]. A minha ansiedade era de não conseguir desaguar, sabe? Porque fica esquisito você fazer o mesmo lance por tanto tempo. Ao mesmo tempo, começaram umas viagens internacionais que eu não tinha e que são coisas que dão um interesse, renovam, é uma outra coisa, é diferente e gostoso. E pra cada uma delas há um trabalho prévio grande, até de escritório que, aliás, é a parte chata… e Consulado e blá, blá, blá… Mas isso era uma coisa que eu estava a fim. Isso me distraiu um pouco dessa ansiedade. E logo apareceu a história do Ponto in comum, que é um convite de fazer um projeto do jeito que eu quisesse, convidando quem eu quisesse… Como faço a produção, junto com o Homero… [n.e. O tarimbado produtor paulista Homero Ferreira] Sempre fiz, sei como é que se faz, mas eu nunca havia feito a produção de outras pessoas. Daí eu peguei o maior gosto por isso. O projeto termina nesse ano [n.e. O projeto encerrou em dezembro de 2003, com a apresentação da Mônica com a Banda Mantiqueira]. Eu preciso que ele acabe também. Ele pode até continuar com outras pessoas, a gente até criou assim. A gente resolveu fazer um troço que tem uma marca e que pode viver assim, chamar outra pessoa que ancore essa produção. O cara tem só que produzir, mas já existe. E eu acho que a gente até criou um público desde o primeiro, porque eu vi gente falando, “Ah, eu vim naquele e naquele outro, e adorei. Pra mim é uma maravilha porque é como se eu fizesse um disco a cada bimestre. É claro que é curto, mas o mergulho é igual.
Tacioli – Qual a graça do projeto, Mônica?
Mônica – Cada um trouxe um treco. Na verdade é um projeto em que eu acabo bebendo mais que todo mundo. Isso é super claro, “Você quer, por favor, vir aqui cantar. Eu vou adorar.” E é misturado. Eu não tenho que cantar muito ou pouco, posso até não cantar nada. A relação não é essa. A coisa é eu me aproximar daquele trabalho que eu acho bonito e, às vezes, eu não tive oportunidade e aquela é uma oportunidade. São vários meios e são coisas legais de mostrar. Então a gente cria aquela noite especial pro negócio. E é uma coisa que deu muita vazão pra minha criatividade. Eu distraí completamente de fazer disco nesse ano passado [2002]. Do segundo bimestre, que foi quando começou, eu fiquei tranquila porque eu estava viva ali. Ao mesmo tempo, é uma coisa bem trabalhosa, porque muda o assunto da cabeça a cada dois meses. E paralelo a isso, eu continuo fazendo os meus shows. Então, no final do ano passado [2002] eu estava quase enlouquecida. Eu tinha sete pastas, daí vou nos “Afro-sambas” e daí tem o Ponto in comum e daí blá, blá, blá. Eu já estava doidinha. Então não dá. E eu tenho essa prioridade: agora é a hora. Vou fazer esse projeto até o final do ano (2003), aí ele vai parar e espero que ano que vem seja o ano de um outro disco, uma outra história.

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