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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 1/23

Moro no mesmo prédio do Aldir Blanc

Ricardo Tacioli  O fio do microfone é curto.
Moacyr Luz  Você quer que eu ponha?
Tacioli  Pode ser?
Moacyr Luz  Estou aqui para isso, bicho!
Zé Luiz  O Moacyr trouxe especialmente para a gente, né?!
Moacyr Luz  Esta é uma cachaça maravilhosa. É de um amigo meu do Rio de Janeiro. Cachaça maravilhosa, sinceramente. Ainda mais servida pelo Barbosa. Quem vai mais aí? Meu cumpadre, aí?!
Sérgio Seabra  Eu aceito, mas meia-carga.
Moacyr Luz  Pode ficar tranqüilo porque amanhã você vai acordar muito bem.
Max Eluard  Dá uma renovada no fígado. As cachaças tratam do fígado.
Moacyr Luz  Quer começar a gravar? Não era bom, porque daqui a pouco…
Tacioli  Pode ser. Já acionei o equipamento. Vamos começar? Depois o Daniel e o Dafne incorporam-se à mesa.
Max Eluard  Como foi a sua infância, Moacyr?
Moacyr Luz  Ontem até conversei isso com o Fernando Faro [n.e. Idealizador e produtor do programa Ensaio, da TV Cultura]. A minha infância foi a mais normal possível. Eu tive, talvez, uma diferença de vida, porque eu fui muito cigano toda a minha vida. Até os 15 anos de idade, fui muito cigano de moradia. Morei em bairros muito ligados ao subúrbio…
Max Eluard  Sempre no Rio?
Moacyr Luz  Sempre no Rio. Eu nasci em Jacarepaguá, com dois anos fui morar no Catumbi.
Flávio Monteiro  Isso em que ano?
Moacyr Luz  Nasci em 58. Depois fui para o Catumbi. Tinha um bairro de mil histórias no subúrbio, ainda mais naquela época, que era a época do Bafo da Onça [n.e. Famoso bloco carnavalesco do Rio de Janeiro], era a época que tinha uma malandragem que seguia pelo Catumbi até chegar à Lapa. Um casario que se aproximava de Santa Teresa. Depois os túneis foram destruindo um pouco o bairro. Depois fui morar praticamente em Santa Teresa, no morro de Paula Matos, na subida de Paula Matos – não se chama de morro, mas é um morro, uma subida. Depois fui morar em Bangu, em uma vila habitacional. Nós saímos de uma coisa que havia sido desapropriada para a construção de uma obra e fomos morar em umas casas populares, dessas todas igualzinhas. Como diz o meu amigo Guilherme, o mestre Guilherme de Brito, “Além das casas serem igualzinhas, botam algarismos romanos para complicar ainda mais a cabeça do pé-de-cana quando chega em casa.” [risos] Ele já não sabe como é que sabe, porque tudo é igual, e ainda tem aqueles algarismos romanos para complicar mais ainda a cabeça do sujeito. Depois fui morar em Copacabana até a minha vida musical começar mesmo no Méier, que foi quando conheci o Hélio Delmiro e a família Delmiro.
Tacioli  Você tinha uns 15 anos?
Moacyr Luz  Exatamente três dias depois de eu ter feito 15 anos. Eu digo uma coisa assim, que eu não quero que seja levada como pretensão, mas eu acredito que sempre tive talento para criar as coisas, entende? Eu sempre procuro justificar isso porque o talento é uma coisa inerente. Você tem talento para alguma coisa. Tenho talento para criar. Então, eu já sabia que alguma coisa a minha vida teria a ver com criar, fosse escrevendo, desenhando. A minha vida estava ligada à criação.
Max Eluard  Qual foi sua primeira manifestação criativa?
Moacyr Luz  Eu acho que a manifestação criativa existe da maneira que você olha as coisas, entende? Você conclui as coisas diferente. Não é que você seja uma pessoa diferente, mas você observa as coisas diferentemente.
Max Eluard  Mas quando foi a primeira vez em que ela se materializou? Foi em um jogo de bola…
Moacyr Luz  Foi assim: quando garoto eu queria escrever uma história. Eu achava bonito essa coisa de um pequeno movimento ter um significado diferente, propor uma história a partir de um nada. Uma conclusão que tenho sobre isso – para a gente passar essa folha -, eu não sabia, fui saber depois de ouvir essa história: o Picasso fez um cavalo na pedra, maravilhoso, e um crítico, “Mas como é que você viu, bolou esse cavalo nessa pedra?” “Não, bicho, já era um cavalo! Eu só tirei a pedra! O cavalo já existia ali. Só tirei o que não era cavalo!” Quer dizer, esse troço existe na criação. Eu cada vez mais tenho consciência de que todas as músicas que eu fiz e as que vou fazer, todas já existem dentro de mim. Alguma coisa as despertam, porque não é possível… Eu, por exemplo, não posso demorar para compor uma música. Se ela não sair quase que imediatamente, eu prefiro largá-la. Eu não sei pegar uma música e ficar um dia inteiro fazendo a primeira parte e outro dia fazendo a segunda. Eu preciso que essa música saia de dentro mim. E quando ela sai é porque ela presta, entende? Eu converso muito sobre isso com o meu parceiro, o Aldir Blanc, porque eu sinto quando entrego a música para ele, a rapidez com que ele me devolve. Se ele me devolve quase que no pingue-pongue, é por que funcionou. Deixem-me contar um caso. Depois vocês vêem como é que vocês vão editar isso. Uma vez eu estava na minha editora e vi que estava um bochicho a respeito da Maria Bethânia, que estava procurando músicas pra São Jorge. Então a editora estava, dentro do catálogo da gravadora e do dela própria, procurando músicas de São Jorge para a Bethânia. E eu, curioso, “O que está acontecendo aí?” “A Maria Bethânia está precisando de uma música para São Jorge.” E eu sou todo devoto de São Jorge – isso aqui é um anel de São Jorge, tem três fitas de São Jorge aqui, eu tenho São Jorge na minha parede, fui criado com o meu avô fazendo a gente sair de casa todos os dias e um quadro daqueles preto-e-branco, ovalados, a agradecer São Jorge. Quer dizer, tenho ido sempre no dia 23 de abril às missas e à procissão de São Jorge. “Meu Deus, uma música para São Jorge!” Fui pra casa – moro no mesmo prédio do Aldir. Eu moro no 103, o Aldir no 402. Um prédio pequeno. E comentei isso com ele. “Bicho, a Bethânia quer uma música para São Jorge.” “Eu nunca gravei nada com a Bethânia, Moacyr!” Essa história é de 92. “Nunca gravei nada com a Bethânia em 20 anos.” Acho que o primeiro sucesso do Aldir é de 1969. “Mas você é quem sabe!” Mas quando ele falou, “Vamos fazer?”, “Vamos!”. Nesse momento, bicho, eu desliguei o telefone, peguei o violão e fiz a música quase toda. Bom, eu achei que tivesse feito quase toda. Eu gravei. E subi. “Aldir, aquilo que eu conversei com você, é isso!” Bicho, desço do 4º andar, não dá dez minutos, ele liga. “Moa, fiz aqui a tua letra e acrescentei mais um pedacinho. Veja o que você faz!” Ele me mandou, eu olhei aquele negócio. Peguei o violão, completei aquele pedacinho e senti que dentro de mim tinha ainda um outro troço. Isso tudo em questão de meia hora. [canta] “Que a malvadeza desse mundo é grande em extensão”. O pedacinho final, a última corda [continua cantando] “E muitas vezes tem ar de anjo / E garras de dragão.” “Aldir, ainda tem uma corda, uma explicação a mais do mundo e para o mundo, das coisas de São Jorge protegendo…” Aí ele vem e me entrega isso. Gravo no fim da tarde e entrego de manhã na editora, e em menos de duas horas, a Bethânia já liga de volta dizendo que quer gravar. É uma música que tem esse… ela existe, né? “Saudades da Guanabara” eu estava com o Aldir e com o Paulinho [n.e. O letrista Paulo Cesar Pinheiro] na minha casa – eu tinha feito um samba com o Paulinho chamado “Saravá Brasil”, que a Amélia Rabello veio gravar em um disco para o Japão chamado Saravá Brasil (1989) – e mostrei um samba. Eu tinha uma letra qualquer nota, e a gente durante dois anos praticamente, iniciou umas reuniões musicais em que aconteceram umas coisas, modestamente falando, inacreditáveis, quando o Guinga começou a trabalhar com o Aldir. Para você ver um extremo da elegância que essas histórias estavam tomando: o Oscar Castro Neves saltou no Aeroporto do Galeão e, orientado pelo Sergio Mendes, pegou um táxi e foi direto para a minha casa, na Tijuca. Ele sabia que aquele dia era dia de reunião. E uma das pessoas que freqüentavam muito as reuniões era a Beth Carvalho. E a Beth me chamou no canto, “Aquele samba que você me mostrou, eu adoro, mas aquela letra… Não estou ainda me entendendo com essa letra.” Bom, eu guardei essa história, e nesse dia comentei isso com o Aldir e com o Paulinho, e cantei o samba. Cantei como se pudesse cantar aqui para vocês. Cantei umas duas ou três vezes, a gente abrindo uma cerveja e o Aldir falou assim: “Como é que está de cerveja aí?” “Tem umas duas ou três! Vou ligar no bar da Dona Maria, mando buscar!” “Não, tenho lá em casa. Peraí, vou lá em cima!” E ele demorou, juro para você, talvez 20 minutos. “Será que o Aldir vai subir e ficar lá em cima, desistiu?!” Mal pensei isso, ele já desce, com uma bolsa de cerveja, faz uma brincadeira, “Bicho, já dá para arrumar um dinheiro para trocar a cortina porque fizemos um sucesso!” E ele entregou uma parte da letra e o Paulinho quase que imediatamente fez o samba. Tudo no mesmo dia, palavra de honra. Era quase 11 da noite, eu muito empolgado, etilicamente falando também. Liguei para a Beth e cantei o samba “Saudades da Guanabara”. Acho que era uma hora da manhã e a Beth já estava em casa. E ela gravou o samba [n.e. Faixa de abertura e que dá título ao disco lançado pela Polygram em 1989]. Só para provar que quando a música existe, quando feita nesse canal que a gente está conversando, que é já existir dentro de você, não tem jeito.

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