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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 23/23

Vou contar uma outra para vocês

Moacyr Luz  Tô precisando tomar um chope. Estou com a boca ressecadíssima. Vocês conhecem um filme do Candeia, não sei se é do…
Seabra  Leon Hirzsman.
Moacyr Luz  O Leon Hirzman fez o do Nelson Cavaquinho. Ele fez o Candeia?
Dafne Sampaio  Ele fez um sobre o Candeia, também. É colorido, chama-se Roda de samba. [n.e. O cineasta fez dois curtas-metragens, um dedicado a Nelson Cavaquinho, e outro a Candeia, intitulado Partido alto. Ambos integram a Coleção Brasilianas, da Funarte].
Moacyr Luz  Não, não. Peraí. Vamos recordar a cena para podermos amarrar. O que eu quero dizer é aquela hora, na casa do Candeia, tem uma cena que o Paulinho está novinho, comendo uma rabada.
Sampaio  Isso.
Moacyr Luz  Não é colorido, não!
Sampaio  É colorido. O Leon Hiszman fez dois.
Moacyr Luz  Pois é. É uma festa nobre. Está aí o Osmar do Cavaco, Casquinha, magrinho, magrinho. Wilson das Neves, magrinho, tocando prato e faca com o Candeia, já de cadeira de rodas. Inclusive, vale o registro, gostaria que você botasse. O Guinga me liga para conversar um negócio e eu digo, “Guinga, estou aqui às voltas com a música “Prece ao sol” [canta] “Ó sol / Com és belo no arrebol / Quando estás no poente eu sinto / os teus raios ardentes” [n.e. Incluída no álbum Na galeria]. “Guinga, estou mexendo nesse negócio” e começo a cantar. “Puta que pariu! Caramba! Você acredita que eu escutei essa música pela primeira vez na casa do Candeia!” E o Guinga cantou a música toda. Ele tem uma memória privilegiada. Essa história era o seguinte: assim que o Candeia sofre o acidente – Casquinha me contou a história, é um filme, bicho! Assim que o Candeia sobre o acidente, que ele fica na cadeira de rodas, ele faz essa música, na primeira ou segunda manhã depois de tudo normalizado, ele vai à varanda para pegar um sol. Me ajude aqui [canta] “Ó sol / Com és belo no arrebol / Quando estás no poente eu sinto / os teus raios ardentes / Só saudades, não minto ao nascer do sol / A natureza / Se enriquece de tal beleza / E aquece as mais lindas flores / Belas rosas e belos jasmins / Desabrocham nos lindos jardins / Quero exaltar os raios multicores / Queimar as saudades dos meus amores / Quero cantar a prece da esperança / Que revele o Carnaval / Todo o amanhã em que amanheces”. É lindo, né? Até me emocionei na hora que o Guinga falou isso. Até agora, de novo.
Zé Luiz  Eu não sabia que tinha sido composta logo que ele caiu em si que estava na cadeira de rodas. Já tem outro significado.
Moacyr Luz  É foda, né? Viajamos pra caralho. Esse é um mecanismo de paixão, das histórias. Vou contar uma outra para vocês. A hora que vocês quiserem ir embora, podem ir, mas não saiam e me deixem falando aqui sozinho! [risos]
Rozana  Ele fica mais três dias.
Moacyr Luz  Olha só que história linda. O Herivelto Martins… Eu o conheci, tá? Acreditem se quiser, até acho que estou mentindo. Eu fiz uma palestra no MAM sobre música brasileira – eu, o Herivelto Martins e o Haroldo Costa –, dando a minha visão sobre isso. O Herivelto era da umbanda, e tinha um terreiro que ele freqüentava lá em Campo Grande, Santa Cruz. O problema de contar essas histórias agora é que você começa a errar os bairros… E aí o Nelson Gonçalves está com um problema pede para o Herivelto Martins levá-lo ao terreiro. E aí o Lan estava com o Herivelto, e foram os três. Aí, o cara recebe o santo, o Caboclo Sete Montanha, e começa a falar grosso com o Nelson Gonçalves. Aquela voz grossa. E o Lan não gostou daquela coisa de falar grosso com o Nelson Gonçalves e meteu uma porrada no cara. [risos] Uma confusão no terreiro, vai todo mundo embora. Dois meses depois, o Cartola convida o Lan para ir lá na Mangueira. O Lan chega meia-noite no buraco quente, onde estão o Cartola e o Carlos Cachaça. E o Lan senta para ouvir os dois, aquela coisa inebriante, imaginem!, e chegam dois sujeitos e começam a circundar a mesa. E o Cartola achando que os negos estavam cismando com o Lan, muito branco. Aquela coisa, ali no morro, uma hora da manhã. E, de repente, como o negócio começa a ficar muito tenso, os caras olhando muito para o Lan, o Cartola diz “Gente, pelo amor de Deus, esse aqui é meu amigo. É o Lan. Tá com problema, aí?” “Não, não. É que chegou lá embaixo, que esse cara foi quem bateu lá no Caboclo Sete Montanha no terreiro!” [risos] Todos com medo do Lan. [risos] Os caras é que estavam com medo do Lan. [risos] Essa história tem quase 40, 50 anos! E o medo de você encostar em uma entidade, não é brincadeira, não! [risos]

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