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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 16/23

Casquinha é a natureza, é a terra cheirando

Tacioli  Como produtor, o que você buscava nos discos do Guilherme de Brito [n.e. Samba guardado, Lua Discos, 2001] e do Casquinha [n.e. Casquinha da Portela, Lua Discos, 2001]?
Moacyr Luz  Vou aproveitar a oportunidade do site Gafieiras para conversar sobre isso. Quando fiz o Mandingueiro, eu tinha uma proposta sonora para aquele disco. Vocês já ouviram o Mandingueiro? É um disco que não tem bateria. Ele tem elementos fundamentais de samba. O disco foi todo inspirado no A voz do morro, aquele disco dos Cinco Crioulos. Mandingueiro, de 98, é resultado do disco de 66 [n.e. Formado por Zé Kéti, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescarzinho, Jair Costa, José da Cruz e Oscar Bigode, o grupo A voz do morro lançou em 1966 seu terceiro e último LP, Os sambistas (RGE). O conjunto Os cinco crioulos originou-se da dissolução do A voz do morro e do grupo do espetáculo Rosa de Ouro. Formado por Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Anescar do Salgueiro, Nelson Sargento e Mauro Duarte, o grupo lançou três álbuns entre 1967 e 69]. Esse álbum pode ter sido um aviso para uma maneira de se fazer disco de samba de novo. Talvez ele não tenha sido notado por esse aspecto. Não tenho nada contra a bateria, mas os discos de samba produzidos nesses últimos três anos tem tido muito essa leitura. Vou falar com calma sobre o disco do Guilherme. O disco do Casquinha é especial. Belo e surpreendente. No texto que escrevi falo sobre o jequitibá, mas o Casquinha é a natureza, é a terra cheirando. Ele é puro demais, entende? Tentamos traduzir isso brincando com prato e faca. “Brincando”, por favor, bota aí, entre aspas, um “negociando” todos esses sons que a natureza do samba dele trouxe. Outro dia eu estava escutando, “Fulano botou prato e faca!” “Ah, é?!”, fiquei na minha. Não estou dizendo que redescobrimos o prato e faca, mas é um “Preste atenção!” para o que os discos já tiveram. Estão surgindo gravações com a mesma originalidade sonora, de não ter tantas dissonâncias de timbres com a realidade da obra daquele artista. De repente, isso vira um modismo, mas peço um pouco de atenção que passa por esses trabalhos.
Tacioli  Isso coincide muito com a realidade da Lapa, do Carioca da Gema, da Teresa Cristina.
Moacyr Luz  Quando fizemos o Esquina, em 1999, eu disse “Zé, você quer fazer um disco novo?”. Falei isso em 99. “Você quer um disco novo? Eu quero que seja feito com a Teresa Cristina”. “Tá maluco, Moacyr?!” O Zé sempre acreditou em mim, mas procede, não?
Zé Luiz  Totalmente! [risos]
Moacyr Luz  Sabe por quê? Quem assistiu ao Esquina carioca viu quem estava cantando lá no coro. Teresa Cristina. Fiz questão que a Teresa participasse. Era primeira viagem dela fora do Rio, e participando de um show grande.
Zé Luiz  Fui ao Semente. Fiquei num cantinho, ouvindo a Teresa cantar maravilhas. “Moacyr, filho da puta!” [risos]
Moacyr Luz  Hoje ela está sendo apontada pelo Nelson Motta, as gravadoras pequenas a estão disputando. E ela está gravando um disco, né? Pela Rob Digital. Pra mim, isso tava na cara.
Tacioli  Mas é evidente esse momento de saudáveis coincidências, que não são coincidências gratuitas. O Hermínio também está produzindo o Samba é minha nobreza.
Moacyr Luz  O disco é lindo! [n.e. Disco homônimo recém-lançado pela Biscoito Fino]
Tacioli  Da mesma forma que o choro está bem. Dá para você traçar um paralelo?
Moacyr Luz – É a hora que o filho sai de casa. Vamos pensar nesse troço juntos. É a hora que o filho sai de casa. É a hora que a música brasileira se liberta dessa imposição. Uma rebeldia necessária. Não é uma rebeldia, é uma independência necessária. “Não preciso, vou correr atrás da minha vida”. É a hora que você fala isso para o seu pai, para a sua mãe. É a hora que a gente sai desse mercado e “Vamos fazer os nossos discos, os nossos shows, os nossos espaços, os nossos sites”. Entende? E tem uma outra coisa: a geração de jornalistas que está vindo aí nasceu desse ímpeto. Hoje abri um site rapidamente, Ecoar, que deu cinco linhas elogiando o Pedrinho Miranda. Meu Deus, que voz bonita tem esse garoto!
Tacioli  O Pedro Miranda tem uma divisão rítmica da velha guarda, do Jorge Veiga.
Moacyr Luz  Já estou sabendo há disso muito tempo.
Zé Luiz  Falando em disco, registre-se: daqui a pouco alguém vai gravar a Velha Guarda do Império Serrano e será o disco do século!
Moacyr Luz  Estou há dois anos dizendo “Gente, olhe a Velha Guarda do Império Serrano”
Zé Luiz  Vai ser a maior maravilha do século!
Moacyr Luz  A Velha Guarda do Império Serrano tem, no bojo, a obra do Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola. Quer mais? Dona Ivone Lara e Jorginho do Império. Você quer mais? Porra, bicho!
Zé Luiz  Wilson das Neves.
Moacyr  Wilson das Neves.
Zé Luiz  Mestre Fuleiro.
Moacyr  Mestre Fuleiro. Porra, é um repertório que por si só… Quem está organizando isso é o Wilson das Neves, o Rei da Bateria, o Rei da Percussão.
Zé Luiz  O Zé Luiz, né!
Moacyr Luz  O Zé Luiz! [risos]
Zé Luiz  Não! O Zé Luiz do Império. Desculpaí!
Moacyr Luz  Cizinho, Toninho Fuleiro. As coisas estão na cara.
Max Eluard  Impressionante!
Moacyr Luz  O que não vale é a história do copo de geléia. Não pode começar uma sangria sobre a Velha Guarda, tratando essas pessoas sem perceber seus sentimentos. “Agora, a onda é produzir Velha Guarda!” E trazer uma ilusão para aquele cara, aos 70 anos. Brincar com isso. A coisa não é bem por aí. Você tem que ressuscitar o artista, não ressuscitá-lo, mas dar vida a ele, e não a morte.

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