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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 17/23

O Guilherme de Brito tem os anjos do bem e do mal ao seu lado

Rozana  Você falou do Casquinha, mas não comentou do Guilherme.
Moacyr Luz  Vou contar três casos ocorridos muito antes de sonhar em fazer esse disco com o Guilherme. Percebo isso no trabalho de parceiros: às vezes, o cara só fala do letrista, não fala do compositor. Outras vezes, só fala do compositor, e não do letrista. O Guilherme tem uma nobreza ao compor. Você observa isso em sua obra quando ela está separado da do Nelson Cavaquinho. O Nelson era muita luz, era muito genial. Vamos chamar uma coisa meio maluca – isso daqui já está começando a fazer um efeito danado [aponta para a cachaça] [risos]: o Nelson era multimídia. Ele era compositor, personalidade e boêmio. Ele era muito louco.
Max Eluard  Ele se expressava de várias maneiras.
Moacyr Luz  O Nelson ficava dois dias sem dormir. Mas quando o Guilherme faz o seu trabalho separado do Nelson, você identifica uma questão psicológica, um conceito de justiça, do bem e do mal que é a bússola da obra toda da dupla. Isso vem muito do Guilherme. O Guilherme tem o tempo todo esses dois anjos ao seu lado e em seu trabalho: o do bem e o do mal. Para mim era sufocante que as pessoas não ouvissem esses anjos que norteiam o Guilherme. Estou fazendo uma poesia aqui, mas é isso. Tire pra mim esse “Fazendo uma poesia”. [risos] Uma vez ganhei uma medalha da Ordem Pedro Ernesto, que a Prefeitura me deu por serviços prestados à cultura. E para a minha surpresa, quem foi me assistir lá na Câmara dos Vereadores? Guilherme de Brito. O Luizinho fez um buffet bonito com essas coisas que eu gosto, jiló, torresminho, carne seca, aquela coisa toda. O pessoal foi muito carinhoso comigo. Barbosa, meu querido! [chama o garçom] E naquela festa o Guilherme veio falar comigo. [com voz baixa e rouca] “Moacyr, Moacyr”. Aí chega um vereador, Eliomar Coelho. “Eliomar, meu mestre Guilherme de Brito veio me assistir na entrega da medalha. E eu não pude assistir a entrega da sua, né, Guilherme?” “Não ganhei medalha!” “Você não ganhou a medalha Pedro Ernesto? Vou devolver a minha agora!” Porra! Não é possível. Imediatamente foi proposto a entrega da medalha para o Guilherme. E vou te dizer: foi uma festa de chorar. O Elmo botou a Mangueira de um lado do plenário cantando. Uma coisa monumental!
Tacioli  Você acha que essa jovem guarda do morro respeita esses sambistas veteranos?
Moacyr Luz  Tenho medo de falar um negócio aqui, mas não vejo isso, não! E também não condeno, não, tá? Acho que a juventude do morro de hoje tem outros ídolos, ídolos que usam as músicas para reivindicar. É um processo que assisto, mas considero legítimo todos esses raps que denunciam a segregação É muito diferente.
Tacioli  Mas será que o novo pessoal do samba, que está envolvido com a escola, respeita esses sambistas antigos?
Moacyr Luz  Quem está envolvido com escola de samba, respeita. Não é que a comunidade, não respeita; não passa por aí, não tem tempo pra isso. Entende? Disputei um samba-enredo na Mangueira. Fui finalista. Desculpem-me, mas conheço um pouco isso. Não estou falando de ver de longe, tô falando de ver de perto. Convivi quatro meses dentro do Morro de Mangueira. Fui vice-campeão. Com enredo em cima do Chico Buarque.
Seabra  Escrevi ontem um texto para o Gafieiras sobre esse desfile da Mangueira.
Moacyr Luz  Ah, é? Você desfilou?
Seabra  Desfilei. Eu era um dos paulistas pagantes.
Zé Luiz  Fundamentais! [risos]
Seabra  O texto é sobre isso.
Moacyr Luz  Quer ouvir o meu samba?
Tacioli  Vamos lá, por favor!
Moacyr Luz – De Moacyr Luz, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós. [canta] “Olê olê, olê olê, olê olá / Tô pedreiro / Tô poeta / Tô sem terra / Tô Mangueira / Olê olê, olê olê, olê olá / Tô que é só felicidade / Tô guri para a vida inteira / estava à toa / estava à toa na vida / quando o meu amor me chamou / me chamou / pra verde-e-rosa mais querida / Com Mangueira eu vou / na roda-viva da vida / me despedi / A passarela ficou mais bela / Na poesia e na paixão / Chico Buarque / o que será que me dá / seguindo o seu refrão / eu chego às lágrimas com as suas páginas / são feitas de pétalas de flor / eu fico atônito com esse espetáculo / eu fico bêbado de amor / e hoje / e hoje meu samba saiu / de verdes olhos, verdes rosas e tingiu / nesse barco a branca luz do refletor / E a Mangueira ficou tricolor / Polytheama de paixão / Quem te viu e quem te vê/ meu coração / transbordando a flor da pele / é a razão que se opõe às fases da opressão / e a hora de dividir / a fome do meu guri vai passar / não falei / vai passar e o povo olha aí / vai gritar / é outro dia / O dia em que essa terra dos sem-terra / fizer justiça de verdade / ao seu trabalhador / O dia em que essa terra dos sem-terra / for como sonho do escritor / do sonho e do amor / Olê olê, olê olê, olê olá / tô pedreiro / tô poeta! [Zé Luiz reforça o coro]
Seabra  E escrevi no texto que o samba não era lá essas coisas. [risos]
Zé Luiz  Do Moacyr?
Seabra  Não do Moacyr!
Zé Luiz  Ah, bom!
Seabra  Do samba que ganhou.
Moacyr Luz  Aquilo gerou uma discussão que foi parar no Fantástico. “Oi, Iaiá, oi Iaiá”. Oi, Iaiá? Chico Buarque? Oi, Iaiá? Que é isso?!
Zé Luiz  E inventaram um verbo: buarquiando.
Moacyr Luz  Mas “Oi, Iaiá”?
Seabra  Que pena!
Moacyr Luz  Digo para vocês que no futuro, quando eu tiver uns 60 anos, vou estar bem de dinheiro. Por que tem pessoas que acham que se esse samba entra, o próximo ano os compositores iriam relaxar de novo, trazer versos grandes. Samba-enredo é com versos grandes. Não é porque o tempo de desfile é curto que o samba tem que ser curto. Não precisa cantar duzentas vezes, que é até cansativo. Canta cinqüenta, entendeu? Não muda muito!
Seabra  Esse seu samba é delicioso de cantar.
Moacyr Luz  Esse era um samba que a gente havia feito, cercado de tributos, com proparoxítonas, a parte que é menor é uma homenagem ao “O que será”.

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