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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 3/23

A música que é feita no Rio é uma música popular

Max Eluard  Moacyr, a que se deve todos esses encontros, essa proximidade com essas pessoas?
Moacyr Luz  Tem uma diferença que eu gostaria que fosse entendida. Vi a entrevista que vocês fizeram com o Gudin e uma vez nós conversamos um pouco sobre isso aqui mesmo no Villaggio, naquela mesa do canto. No Rio existe um tipo de música, e em São Paulo existe um outro tipo de música. Por favor, hein! A música que existe no Rio é uma música popular, inclusive, não é do carioca, mas, sim, a música que é feita no Rio. O paulista pode ir ao Rio e fazer essa música popular. A música que se propõe em São Paulo é uma música mais de vanguarda. A minha impressão é que dentro da cabeça da música paulistana não passa a idéia de ser popular. “Eu não tenho essa preocupação, quero fazer as minhas músicas, mesmo que elas sejam dodecafônicas, mesmo que elas sejam de harmonias e compassos complicadíssimos.” Vejo um pouco por aí. Nesse aspecto, quando você me pergunta “E o Gudin?”. O Gudin parece que tem uma carreira carioca.
Max Eluard  Ele faz um samba carioca.
Moacyr Luz  Exatamente. Porque ele faz composições com o Paulo Cesar Pinheiro, ele se aproxima de um tipo de literatura. Então, não é o carioca, mas a música que é feita no Rio. Caetano, Fagner, todo mundo acaba… Por favor, estou sendo abrangente, mas é evidente que cada um tem a sua linguagem sendo construída. Então, as pessoas ficam concentradas nesse aspecto que a música propõe. Não sei, até hoje eu sinto muito isso. Às vezes tenho a oportunidade de receber CDs de novos compositores e, por mais que tentem, “Vou fazer uma coisa mais popular”, existe essa necessidade da vanguarda. É interessante! Penso um pouco por aí.
Monteiro  Influência do meio?
Moacyr Luz  É diferente. Por favor, estou dando uma opinião. A gente pode passar pelas rádios, as principais rádios da época que tangenciaram as mentes de todo mundo. Você vê que o próprio João Gilberto lá não-sei-onde escutava a Rádio Nacional. Ele ficava na pracinha lá no interior da Bahia, de Sergipe…
Tacioli  Ouvindo a rádio pelo alto-falante.
Moacyr Luz  Pelo alto-falante escutando a Rádio Nacional. Você vai ver o Caetano Veloso, em Santo Amaro da Purificação, que tinha um radinho em que ouvia a Rádio Nacional, que o nome Maria Bethânia vem de Nelson Gonçalves, de Orlando Silva. Então, a rádio pode ter sido um chamariz para o Rio de Janeiro ter esse mecanismo. Uma compreensão sobre o samba, porque existe uma teoria que diz que o samba começou em Santo Amaro. E, no entanto, não é isso, porque a Tia Ciata veio das segregações, dos preconceitos, das histórias entre Igreja e o sincretismo que o interior da Bahia não aceitava. As pessoas iam para os seus cantos. O primeiro lugar em que param é na Praça Mauá, na Saúde, em Santo Cristo, de onde vem a Tia Ciata, aquelas histórias do samba.
Tacioli  A Pequena África.
Moacyr Luz  A Pequena África. Que coisa interessante: por uma necessidade de transformar o Rio de Janeiro em uma Paris da América do Sul, em uma Paris tupiniquim, são desapropriados todos aqueles pequenos centros e cortiços que existiam ali no Santo Cristo. E o que acontece? Um centro desses vai para o Estácio, fugido. Mas se hoje ainda ninguém é tratado com a dignidade que merece, imaginem no início do século como é que rolava uma desapropriação. Jogavam seu barraco fora e você que se vire! Assim, uma parte desse grupo foi para o Estácio. Uma outra parte foi para Oswaldo Cruz, Madureira, foi procurar ali nas fazendas, nos humaitás da vida. Por uma coincidência do destino, o Estácio vira o berço do samba.

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