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Entrevistas de música brasileira

Mônica Salmaso

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Mônica Salmaso

parte 9/25

Eu quis ser perfeita!

Tacioli – Como é que você ouve hoje o Afro-sambas? É a mesma coisa que você ouviu há oito anos?
Mônica – Não, não é a mesma coisa. Mas eu reconheço que é, entendeu? Ele é muito lindo, mas eu sinto… Não sei se quem ouve de fora… Eu nunca vou conseguir, embora adoraria poder ouvir como quem não fez, mas não dá. Não existe. Nem com a maior distância do mundo. Não tem jeito! Mas eu tenho a distância de tempo. Eu ouço e vejo em mim uma vontade de ser perfeita. Hoje eu não faria assim. Havia uma preocupação de mostrar serviço, mesmo. Até hoje a gente faz esse show. E hoje ele é muito mais imperfeito do que ele está gravado, mas é mais expressivo, pelo menos eu sinto… Às vezes isso não quer dizer que ele seja de fato, entendeu? Porque o disco não é você. Tem dois caras na Suécia, muito figuras, que eles ouvem esse disco desde 97. Duas vezes por mês eu recebo e-mails deles, que começam assim, “Bêbados de novo!” – eles estão na Suécia, é inverno, e não tem nada pra fazer, é muito triste, tudo neve, tudo cinza, tudo não-sei-o-quê, então eles ficam bêbados e ouvem os afro-sambas. Esse disco tem um significado expressivo pros dois que é muito além do que eu esperaria de mim, entendeu? Bateu neles e isso daí acontece e não é porque você não é dono do disco, né? Agora, quando canto esse mesmo repertório, estou mais interessada em perceber outras coisas da música, que não são realizar as notas perfeitamente – e tem falhas técnicas (eu acho, hoje) que até são legais. Eu me expresso através delas, entendeu?
Tacioli – Sua interpretação é mais sincera hoje?
Mônica – Puxa, eu quis ser perfeita com a maior sinceridade. Era o que eu era sincera nessa hora. Eu era, sinceramente, empenhada em fazer perfeito o que dava. Mas era o máximo que eu podia. Eu me sentia obrigada a isso, por dentro. Eu estava começando, então tinha que mostrar pra você, pros outros, pra quem quer que seja, que aquilo é sério; tinha do meu lado um cara que tinha quantos anos de carreira. Ele é um dos melhores violonistas do Brasil; era muita coisa, e a minha natureza era meio, “Puxa vida, ganhei na Loto e agora eu preciso provar que eu não sou bico. Porque aconteceu um lance em que dei uma sorte. Mas aquilo era sincero, entendeu? Talvez aquilo até, de algum jeito, esteja gravado junto com a vontade de ser perfeita que tocou lá os carinhas. Hoje eu me preocupo muito mais com outra coisa. Eu acho divertido, às vezes, ter um ar na voz, um… sei lá… No Voadeira, quando gravei o “Canário do reino”, eu estava com vontade de fazer uma voz mais rouca, de propósito, porque eu tinha a imagem da voz do Tim Maia – a imagem da voz é legal, né? Mas eu tinha mesmo. É um disco super bem gravado. Eu acho as músicas muito lindas. Eu sou completamente fã desses arranjos, mas eu acho que eu poderia ter cantado… Hoje eu cantaria esse disco de uma maneira menos preocupada com a perfeição. Mas eu acho que isso aí não tem muito jeito. Eu já olho pro Voadeira assim. Não com essa mesma crítica, mas… passa, né? É gozado, pra muita gente nem chegou e pra você já passou. Aquela fase é outra, você mudou.

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