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Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

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Mônica Salmaso

parte 14/25

"É marmelada! É marmelada!"

Tacioli – Você falou que a final do Festival foi bastante…
Mônica – Foi mais chata!
Tacioli – Foi chata. Eu não lembro quem foi que anunciou a campeã. Foi o Serginho Groisman?
Mônica – Foi.
Tacioli – A campeã foi “Tudo bem, meu bem”.
Mônica – Foi gozado.
Tacioli – Como foi?
Mônica – Difícil de falar e acreditarem em você, mas eu juro por Deus, a coisa já estava tão fake ali, tão esquisita, esses negócios de fazer uma coisa e a regra mudar. Aí, daqui a pouco, muda novamente. Agora já não é mais assim, é mais assado. Você vê a equipe da organização muita preocupada. Era uma tensão! Era uma coisa histérica de produção… Era um negócio tão não-musical. Por isso que eu senti isso na final. Eu estava ali sentada com a Ná [n.e. A cantora Ná Ozzetti, que conquistou nesse festival o prêmio de melhor intérprete com a música “Show”], olhando o que estava acontecendo, esperando a hora de eu cantar. Aí eu ficava vendo os comentários das pessoas: a Maria Paula, a Renata Ceribeli e o próprio Serginho Groisman, que aliás estudou na Equipe também, e eles inseridos numa situação tão tensa, tão não-musical. Eu fiquei horas ali esperando pra cantar uma música. E os meus amigos, os meus músicos estavam do outro lado. Eu nem podia conversar com a Ná. Estava uma puta bagunça, muito barulho, um monte de gente em volta, tapete vermelho pra gente atravessar. Era tão do além que na hora em que a gente foi e cantou eu já estava meio assim… Na hora em que eu estava vendo a premiação, curti quando a Ná ganhou. Eu fiquei feliz dela ter ganhado. A gente deu um puta abraço e foi legal. Depois quando que veio “Tudo bem, meu bem” [n.e. Rock básico defendido pelo autor Ricardo Soares], a sensação que eu tive é que eu estava assistindo pela televisão. Era tão descolado! Não é o “Tudo bem, meu bem”… O “Tudo bem, meu bem” também, mas toda a situação era tão descolada que a gente ficava meio assim, “Hã?!” Aí eu peguei o meu casaco e falei, “Bom, vou aproveitar e sair rápido porque isso aqui vai ser um troço louco!” É o estacionamento… Um caos! “Então, eu vou indo.” Peguei minhas coisas e, quando eu saí, o público fez uma passeata em volta do Credicard Hall, “É marmelada! É marmelada!” E eu olhando, falei, “Nossa! Bem louco!” E fui embora! [risos] Então não dava, é muito diferente. A primeira vez, eu estava a fim. E eu fiquei assim… Havia aqueles palquinhos redondos, e como éramos os únicos daquela noite que tinha piano… Na final havia mais um além da gente. O piano não é um negócio que você põe e tira. A bolota (palco móvel) que tinha um piano era a nossa bolota, porque havia uns palquinhos que iam andando, e é claro que o próximo (a se apresentar) já ficava preparando numa próxima bolinha, que daí saía o outro e vinha o outro agilizando. Só uma tinha piano e somente a gente iria usar. Então, ficamos na bolinha do piano o tempo todo. E eu me lembro que fui a décima-primeira. Eu era no último bloco. E a gente ficou lá pertinho sem plugar, ensaiando. Eu estava a fim de cantar a música, eu estava curtindo, concentrada com os músicos, meus amigos adorados. Então chegou na hora. Cantei e voltei e adorei. Eu curti total. Mas na final isso não teve. Eu não estava com eles, estava tudo esquisito. O ar estava estranho, o jeito estava esquisito. Mas não deu nem pra ficar frustrado. Eu não estava esperando, mesmo, que aquela música pudesse ganhar. Eles estavam brigando com tantas coisas que ia ser meio estranho ela ganhar. Não combinava mesmo com… Veio um jornalista aqui em casa do SPTV e a primeira pergunta que ele fez, “E aí, como é pra você? Você não é nada e, de repente, vira uma estrela?”
Tacioli – Brito Júnior?
Mônica – Não era! “Não é nada e de repente você virou uma estrela?” [risos] Ainda tinha… “Estrela, Estrela da manhã, estrela, um poeta! Um poeta!” [risos] Eu olhei pro cara e falei, “Meu, eu não sei como você vai receber essa notícia, mas há vida inteligente fora da Rede Globo. E vou contar outra coisa pra você. Espero que você também não se choque. Eu canto há dez anos. Há dez anos eu acordo de manhã e é isso o que eu faço. Dez anos! Então você não pode falar uma coisa dessa. E tem muita gente assim como eu. Muita! Não é assim. É uma realidade paralela, sabe? É um negócio muito esquisito.

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