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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 7/23

Pra mim o cantar nunca existiu como objetivo

Monteiro  Até agora você falou da paixão de tocar, mas não citou o cantar. Como é que você resolveu cantar?
Moacyr Luz  O projeto que você idealiza na sua vida… “Pô, vou ser um compositor! Então, faço as minhas músicas, as pessoas gravam, e nos fins das tardes – igual ao Hemingway – já escrevi os artigos, sento nos bares, e vou beber as minhas bebidas todas possíveis, né”. Pra mim o cantar nunca existiu como objetivo. Falei isso ontem com o Fernando Faro [n.e. Durante a gravação do programa Ensaio, da TV Cultura]. Nunca existiu. Nunca tive nenhum cuidado com a voz, de achar tom. Reconheço que em todos os meus discos anteriores ao Na galeria errei alguns tons, não escolhi outros, e privilegiei alguns acordes em função dos tons. Na hora que me vejo cantando… Deixe-me explicar melhor: a minha parte eu já estou fazendo, não posso me sentir culpado pelas coisas não estarem melhor ou pior. Estou caminhando do meu jeito. Acho que estou caminhando com dignidade, estou fazendo as minhas coisas, o meu trabalho, tendo a possibilidade de estar conversando com vocês. Quando cheguei a essa impressão final “Agora vou fazendo as minhas coisas, não sou mais culpado, se der certo, se não deu, tudo bem”, comecei a gostar mais da minha voz. Quer dizer, comecei a gostar de cantar, mas eu já cantava porque achava que alguém realmente queria me ouvir. Antes eu achava que as pessoas queriam ouvir a música cantada pela Fafá de Belém, pela Maria Bethânia. Por mim, não fazia diferença. De repente, comecei a achar que as pessoas estavam gostando de ver a música naturalmente como ela era. E aí fui me chegando mais, fui ficando atento à dicção, a essas coisas todas. Até desaguar no Na galeria que, ao contrário, é um disco em que canto as músicas dos outros. Aí comecei a perceber que eu tinha que olhar bem os tons, os acordes originais que já existiam, e quem conhece as minhas músicas, o meu jeito de fazer as coisas, vai perceber que ali consegui mexer um pouco nas estruturas para que as coisas ficassem um pouco parecidas comigo. E diante disso, “Tenho que explicar essas coisas direito, porque essas palavras não são minhas!” É como se fossem, mas não são. Então, vamos botar esses tons no lugar, vamos pegar os andamentos. Você vê a música “O amanhecer”, ela tem um andamento. O Veríssimo chamou de canto-rondo, é um andamento bem lento, a música do Paulinho da Viola. Semana passada o Lan lançou um livro maravilhoso sobre as escolas de samba, e eu tive a possibilidade de conversar com o Paulinho sobre a gravação do “Retiro”. Ele gostou. Levei o violão a pedido do Lan, mas tinha tanta gente que não dava para tocar. Aí quando deu meia-noite, peguei uma garrafa de cachaça dessa que eu tinha levado para o Lan de presente, “Não, vamos!”. O Ratinho, parceiro do Monarco, “Moa, vamos para aquela árvore!” Ficamos em um cantinho. Eu, o Aldir, o Paulinho, Ratinho, Lan, Haroldo Costa, mais duas pessoas e um menino que estou precisando localizar. Ele gravou tudo em filme! [risos] Preciso saber quem é esse sujeito. Ficamos lá até às 3 horas da manhã tocando os sambas que têm esses andamentos que gosto muito. Eu trouxe até o violão aí para a gente tocar. Mais tarde, né? Quando vocês acharem que está bom… Esse disco Na galeria põe em dia com o meu violão. Isso para mim é muito bacana.
Tacioli  Notei muito no Na galeria essa coisa do intérprete, do cantar. Realmente parece que você…
Moacyr Luz  Se empenhou mais, né?
Tacioli  Não sei se houve um amadurecimento do primeiro para esse último…
Moacyr Luz  É verdade, passou por aí.
Tacioli  A partir do Na galeria, você se considera o melhor intérprete de suas obras?
Moacyr Luz  Me considero, e esse disco está me ensinando a cuidar das minhas músicas. Esse disco é uma escola pra mim. Sinceramente, a geração que for prestar atenção nesse disco, ou hoje ou mais tarde, vai notar que ele propõe uma leitura harmônica de samba, mas sem nada de vanguarda, tá, véio? Você não precisa necessariamente passar pela mesmice. Não tenho nada contra as origens do samba, do que tem de nobre, de você ver como ele consegue se resumir em uma estrofe, como “Tire o seu sorriso do caminho / Que eu quero passar com minha dor”, acabou, não precisa falar mais nada. Aquele outro, não sei de quem é, Chico Santana [canta] “O mundo se renova todo dia / Eu envelheço em cada dia, cada mês / O mundo passa por mim todos os dias / Enquanto eu passo pelo mundo uma vez”. Parece tão hai-kai. E o samba tem muito disso, de explicar que talvez tenha sido assim, uma timidez com as palavras, de ter medo de falar alguma coisa. Então, a paixão por saber uma palavra nova e dar a ela uma dimensão. [canta] “Ah! Se eu tivesse autonomia” Sabe uma coisa assim? De você perceber que a essência de tudo está naquele troço, o cara veio e aprendeu, entendeu aquela palavra. A gente falando a palavra à toa e o cara a pegou. Isso o samba tem demais.
Max Eluard  É a história da música popular que estávamos falando, né? De se resumir em uma coisa simples uma essência, um sentimento.
Moacyr Luz  Olha, em 85 fui em Mangueira ao lançamento de um livro do Roberto Moura [n.e. Cineasta, produtor de cinema e vídeo, escritor, pesquisador e professor universitário]. Não é o jornalista Roberto Moura, que escreve na Tribuna, não!
Tacioli  É o que escreveu um livro sobre a Tia Ciata? [n.e. Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro, 1ª edição, Funarte, 1983; 2ª edição Biblioteca Carioca, 1995].
Moacyr Luz  É, isso aí. É que tem outro Roberto Moura, que agora chama-se Roberto M. Moura, para diferenciar. Ele escreveu um livro sobre o Cartola, um livro lindo [n.e. Cartola: Todo tempo que eu viver, Corisco Edições, 1989]. O livro é rosa, mas tem uma capa colorida. O livro é lindo, lindo! Tem uma foto que se abre ao meio, no morro, umas cadeirinhas, o Cartola tocando violão, olhando embasbacado atrás dele o Villa-Lobos e aqui nessa cadeira, outro boquiaberto, o Walt Disney. O Villa-Lobos tinha levado o Walt Disney ao morro de Mangueira.
Seabra  O Zé Carioca é dessa época?
Moacyr Luz  Deve ter nascido ali. Mas o Villa adorava o Cartola, achava ele genial.

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