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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 22/23

Sou a favor da bola de couro, pesada

Max Eluard  Moacyr, diz aí, você gosta de futebol?
Moacyr Luz  Adoro futebol.
Max Eluard  Qual é o seu time?
Moacyr Luz  Flamengo.
Max Eluard  E o que você está achando dessa seleção?
Moacyr Luz  Eu estava conversando sobre isso com o Zé antes de vocês chegarem. Participei do Pasquim há, mais ou menos, um mês. Eles me convidaram para entrevistar o Leonardo, pela paixão que tenho pelo clube. Pela conversa com o Leonardo, a gente já sentia que ele queria se despedir. E conversei muito com ele na entrevista – para não dizer que anunciou agora a despedida, a entrevista foi há um mês antes do anúncio oficial, mas já se sentia isso. Mas o que nos aproximou na entrevista foi o tédio, a tristeza com que as coisas estão acontecendo, tanto na parte musical, naquele mundo lá de cima, como no futebol. Por exemplo: sou a favor da prata da casa e nunca torci por jogador que troca de clube. Hoje é a coisa mais comum. Não é nostalgia de não aceitar as coisas. Sinto saudade dos uniformes clássicos do futebol. Não gosto dessas listas européias, desse padrão europeu. Gosto do uniforme clássico, do oficial. O Flamengo de listas largas. Não concordo com isso. Sou a favor da bola de couro, pesada, para quando matar no peito, doer. É verdade! Suar a camisa, mesmo. Não posso aceitar que um esporte de extrema emoção esteja hoje como se fosse uma Fórmula 1, com projetos de tecnologia, de fibras. Não admito isso em um esporte desse. Então, todo o balé que o futebol propunha – talvez até de uma bola pesada, escorregadia, do jogador que vinha e brigava pela bola. Quando eu era garoto, a bola era de couro. Você tinha que passar sebo de carne para proteger o couro, para não ressecá-lo. Então, o urbano do urbano que diminui o campo das várzeas, aquele campo em que o cara jogava com laranja. Hoje ninguém mais joga com laranja. É verdade, bicho!
Max Eluard  Eu jogava com cabeça de boneca.
Moacyr Luz  É isso, aí!
Monteiro  E o time vence o jogo por 1 a 0, na retranca, e todo mundo comemora.
Zé Luiz  Sobre essa história da bola, a gente não tinha dinheiro e jogava com bola de plástico. Quando fazia uma vaquinha e dava para comprar uma bola de capotão, mudava tudo. Aí quem era bom, era bom.
Moacyr Luz  Meu amigo, outra coisa que eu acho fundamental. Os campeonatos regionais têm um significado que é o do botequim. É você gozar o seu amigo do lado, no ônibus. Essa inocência… Eu disse isso numa entrevista, em um jornal, e meteram exageradamente. Não tô nem com essa bola toda, mas exageraram. Saudades que eu tenho da inocência das músicas. De uma música sendo feita, daquela história que a gente conversou sobre o Dobrando a Carioca. Então, essa inocência de algumas coisas básicas, se elas fossem mantidas, a gente caminhava de outra forma. Estou atrás de um livro chamado Tudo é impossível, não sei falar o nome do cara, Jean Baudrillard, esteve aqui na Bienal. [n.e. A troca impossível, Nova Fronteira, 2002] Ele, aos 73 anos, insiste na juventude, como diz o Aldir. Ele insiste que a criação é o que vai sobreviver disso tudo. As baratas e a criação, porque as baratas não é brincadeira, não!
Max Eluard  Tem alguma composição sua relacionada ao futebol?
Moacyr Luz  Não. Engraçado isso.
Zé Luiz  Mas como você diz, está pronto, né?
Moacyr Luz  Esse não que eu falei, o Zé acabou de traduzir. Existe essa música ainda, só não saiu! [risos]
Zé Luiz  Aguardem!
Monteiro  O disco de 88 tem uma com o título. Rubro…

Moacyr Luz  “Rubra paixão”.
Monteiro  Pensei “Será que ele está falando de futebol?”
Moacyr Luz  Não, é uma canção de amor.
Seabra  Engraçado isso que o Max falou, que está ruim na música, mas no futebol está pior. A música, no frigir dos ovos, é o que está de melhor no país, né? Das áreas culturais todas, o que salva é a música.
Moacyr Luz  Deixo eu falar uma coisa para você. Uma vez eu estava conversando com o Guinga. Só para você entender um pouco o que você está dizendo. Eu vou ser radical, tá? Eu, Guinga, Jards Macalé e Zé Renato estamos indo fazer um show no interior de Minas Gerais, todos naquela Sprinter deliciosa – era um sábado de manhã –, passamos por um campo no meio da estrada, com aqueles jogos de camisa, torcida, famílias e amigos, onze contra onze, tudo bem uniformizado. “Pára, pára, pára o carro!” [risos] Caralho, eu tenho prazer em ver esses jogos. Funciona um pouco com o samba e com o choro, tá? Lógico que eu fui muito radical, mas ainda existe o cara que trabalha a semana inteira e joga futebol. E ali, igual à música, ao samba, ao choro, você fica ali meio de gaiato, e você ouve “Injustiçado!” [risos], “Esse não quis ir à capital. Injustiçado!” É isso aí!
Tacioli  Moacyr, muito obrigado.
Moacyr Luz  Eu é que agradeço a oportunidade.
Zé Luiz  Só vou fazer um aparte, mas tem um assunto, que não é de música, de futebol, que é maravilhoso, que é bo-te-quins do Rio de Janeiro.
Moacyr Luz  Isso aí, num dia…
Zé Luiz  Pode ser uma outra. Vocês não vão acreditar!
Tacioli  Pode ser a nossa próxima entrevista.
Moacyr Luz  Para essa, vocês vão ter que alugar dois provedores. [risos] Pára, pára de gravar. É que tem umas coisas que são engraçadíssimas, por exemplo, um dia eu recebo um telefonema do Marcos Gomes. “Moacyr, escuta isso aqui. Sabe quem soube que você reúne as pessoas em sua casa e que quer ir aí conversar com você?” Essa história tem quatro anos. “Quer conversar contigo, quer entender essa coisa de Rio de Janeiro.” “Quem, Marcos?” “O Lula, pô!” “Não acredito, o meu presidente!” “É bicho, ele quer marcar um dia para ir em sua casa. Que dia que ele pode?” “Daqui uns quinze dias, para dar tempo de eu chamar a rapaziada.” “Olha, ele vai ficar aí uma meia hora, só para poder bater um papo.” “Tudo bem!” Duas horas da tarde, chega o Lula lá em casa. E eu tinha convidado o Monarco, o João Nogueira, o Wilson Moreira, Luiz Carlos da Vila, Ney Lopes. Eu juro que não falei para ninguém, mas foi capa do Jornal do Brasil, página inteira do Globo. O Lula ficou quatro horas lá em casa, escutando samba, conversando com a gente. Fiz uma série de tira-gosto para ele. Espero que ele lembre disso quando for presidente daqui a seis meses! [risos] Rô, mais um chope para mim, bem geladinho, por favor!
Zé Luiz  Eu também quero!
Max Eluard  Dois.
Almeida  Três.
Zé Luiz  Então, a saideira.

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