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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 4/23

As pessoas conhecem os meus sambas, mas tenho muitas canções

Tacioli  Moacyr, até seus 15 anos de idade que tipo de referência musical você privilegiava?
Moacyr Luz  Meu avô era clarinetista, músico de orquestra e de banda. Isso é uma parte harmônica da minha vida. Morei com o meu avô na rua Souza Lima, em Copacabana, logo depois do túnel, quase chegando ao Posto 6. Nessa mesma rua morava o Dorival Caymmi. Ele morou até recentemente na rua Souza Lima. Recentemente há 20 anos, né? [risos] Mas eu era muito garoto. O meu avô e o Dorival Caymmi compravam jornal na mesma banca, que ficava na esquina. O meu avô era um sonhador, ele falava coisas assim “Meu filho, quando Getúlio… eu também tive que fugir”. Ele tinha umas coisas assim. Acontecia algo lá fora e “A situação está horrível!”. Ele era um exagerado! Então, ele encostava no Dorival Caymmi e “Olha o meu neto aqui!”, “Eu também fui músico! Já gravamos juntos, praticamente!” Praticamente, nunca! [risos] O Dorival e o meu avô, os dois já senhores, conversavam. O meu avô tinha todos os discos do Dorival Caymmi – lógico que acredito que tinha a maioria dos discos tanto pelo bom gosto e pelo apuro emotivo, como também pelo prazer de ter os discos do vizinho, afinal de contas “Dorival Caymmi, meu amigo, está aqui… mora comigo”. Aos domingos, víamos Concertos para a juventude, na TV Rio, que ficava no Posto 6, onde hoje é o hotel Softel. Aquilo tudo era a TV Rio. E quando dava meio-dia, uma hora, o almoço. Meu avô gostava muito que todas as filhas estivessem à mesa – morei com ele dos 6 aos 11 anos. E muito, muito Dorival Caymmi. E o meu pai, que não tinha nada de música, adorava o Nat King Cole. O meu pai já era o lado mais pobre da vida, com quatro, cinco discos, e aquilo tocava à exaustão. Então, as pessoas conhecem o meu repertório mais através dos sambas, mas tenho muitas canções. E as canções vêm desse disco do Dorival Caymmi, com certeza.
Monteiro  A primeira faixa do Na Galeria é do Roberto Martins [n.e. Compositor carioca, 19091992]. Ele é uma referência importante em sua obra? Você já gravou algumas coisas dele, não?
Moacyr Luz  Gravei “Não deve sorrir assim pra mim”, do Roberto Martins [n.e. Gravado em Mandingueiro].
Monteiro  Apesar de ser sambista, o Roberto Martins também fez muitas canções, como “Renúncia” [n.e. Composta com Mário Rossi e um dos primeiros sucessos de Nelson Gonçalves].
Moacyr Luz  “Favela” [n.e. Parceria com Valdemar Silva, gravada por Francisco Alves em 1936, “Favela” foi seu primeiro sucesso], “Beija-me” [n.e. Com Mário Rossi].
Monteiro  E o “Cordão dos puxa-saco” [n.e. Marchinha composta com Eratóstenes Frazão e sucesso no carnaval de 1945].
Moacyr Luz  “Cadê Zazá” também é dele [n.e. Marchinha assinada com Ary Monteiro, de 1948].
Monteiro  Enfim, são coisas díspares, não?
Moacyr Luz  O que me impressiona no Roberto Martins é a profissão de compositor popular. Sempre que posso chamo a atenção para isso. Ele era um sujeito que fazia tanto marchinhas – como Braguinha – como canções [canta] “Beija-me / Deixa o meu corpo coladinho”. E ainda dentro daquela história da música do Rio e de São Paulo, o compositor é para ser cantado e ouvido. Penso assim, né?! É um orgulho para qualquer compositor subir em um palco, tocar uma música e ela ser identificada. Eu passo muito por isso. É muito difícil você ter uma música de verdade – uma hora a gente vai ter que falar sobre isso, porque são dois mundos. Existe o mundo das milhões de cópias, dos carros importados – esse mundo não existe! – e o nosso mundo, esse aqui! A não ser que vocês achem que com esse site vocês vão se transformar naqueles dois americanos do Google [n.e. Site de busca de conteúdo], né? [risos]
Monteiro  Nunca se sabe! [risos]
Tacioli  Essa é a versão mais otimista! [risos]
Moacyr Luz  Se acharem isso, vocês estão entrevistando a pessoa errada. Vocês tem que entrevistar o Belo! [risos]
Tacioli  Que outras informações musicais você assimilou na juventude, Moacyr?
Moacyr Luz  Estudei muito violão. Hoje sou mais preguiçoso. A história de você fazer a música é mais ou menos assim. Você pega o violão, e já na segunda escala que você estuda, ela te propõe alguma coisa. “Meus Deus, isso é uma música!” Aí você pára tudo, e a mão já funciona para outro caminho. Mas estudei muito violão. E ouvi muito. São caracteres que vão formando sua identidade. Vejo isso muito na juventude. Atualmente, tenho visto isso até mais cedo, de um jovem sair da absoluta ignorância no samba para um domínio inacreditável. Um cara que escutava música internacional, se encantar com Cartola, ir a Velha Guarda da Portela, e ficar sedento, tocar bandolim, cavaquinho, pandeiro. É uma loucura! Graças a Deus! Quer dizer, começo a minha vida apaixonado por Billie Holiday, pelo Chet Baker, pelo Joe Pass, por todos os grandes standarts de guitarra, como Wes Montgomery, até o próprio – mais moderno – George Benson. Mas eu escutava tudo isso. Eric Gale, Django Reinhardt, Philippe Catherine, Larry Coryell. Eu escutava tudo isso e tinha esses discos. As cantoras Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, que eu conheci pessoalmente porque fui à gravação do O som brasileiro de Sarah Vaughan [n.e. Gravado no Rio de Janeiro em 1977, o álbum contou com direção artística de Aloysio de Oliveira e foi lançado em CD pela BMG em 1994] com o Hélio Delmiro. Desculpem-me, mas é verdade! [risos] Inclusive, tem uma história aí que acredito seja mentira minha! Juro que estou mentindo, mas o que posso fazer? Determinada hora, o Hélio Delmiro falou “Vamos fazer uma música para a Sarah Vaughan? Fizemos a música, mas não tivemos coragem de mostrá-la. O Hélio era muito tímido. [risos] Ela havia se encantado com o Hélio, a ponto dele ser uns destaques no disco e ela ter feito um segundo com a exigência que ele estivesse presente.
Zé Luiz  Segundo a Sarah Vaughan, ele era um dos cinco melhores de todos os tempos.
Moacyr Luz  Isso saiu na revista. Bom, essa era a formação musical que eu tive, aliado, evidentemente, aos ícones da MPB. Mas quando estive na faculdade – entrei em um dia e saí em outro, mas cheguei a cursar um pouco -, existia um fenômeno universitário chamado Cartola. Em 1977, ele era disputadíssimo por todos centros acadêmicos, CPCs e DCEs. Agora, observem uma coisa sobre São Paulo. Outro dia eu estava aqui conversando com um amigo – o pai do Ricardo Garrido – e ele me disse que nos anos 70, quando ele era de um desses DCEs, eles arrecadavam um dinheiro para trazer o Nelson Cavaquinho e o Cartola para fazer shows em São Paulo. Eles vinham muito para cá. Olha, até Djavan veio muito para cá, como o Caetano e o Gil. São Paulo produzindo espaços para esses caras se apresentarem. De uma certa maneira, isso tem acontecido muito aqui. São Paulo está conseguindo trazer de novo esses veteranos que ficam ali abandonados.
Tacioli  Os primeiros discos desse pessoal da velha guarda, do Cartola, do Nelson Cavaquinho, foram gravados em São Paulo, não?
Moacyr Luz  Marcus Pereira?
Tacioli  Através do Pelão.
Moacyr Luz  O Pelão, série Documento. Você vê que loucura… O que nós estávamos falando? Bom, Cartola era um fenômeno. Ele fazia aqueles circuitos universitários e todo mundo assistia. Era uma época em que a juventude estava verdadeiramente interferindo no processo político do Brasil, pedindo anistia. É, como dizem, uma época em que o Betinho era o irmão do Henfil. Eu tinha uns 25 anos, estou com 44, e começo a ouvir com mais atenção as coisas do samba.

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