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Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

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Mônica Salmaso

parte 10/25

Eu poderia ter me tornado uma jornalista feliz

Monteiro – No início você falou em delinear a carreira artística. Você acha que esse disco virou referência para aquilo que você fez na seqüência?
Mônica – Acho. Em todos os sentidos. Isso porque eu nunca escolhi, nunca pensei, “Bom, eu quero ser uma cantora autoral e quero fazer um trabalho…” Eu sabia que eu queria fazer bem feito o que quer que fosse, mas eu cantava música pop no primeiro show, entendeu? E talvez minha vida tivesse me levado pra isso… E eu iria fazer com a mesma carga de vontade de fazer direito e talvez me abrisse, quero dizer, você faz escolhas dentro das opções que aparecem, entendeu? Eu nunca bati a cabeça. Eu nunca fiquei assim, “Quero cantar assim e eu quero ser de selos pequenos porque eu quero, porque eu acho isso!” Não! Eu estava preocupada em aproveitar as oportunidades que apareceram e delas fazer um caminho. Nesse sentido, cada coisa que aconteceu e essa foi muito definitiva, porque virou o primeiro disco; eu entendi que dava pra viver na música de um outro jeito. Quando convivi com o Bellinati naquela hora, eu entendi… Porque naquele momento era assim, cantora era a famosa da televisão. Pra ser cantora é preciso entrar em gravadora grande. Pra se entrar em gravadora grande, eu não-sei-o-quê é que tem que fazer. De repente apareceu uma oportunidade que era assim: um instrumentista que tem uma outra realidade. Um solista de música instrumental brasileira. Isso é uma outra realidade de mercado e de tudo, né? E esse cara criou uma trilha e vivia bem disso. Aí eu achei divertido… Primeiro que pra mim era real… mais real do que a outra, que eu não conhecia, nunca havia entrado naquilo, não sabia o que é que tinha que fazer. Então eu acho que você é moldado, você se deixa influenciar, não sei. Você é o que você vive, praticamente. Você escolhe através disso. Eu passei a ouvir um tipo de música que era mais dentro desse universo. Ao mesmo tempo, quando eu escolhi os afro-sambas, eu achei muito confortável porque era um projeto que eu estava topando, entendeu? Não era, assim, o meu primeiro disco e aí eu tinha que escolher as músicas. Aí eu senti que estava fazendo já escolhas que determinariam o que eu iria ser como cantora para todo o sempre. A carga do primeiro disco é essa, mesmo que você mude, fica esquisito. Como os afro-sambas são esses, ou você grava ou não grava, não dá pra escolher, tirar afro-sambas, pôr afro-sambas. É um projeto. Isso pra mim era protetor, entendeu? Eu estava topando um projeto. Não quer dizer que eu vá cantar as músicas do Baden o resto da vida, nem do Vinicius, nem MPB, nem sequer voz e violão, nada! Eu só topei um projeto. Naquela hora foi um conforto pra mim e aí depois eu me senti tranqüila. Só que a gente vai se misturando com isso.
Tacioli – Você poderia ter se tornado uma cantora pop?
Mônica – Eu poderia ter me tornado uma jornalista feliz também, não fosse aquele cursinho insuportável! Acho que eu poderia. Eu acho…
Tacioli – Colocando entre aspas frases de outras pessoas?
Mônica – Pois é, talvez eu fizesse isso. Já pensou? Eu sou meio água nessas coisas, sabe? Eu não brigo muito com o que tem. Eu sei o que é que dói no meu fígado e falo “Isso eu não posso fazer!”. Ah, não é porque eu acredito, não é porque eu penso, não é religioso, não é nada. Aquilo lá é uma violência pra mim agora, ponto final, não dá! Pode ser uma coisa até normal – isso eu sei, é o meu limite –, eu olho pra dentro, que é aquilo que a gente estava falando, e falo, “Meu, isso bate num lugar que é esquisito pra caramba. É fake! Eu vou ter que fingir que eu sou um negócio que eu não sei, não quero. Isso foi sempre a única parede que havia.

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