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Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

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Mônica Salmaso

parte 12/25

“Linda! Bonita! Poderosa!”

Tacioli – Você falou de poder se tornar uma cantora pop. Você construiu um público fiel…
Mônica – Espero que sim. [risos]
Tacioli – Não, construiu. Você sente algum tipo de policiamento pelo que você pode vir a gravar? Entende? De decepcionar um público fiel. Ao falar que você poderia ser uma cantora pop, pode ser que quem vá ler a entrevista, fale, “Puta, cantora pop a Mônica? Não era isso o que eu esperava.”
Mônica – Pode, pode acontecer isso, sim.
Tacioli – Mas esse policiamento existe?
Mônica – Não, porque não dei nenhum salto assim. Por enquanto estou fazendo uma caminho natural. Nada brigou com nada. Hoje, também, eu não queria ser uma cantora pop, porque estou num caminho. Dentro de mim eu preciso sentir que eu posso fazer um caminho, que vai ser um caminho natural, também. É que aconteceu muito na carreira de vários cantores. Então o cara, “Virei crente! Virei romântico! Virei brega! Virei sertanejo!” pra tentar, de qualquer jeito… Não tem nada a ver… Esse não é o meu caminho. Não faz nem sentido pensar essas coisas. Acho que qualquer coisa não vai ser dolorida assim quanto esse tipo de… Eu senti, não me lembro direito quando, acho que foi até quando fiz o negócio da Globo, que existe um tipo, não sei nem que porcentagem é essa, dentro do público que tem sido e que está sendo criado, mas senti em alguns e-mails… Havia umas coisas assim do cara falar “Eu descobri uma cantora que ninguém conhece’” e que no momento em que essa música começa a ser mais conhecida, você está frustrando aquela coisa que o cara tem “Ah, a minha avó com a receita que ela tinha”, entendeu? Você está tirando uma espécie de poder que o cara tem…
Almeida – Pra falar, “Ah, conheci a Mônica no começo da carreira…”
Mônica – Pra falar “Eu conheço, vou indicar”. Eu acho super legal, mas é engraçado. Quando saquei isso de algumas pessoas, levei um susto. “Pô, que coisa engraçada!” Como se eu fosse de propriedade do cara. É um negócio esquisito.
Seabra – Tira o poder de informação, de garimpeiro do cara. Ele tinha certa informação somente pra ele e aí ela começa a chegar pra todos.
Mônica – É, exatamente. “Estão pondo a mão no meu negócio’” né? Aí, falei, “Puta, estão pondo a mão no meu negócio!” [risos] Aí já ficou esquisito. Mas eu acho isso engraçado. Troca, né? Tem umas coisas que trocam. Eu acho que, em saltos muito diferentes, impostos até pela carreira, isso é mais visível. Se você é de um público muito específico e, de repente, pula pra uma outra realidade de público; porque pra mim são mundos paralelos… A música que está na novela, atinge as pessoas de uma maneira muito diferente da música que é feita num tipo de relação igual essa que eu faço. E eu saquei isso no Festival da Globo. Fui fazer um show numa espécie de CEAGESP que tem no ABC. Era assim: todos os dias durante, sei lá eu, 15 dias, levavam shows gratuitos pro povão que estava lá. E virou um projeto bacana, porque foi um monte de gente. Foi a Marlui Miranda, o Itamar Assumpção, eu. E eu estava exatamente entre a primeira eliminatória e a final da Globo. E como havia sido a primeira eliminatória, eles editaram, e fizeram um trechinho da música que era justamente a hora que falava o nome da música e botaram como propaganda do festival: “Festival de Música Brasileira” , e soltava eu cantando [canta] “Estrela da manhã…” , esse trecho [n.e. Música de Beto Furquim]. E direto porque eles estavam desesperados praquele troço pegar. Então fui cantar. E no show que eu estava fazendo nem tinha essa música ainda. Então eu estava fazendo o meu show, como eu fazia sempre, normal. Aí quando chegou no bis, “Estrela da manhã! Estrela da manhã!” Aí olhei pros meninos e várias pessoas gritando pra cantar “Estrela da manhã”. Eles haviam gravado e feito comigo, né? “Dá pra fazer, vocês lembram?” “Acho que dá.” “Tá bom.” Só que foi uma única vez que a música apareceu inteira na TV. Por isso eu me assustei. “Meu, os caras, se ouviram, ouviram uma única vez. Três minutos e nunca mais ouviram. Não tocou no rádio. De onde eles estão pedindo essa música?” Porque estou acostumada quando o cara falava “Saci”. É porque ele ouve o “Saci”, gosta, e o filho dele também gosta do Saci. A outra começou a namorar ouvindo “Dança pé”. São relações reais. O cara tem aquela música na vida dele. “Estrela da manhã” não estava na vida de ninguém. Não tinha como estar. Tudo bem, só que aquele pedacinho do spotera no meio da música. Daí comecei a cantar. E eu passei metade da música com as pessoas assim…. [risos] Quando falei “Estrela da manhã”, te juro por Deus… te juro… Michael Jackson… Eh! [risos] Fiquei apavorada! Fiquei apavorada! A minha vontade era de correr. Correr! Eu falei, meu, “Que é isso?! Pelo amor de Deus, o que é isso?! Que loucura é essa?!” Aí veio autógrafo. Naquela situação eu era pessoa da televisão. Eu não acho que só seja esse tipo de relação, mas eu acho que é boa parte da relação. Porque ela é de fora pra dentro, ela de novo não dá tempo do fulano criar aquele negócio de dentro pra fora. É de fora pra dentro: ele liga o rádio, toca aquela música; ele acende… toca aquela música; ele liga a TV, está o Tarcísio Meira, e daqui a pouco aquela música. Pronto, artista! Artista da televisão! Aquela pessoa que tenho certeza que eu poderia chegar nela como gente, naquela hora eu cheguei nela como moça da TV e é outro papo. Assim ó, é surreal! É o Big Brother, não do livro, 1984 [n.e. Título do escritor George Orwell, autor também de A revolução dos bichos]. É uma lobotomia. É um treco muito maluco. Não tem grito histérico no meu show. Não tem. Tem, “Linda! Bonita! Poderosa!”, mas são três. Não tem grito histérico. Por que histérico? De onde vem a histeria? A histeria ela é… Eu comprei o Anthology, dos Beatles. Saiu agora. São oito DVD’s. É sensacional, sensacional! Estou no terceiro DVD porque é uma longa caminhada até o último. É surreal! Fico olhando e falo, “Meu Deus!” Aí os caras chegaram em Nova York e eles já eram… A música já havia estourado em Nova Iorque. Então eles chegaram e estavam com medo de chegar no lugar, porque todo inglês que chegava em Nova York dançava, não era bem recebido, não estourava, e aí pegava mal na volta. Então eles estavam com medo. Aí eles estouraram em Nova York. Beleza. Quando eles chegaram em Nova York, o aeroporto estava tomado completamente por adolescentes histéricos. O piloto do avião avisa os caras no ar, “Meninos, a cidade inteira está no aeroporto esperando por vocês”. Só que são os Beatles. Mesmo assim eu acho que acabou rolando um… É esquisito pra caramba, né?
Tacioli – Mas se o Mariozinho Rocha [n.e. Diretor musical da Rede Globo] fala…?
Mônica – Pra me botar na novela?
Tacioli – É.
Mônica – Puta, acho que eu cederia. E eu acho que eu ia continuar me comportando desesperadamente pra criar dentro disso o humano com o qual eu concordo. E tem gente assim. Não acho que eu seja uma exceção. E nem sou, mesmo. Mas é assim, pra mim, para o meu fígado, isso é muito claro: eu quero que todo mundo ouça; eu quero que todo mundo possa ouvir, uma vez na vida, uma música que eu canto, entendeu? Mas a partir do momento que isso acontecer – em todas as possibilidades –, vou tentar, de todos os jeitos, quebrar essa relação. Essa relação não me pertence, entendeu? Ela é um problema, uma coisa geral, grande e, às vezes, da pessoa que tem em relação a você aquilo. No “Estrela da manhã” isso foi muito gritante porque era uma situação tão pequenininha. Não foi na novela. Foi uma vez. De repente fez assim, uma lente de aumento e sumiu de uma realidade que não é a minha e pra mim ficou claro que não era. Acho que eu gostaria muito de que todo mundo do Brasil, de Portugal e não sei mais onde que passa novela pudesse ouvir as músicas que eu canto. Mas eu ia ficar muito preocupada. Depois, de algum jeito, tentaria que a relação não seja tão esquisita que nem… Se bem que, confesso, acho isso impossível. Eu acho.

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