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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 19/23

A música "Obrigado", do Gudin, é o meu bastão

Almeida  Moacyr, você frisou muito que você é compositor, mas em seu último disco você está como intérprete. Fiquei curioso para saber o que você teve que deixar de fora.
Moacyr Luz – Na reta final deixei de fora… O que eu deixei de fora? Não me lembro. Tinha uma música do Zé Keti que eu queria muito ter gravado. Eu achava fundamental ter o Zé Keti no disco. O Na galeria tem a seguinte compreensão: algumas músicas eu tinha como certas, como isso aqui [canta] “Não quero mais saber / De quem me fez sofrer / Nem que venha coberto de ouro / Não há prazer / Quem me fez, me fez / Outro não me faz / Enquanto eu viver / Não te quero mais”. [n.e. “Coberto de ouro”, de Waldemar Gomes e Afonso Teixeira] Você aprendeu essa música comigo?
Max Eluard  Foi.
Moacyr Luz  Tá vendo como é bom ter um disco trazendo essas coisas!
Zé Luiz  Já é uma transformação.
Moacyr Luz  É. Essa música eu tinha como certa. Esse samba também [canta] “Também tenho / Meus momentos de tristeza / E, quando choro, tenho razão / Eu não sou / Melhor do que ninguém, eu não”. [n.e. “Momentos de tristeza”, de Herivelto Martins e Popeye do Pandeiro] Isso eu tinha como certo. Para arrebentar logo, estou com o Guilherme escolhendo músicas para o disco dele – nem sonhava com o Na galeria – e aí vejo Waldemar Gomes, que é o autor dessa música aí, “Coberto de ouro”. “Pô, Guilherme, e o Waldemar?” “Pô, sou fã do Waldemar Gomes. Ele era meu vizinho lá em Piedade.” Aquelas histórias maravilhosas. “Ele cantava um samba magistral.” Fiquei com isso na cabeça. Quando pensei no disco, “Com essa não tem discussão!”. Depois comecei a escolher os compositores. Eu não podia deixar de fora Cartola, Pixinguinha, essas coisas.
Rozana  O que te fez escolher o Capinam?
Moacyr Luz  Desde que escutei pela primeira vez a música do Capinam no Festival de Avaré, eu disse: “Essa música é o elo perdido. É o bastão!” Essa semana eu fiz um programa lá em Brasília chamado Memória musical. Muito bacana. E botei a música “Obrigado”, do Gudin. Essa música é hoje é o meu bastão. Isso eu aprendi muito com o Aldir. A gente tem que entender que quem está ao nosso lado está a favor da gente. E outra coisa: não é favor, não! Porque só está do lado da gente quem a gente confia. Então, não me custa nada estar no programa Ensaio e poder dizer que estou empolgado com o site Gafieiras. Não estou fazendo nada demais, a não ser prestigiar uma coisa que merece prestígio. Foi isso que várias gerações de compositores nos anos 60, indo para os 70, construíram. Formaram seus núcleos, apostando…
Zé Luiz  Ele fez várias pontes para que outros artistas pudessem vir ao Villaggio, como Fátima Guedes e Dona Ivone Lara. Então, o Moacyr é decisivo na história do Villaggio. Ele está falando dessas apostas e, eu, humildemente, incluí o bar como uma entre as dezenas. É importante que se frise isso.
Seabra  O Dobrando a Carioca foi você quem organizou?
Moacyr Luz  Foi. Pelas diferenças, que é a química, que faz Jards Macalé tocar com Guinga. Tanto o timbre do Macalé me apaixona, quanto a vanguarda do Guinga.
Seabra  O Zé Renato é um pouco parelho a você.
Moacyr Luz  Exatamente.
Seabra  Ele está se aproximando mais do samba.
Moacyr Luz – O Zé tem uma voz. Ele é um músico exemplar, um compositor de harmonias maravilhosas. Bom, só para fechar o negócio do Na galeria, no final, quando escolhi o samba do Padeirinho, falei para mim mesmo: “Caramba, tô muito Mangueira!” Eu sou Mangueira. Aí, falei, “Tem que ter um samba da Portela e um do Império Serrano”. Pô, tô apostando muito no Império Serrano, principalmente, na Velha Guarda. Faço questão de registrar isso. Aí escolhi um samba do Candeia – eu poderia ter escolhido um do Monarco ou de qualquer outro. Foi um do Candeia porque me veio a introdução. O Zé acompanhou a gravação do disco. Fizemos aqui em São Paulo. Não posso ser modesto nesse minuto aqui: eu tinha o disco todo na minha cabeça. Esse disco foi gravado em dois dias; só fiquei um a mais para fazer a voz.
Zé Luiz  Dois dias e duas noites, além dos dois meses de pré-produção.
Moacyr Luz  Quando fui para o estúdio, eu já sabia de cada vírgula que estava acontecendo no disco. Não tinha “Ah! Moacyr!”.
Zé Luiz  Corta o espírito, né?
Moacyr Luz  Eu já tinha tudo, tudo, tudo. Era a possibilidade que eu tinha de botar um acorde desse num samba [toca], tá entendendo? Talvez mais tarde as pessoas tenham uma compreensão melhor sobre isso. Tentei ser o mais respeitoso com todas as harmonias. E particularmente, eu tinha tocado no aniversário de 80 anos da Dona Ivone Lara. Fui convidado pelo MIS, pela Marília Barbosa, para cantar o “Anjo da Velha Guarda” para a Dona Ivone. E a Dona Ivone já me conhecia daqui, de casa, de outras coisas. A Leila Pinheiro fez um show no Rival e cada dia ela levava dois convidados. E um dia fui eu e a Dona Ivone, tocamos juntos. Tô falando isso porque as coisas não são muito à toa, não! Elas tem um sentido. E quando acabei de cantar – a Velha Guarda do Império Serrano estava toda perfilada, bonita, a roupa da Diretoria, o brasão. Sou apaixonado pelos brasões das escolas. Puta, bicho, que coisa mais linda! Aquele brasão florido! Aí veio o [Wilson] Das Neves, “Pô, Moacyr, que maravilha você cantar esse samba!” Fomos para um canto e ele “Amanhã vai ter um almoço da Velha Guarda lá na Serrinha, com a família do Mano Décio, do Silas de Oliveira. Vá lá, Moacyr, duas horas da tarde!” Nesse dia, para piorar, o Aldir apareceu e nós fomos parar num botequim, não-sei-onde, deve ter sido na Capela, que é um lugar onde gostamos muito de ir. Cheguei em casa às 6 da manhã, liquidado. Descansei um pouco e às duas horas da tarde eu estava lá. Fui tratado com um respeito, um carinho. Nesse dia tinha umas pessoas, uma rapaziada de 20 anos filmando esse almoço. Aí, determinada hora, o Toninho Fuleiro, filho do Mestre Fuleiro, fala assim: “Eu queria cantar um samba do meu pai!” [canta] “São tantas / tantas foram as primaveras”. “Caramba, é a música que falta para fechar o disco!” Essa história é absurdamente real! Eu ia viajar depois com o Dobrando a Carioca, fizemos uns shows no Nordeste, e falei para eles, “Eu quero retribuir esse almoço da Velha Guarda”. Eles foram todos naquele botequim na minha casa – quando vocês forem lá em casa, no Rio, vocês vão conhecer. Tem uma foto deles todos lá na parede do meu botequim. Agora estou fazendo uma galeria de fotos das coisas que acontecem na mesa. Fizemos uma costela com batata, o Aldir desceu de verde em homenagem a Império Serrano. É, mermão, não é brincadeira, não!
Zé Luiz  Vocês não fazem idéia do que é isso! [risos]
Moacyr Luz  E cantamos noite adentro!

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