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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 2/23

O meu pai morreu no domingo, três dias depois dos meus 15 anos

Monteiro  Em seus 15 anos, o que te empolgava musicalmente? O que você ouvia?
Moacyr Luz  O que me chamou a atenção – você vê que loucura… Barbosa, meu irmão! [Moacyr pede para completar o copo] O meu pai tinha morrido no domingo, três dias depois dos meus 15 anos, e eu fui para a casa de uma tia que morava no Méier. No dia seguinte após o enterro, obviamente abatido com tudo – o meu primo estudava com o Carlinhos Delmiro, irmão do Hélio, na Barão de São Borja, 68, no Méier – e aí a minha tia diz assim: “Moacyr, vá lá com o Eduardo distrair a cabeça um pouco”. Descia-se uma Vilela Tavares, a Carijós, entrava na Barão de São Borja. E era uma casa com uma varandinha, dessas em que a casa é quadrada, mas a varanda é por dentro. Um murinho, e do lado, uma salinha, onde se tocava violão. O Carlinhos está dando aula para o meu primo, eu estava sentado, muito cabisbaixo, num peitorilzinho da varanda, quando chega o Hélio Delmiro. Eu tenho quase certeza: nessa época ele usava um cavanhaque grande, um cabelo black – era 1973 -, e ele estava vindo de um ensaio, de um show com a Elis Regina. Era um show que a Elis fazia. Eles estavam até um pouco “Mas que loucura, rapaz, nós estamos vestidos de palhaço”, era um negócio assim, cenográfico. E o Hélio percebe que estou meio esquisito, ele está sentado. O Hélio sempre foi um cara que ficava ali sentado. Ele acabava um Free Jazz e ia para aquela varanda. Aí ele percebeu que eu estava triste. Contei esse troço todo, “Não sei o que vai ser da minha vida. Minha mãe não quer voltar para esse lugar!” Falei das casas populares, “Não sei se vou morar na casa de parente! Estou com colégio parado!” “Qualquer coisa aparece aí amanhã! Fica por aí. Você está onde? Senta aqui um pouquinho, fica com a gente, distrai a sua cabeça.” E eu escutei uma música – sabe qual foi? -, uma música do Toquinho, rapaz. [canta a melodia] “Tã rantan / Tã rantan”, da novela O bem amado, que eram umas músicas, uma trilha feita especialmente para a novela, Toquinho & Vinícius [n.e. Primeira novela colorida da TV brasileira, O bem amado, de Dias Gomes, contava a história do prefeito Odorico Paraguaçu, interpretado por Paulo Gracindo. A trilha sonora trazia “Paiol de pólvora”, com arranjos de Rogério Duprat, “Cotidiano nº 2”, “Meu pai Oxalá”, “Um pouco mais de consideração”, entre outras] Eu achei aquilo bonito, o tipo de solo, eram blocos. Eu não sou nenhum cara, o meu violão não passa por aí, eu nunca fui muito de – apesar de ter estudado jazz -, nunca tive essa técnica de usar bloquinhos, como se faz em guitarras. E essa música tem muito disso na visão harmônica. E aí eu peguei o livro do meu primo que já estudava seis meses, e em três dias eu já tocava aquilo de trás para a frente. E aí acontece uma coisa que é uma oportunidade na vida que a gente tem e eu, cada dia mais, reflito sobre essa oportunidade. Às vezes você pensa que não está entendendo – eu falo muito para os meus amigos, eles já estão cansados de ouvir isso -, uma coisa importante na vida da gente é entendermos o contemporâneo. Você não inveja as coisas do passado, achar que você não está fazendo parte da história, você às vezes não está percebendo que a história está ao seu lado o tempo todo e você não está enxergando. “Naquela época o Cartola vinha aqui!” “Não, hoje vem um cara que é o Cartola, mas você só vai perceber isso anos depois.
Max Eluard  É difícil para o homem entender seu tempo.
Moacyr Luz  É, rapaz. Então, eu cada vez mais reflito sobre essas oportunidades. O que acontece, bicho: larguei toda uma vida que eu tinha em Bangu para ir morar no Méier. E meu primeiro amigo foi o Hélio Delmiro. A primeira pessoa que ele pega de carro, “O que você vai fazer amanhã?” “Eu não sei o que vou fazer amanhã. Estou ainda decidindo com a minha mãe o destino da nossa vida!” “Vamos sair? Vamos na casa do Victor Assis Brasil, porque estou ensaiando com ele.” Ele nunca me deu uma aula, mas me dizia assim: “Pega esse método, estuda esses arpejos aí! Tem que estudar umas oito horas, senão não adianta!” Você está vendo como é que foi? Eu não estava largando um colégio, faltando à uma aula, eu estava, simplesmente, mudando a minha vida. Então, eu relaciono as coisas… Ao passo, que mais adiante, eu ia para a casa do Victor Assis Brasil independentemente do Hélio. O Victor também cismou comigo, de levar para a casa de uma namorada dele em Botafogo. A gente ficava lá de noite, eu tinha 16, 17 anos. Luizinho Eça me ensinando acordes. Antes de morrer, um dos últimos shows que o Luizinho fez foi comigo, a gente viajou, fizemos show no Mistura Fina, fizemos show em Niterói, fizemos vários shows juntos. Havia até um projeto da Velas, em 1990, do Luizinho gravar um disco com minhas canções, arranjado pelo Luizinho. Infelizmente, não deu. Aprendi muito com ele. Tenho lá em casa partitura de músicas que ele escreveu. Você quer ver mais coisas? Isso em 1973, 74. Eu, garoto, começando a pegar o violão, ia para a casa da Elizeth Cardoso porque o Helinho tocava com ela. Acho que a primeira excursão que a Elizeth Cardoso fez ao Japão, a excursão que a transformou em um mito no Japão ao ponto de ter vários bares com o nome ligado ao repertório da Elizeth Cardoso. Dessa temporada eu vi todos os ensaios. Vi toda a gravação da Elis Regina com o Hélio, os ensaios na Warner para a turnê que ela fez no Free Jazz, eu vi toda essa gravação. Eu assisti do primeiro ao último minuto toda a gravação do Samambaia. Ninguém podia entrar, mas eu entrava – sabe por quê? Porque depois fui morar na casa do Hélio. Minha mãe casa de novo e eu moro na casa do cara um ano. Depois, com 18 anos, eu consigo alugar um apartamento já tocando na noite. Um dia ele bate lá em casa e diz “Bicho, eu tô me separando. Dá para ficar uns 15 dias aqui?” Isso durou mais uns três anos, né? Então, fundamental na minha vida.
Zé Luiz  A Clara.
Moacyr Luz  A Clara Nunes eu peguei o finalzinho, mas o João Nogueira eu conheci. O melhor disco do João, Vem que tem [n.e. EMI-Odeon, 1975], que ele tem aquela roupa do Flamengo, aquele sorriso largo. O Roberto Ribeiro, as gravações todas.

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