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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 8/23

A música está parecendo um condomínio

Monteiro  Você estava falando de música popular, do Paulinho da Viola, mas hoje ele não faz mais o hit que as pessoas assobiam na rua, esperando o ônibus. O que você acha que mudou nessa relação?
Moacyr Luz  Não quero falar pelo Paulinho, não tenho condição de falar sobre isso. O que passa com o Paulinho, passa com muita gente. Ele está com 60 anos de idade e, é como se dissesse, o bastão está aí. O fôlego, às vezes, não é o mesmo para você trabalhar. Você pode cobrar isso do Chico Buarque também. Há um fôlego e uma maneira de se trabalhar. O Paulinho é muito antimídia. Ele não provoca assunto, não é que não o gere, ele simplesmente não provoca assunto. No trabalho dele, não necessariamente, ele está citando personalidades possíveis, achando novas histórias pela Europa, criando situações com cineastas; isso não existe! O que ele faz é música e marcenaria. Ele está fazendo um disco…
Seabra  Dois, não?
Moacyr Luz  Exatamente. E um filme também.
Max Eluard  Não acho que o Paulinho ficou menos popular. Você pega o Bebadosamba. Tem coisas muito fáceis.
Monteiro  Concordo, mas essas músicas não chegam.
Max Eluard  Exatamente.
Moacyr Luz  Agora é o rádio.
Max Eluard  Distribuição.
Moacyr Luz  Você pega aquele disco do Chico Buarque chamado Construção. Na minha época tocou da primeira à última música incessantemente, todas as vezes e todos os dias nas rádios.
Zé Luiz  Vocês me permitem? Eu tinha menos de 10 anos de idade e estava doente de sarampo. Meu pai colocou a televisão no quarto para eu assistir ao Troféu Imprensa, do Sílvio Santos. Lembro-me perfeitamente: “Melhor música do ano do Troféu Imprensa… ”Construção””.
Max Eluard  Hoje, quem ganha, é o mecanismo do poder hegemônico, não é questão de ser fulano ou sicrano.

Seabra  Só por existir esse mecanismo de “Qual é a melhor música do ano”…
Moacyr Luz  Pois é. A gente pode criar uma imagem. Pensei em um condomínio. Como é um condomínio? Você mora em um prédio, mas aí você resolve que o condomínio tem que botar ar condicionado central. Aí piscina, sauna, elevadores, circuito interno, festas, garçons. A música está passando por uma coisa parecida com todo o processo de tecnologia, que é necessário, não podemos fugir disso, mas o cara quer mixar em Los Angeles, o outro quer gravar não-sei-onde. Hoje não está muito assim, mas começou um pouco por aí. A capa tem que ser de um jeito, isso tem que ser assim, a grife tem que assinar os clipes. Tem grife para tudo, assessorias de imprensa – que eu respeito muito. Hoje existe um staff em torno do artista que resulta que ele não pode vender uma quantidade pequena de discos. Isso provoca um escândalo de propostas loucas. Você pega o Caderno de Cultura, ele é todo mapeado. “Jantar – onde eu janto?” Daí aquele negócio é disputado a tapa, “onde eu janto quando sair”. Pode ver, “Onde eu janto” o cara está lançando uma peça essa semana, um livro, um filme, daí é “onde eu janto”, “o filme que eu gosto”, “CDs inesquecíveis”, e vai por aí. O cara não troca nem de roupa. Ele faz o Jô Soares, Hebe Camargo, tudo com a mesma roupa. Não dá tempo! [risos] Porque é muita coisa, bicho! A naturalidade… Apesar de que eu tenho certeza que isso vai mudar.

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