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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 20/23

O Hélio me ensinou a ouvir e o Aldir me ensinou a falar

Max Eluard  Uma coisa que percebi nessa nossa conversa que começou há três dias é que você preza muito a parceria. O que você acha que um parceiro acrescenta? Qual é a diferença entre compor sozinho e com parceiro?
Moacyr Luz  Olha, eu, hoje, aos 44 anos de idade, sou parceiro do Aldir Blanc, depois Paulo Cesar Pinheiro – e lembrei da Rosana, que gravou música minha, em que sou parceiro do Sérgio Natureza – Wilson das Neves, Ney Lopes, Délcio Carvalho, Ivor; fiz uma música agora com o Martinho da Vila, foi uma honra para mim. Aprendi um negócio com o Luiz Carlos [da Vila]: “A gente tem que respeitar número baixo!” Quando você é parceiro de uma pessoa, esse relacionamento tem que ser muito bem valorizado.
Max Eluard  E amplo, também. Você não é parceiro só na música, mas nas idéias, no jeito de ver o mundo.
Moacyr Luz  A obra que acabei construindo com o Aldir vem do resultado da gente estar assim, nunca fizemos uma música que não entregasse a música ou a letra à revelia. Sempre veio de alguma coisa assim, “Você sabe que ontem eu estive com o fulano e fiquei impressionado como ele está cantando bem!” “É mesmo, bicho!” “Até me inspirou a fazer algo sobre o cantar!” “Porra, é mesmo?” Aí, faço o samba e vem o Aldir.
Max Eluard  Seria uma vivência e não um exercício.
Moacyr Luz  Às vezes, você faz só uma ou dois músicas. Não quer dizer nada disso, mas quando um relacionamento é maduro, respeitoso, a parceria é para dois, entende? Eu faço para você, você faz pra mim. Eu não faço a minha parte e você faça a tua, né?
Max Eluard  Vamos fazer juntos.
Moacyr Luz  Vamos fazer juntos.
Tacioli  Moacyr, você ouve seu discos anteriores?
Moacyr Luz  Não, não ouço, mesmo. Me dá melancolia.
Tacioli  Melancolia?
Moacyr Luz  É, porque eu acho que eu merecia coisa melhor. Por exemplo: são músicas que, para mim, o “Anjo da Velha Guarda” tinha que estar tocando na rádio diariamente. Então, para eu não ficar vivendo esse troço, essa ebulição da mesma água – gostei disso! [risos]
Max Eluard  Ebulição da mesma água.
Tacioli  Então, meio que encerrando aqui…
Moacyr Luz  Opa! [risos]
Tacioli  Musicalmente, o que mudou do seu primeiro disco ao Na galeria?
Moacyr Luz  Tem uma coisa que eu sempre falo e quero dizer também no site de vocês. Eu tenho a minha vida que o Hélio me ensinou. O Hélio me ensinou a ouvir e o Aldir me ensinou a falar. Isso eu tenho como minha identidade pessoal, o meu caráter. A partir do meu trabalho com o Aldir comecei a entender que não podia ser em vão quando eu subisse num palco para cantar. Quando você está em um palco para cantar, e as pessoas estão pagando para ouvir, você tem que trazer alguma coisa para elas ouvirem. Você não pode banalizar aquele momento ali pelo simples delírio. Então, cada vez mais eu preservo todas as vezes que eu tenho que compor uma música, e te digo, aquela coisa do baú das que não são aproveitadas, é até, às vezes, uma injustiça com uma música ou outra, mas é a responsabilidade de expor um trabalho. Você não pode ocupar as pessoas, na minha cabeça, em vão. Então, do primeiro ao último disco, talvez um amadurecimento que eu tenho da minha própria descoberta, porque eu sempre fui a mesma coisa, do pretinho até o Na galeria. O que amadurece é simplesmente mais o tato, porque você, às vezes, não enxerga, e o tato ele apura.
Zé Luiz  Engraçado, Moacyr, porque de uma forma ou de outra eu tive a oportunidade de estar presente em todos esses discos. Acho que eles são muito parecidos, desde o primeiro, a emoção musical à melódica.
Moacyr Luz  Pois é. É uma coisa que você tem em sua vida, mesmo. Você não ter mais tanta pressa, você ter mais calma para perceber algumas coisas.
Tacioli  Existe uma ânsia para se produzir um disco, Moacyr? Porque sua carreira discográfica é…
Moacyr Luz  Pequena.
Tacioli  É pequena. Existe essa ânsia?
Moacyr Luz  Eu sempre tenho. Não tenho pânico de morte, mas tenho vontade que as pessoas conheçam as músicas. Eu sinto, modestamente, quando estou numa roda, pego o meu violão e toco os sambas, as pessoas ficam feliz em ouvir. Se elas estão felizes, a gente podia botar isso mais adiante, mais à frente. Esse é um pensamento meu. Estou com 44 anos de idade empenhado em manter…, antes dos 44 eu já parei aqui de falar. [risos]
Tacioli  Beleza.
Max Eluard  Tá jóia!

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