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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 15/23

Perdi noites de sono torcendo por você no Festival!

Tacioli  Moacyr, eu gostaria de…
Moacyr Luz  Não está no fim, não, está?
Tacioli  Estamos encerrando, [risos] mas antes eu gostaria de saber sobre o Festival da Música Popular que a Rede Globo organizou e que você participou. Com que expectativas você entrou no Festival?
Moacyr Luz  Entrei com todas as expectativas. Preste atenção: tem várias coisas que eu quero falar sobre isso para refletirmos juntos. Sobre essa história que dissemos sobre o sucesso e o não-sucesso, do cara que acaba sendo envolvido por um esquema e tal. Por eu ter participado, por ser um dos 48 que participou do Festival da Globo, experimentei uma ponta de inveja em várias pessoas que não participaram do Festival. Houve um certo esvaziamento muito curioso. Por exemplo: pessoas torcendo para o fracasso daquele projeto em prol de ibopes, de coisas ridículas. Torcendo para que uma emissora com uma programação sertaneja – não estou aqui contra o sertanejo, mas leia-se sertanejo como a da “pior espécie do sertanejo”. A esquadria de alumínio da janela do sertanejo, tá? [risos] Não é aquela madeirinha, não! Então, as pessoas queriam dizer que aquilo era um fracasso, só que ali no Festival, estava o meu nome, o do Zé Renato, o do José Miguel Wisnik, o do Vicente Barreto, o do Sérgio Santos, o do Chico César…
Seabra  Da própria Ná Ozzetti.
Moacyr Luz  Ná Ozzetti, Luiz Tatit, Walter Franco, a Mônica Salmaso, que cantou belissimamente bem. Além desses, posso enumerar mais uns cinco ou seis que mereciam um pouco mais de respeito. E, no entanto, do lado de fora, o que você sentia era um esvaziamento do projeto. “Isso é uma merda! É a Globo, Globo, Globo!” Não vou questionar a Globo a essa altura do campeonato. Não sei se esse festival fosse feito pelo SBT teria um resultado melhor ou pior. Sei que a Globo me deu a possibilidade – está gravando isso aí? – de levar as pastoras da Portela, Tia Doca, Surica, Dona Eunice, a Áurea, e até a Teresa Cristina. Me deu a possibilidade de botar músicos de samba, que são os melhores músicos do Brasil: Ovídio Brito, Gordinho no surdo, Marcelinho no tantã, Carlinhos 7 Cordas, Beto Cazes e Jaime Vignoli. Quero saber quem me dá isso? Só que o esvaziamento foi muito grande. O troço, que era pra ser um troço bacana, ficou bocomoco. E lamento profundamente a falta de compreensão das pessoas, porque se aquilo fosse entendido como uma brechinha pra se tentar mudar alguma coisa, a gente poderia ter tido um aproveitamento melhor. E, evidentemente, como tudo tem uma cagada, o cara escolhe uma música ruim para ganhar [n.e. O rock básico “Tudo bem, meu bem”, interpretado pelo autor Ricardo Soares]. Achei o Tianastácia um grupo maravilhoso de rock [n.e. A banda mineira interpretou “Morte no escadão”, de José Guerreiro]. O menino que ganhou…
Tacioli  O Ricardo Soares.
Moacyr Luz  Desse eu não falo. [risos] Porque eu não o conheço. O menino que estou falando é aquele que ganhou o terceiro lugar, do interior. Uma música que fala que protege as regiões… [n.e. “Tempo das águas”, de Bilora]
Seabra  Mas esse esvaziamento também não ocorreu pela própria Globo?
Moacyr Luz  Lógico! A Globo esvaziou. Mas vamos analisar isso aqui politicamente. Seria uma maneira que a Globo tinha para dizer aos críticos “Estão vendo como não tem nada de novo no front!”. E a contraproposta dos críticos, das pessoas que têm acesso à mídia, era… – li compositores dizendo “Por que não vou participar do Festival da Globo?” “Por que não me meti nessa história?” “Por que não entrei nesse barco furado?” Não, bicho! A intenção, a expectativa era a melhor possível. Chamei a atenção aqui no início para discutirmos juntos. Vamos pensar um pouco sobre isso. Que mecanismos fizeram com que o festival fosse esvaziado depois de tantos anos?
Zé Luiz  Falo como produtor, mas parece que não estávamos preparados para tanta oportunidade. O pessoal não soube tirar o melhor proveito do festival, mas existiam muitas ferramentas ali.
Moacyr Luz  Como vocês mantêm a entrevista na íntegra, vou contar três situações. Uma vez, estou no carro com um amigo de São Paulo, o Ricardo Garrido, e um outro garoto, indo para a Lapa, onde hoje está acontecendo muita coisa. Só que esse cara que estava dirigindo, modestamente, estava meio eufórico porque estava ali com a gente. Uma coisa assim meio maluca. E aí, para estacionar o carro, ele entrou em uma rua totalmente errada. E estacionou. Quando vi, estávamos em um dos becos detrás da Cruz Vermelha. Ele não devia ter parado ali. Mas já que parou, fomos embora. E o Ricardo, inocentemente, entrou em um bar, que é um tipo de bar que conheço muito, um bar que o dono não quer que ninguém entre, só os mesmos. Sabe aquele negócio: você entra e todo mundo te olha de cima a baixo. [risos] Ele entrou para pedir um maço de cigarro, e logo Malboro. Entrasse para pedir Derby, mas Malboro, porra! E todo mundo o olhou de cima a baixo. “Não posso deixar o cara sozinho”. Entrei. E um sujeito me disse: “Vai tomar uma cerveja comigo!” “Ih! Rapaz, eu sabia que… perdi” Aí, vem um sujeito de dois metros e dez, bota a cerveja, me dá um abraço e me diz: “Me fez perder noites de sono torcendo por você no Festival, hein!” Fiquei agradecido. Tomei um copo de Brahma – nem bebo Brahma. Essa é a história um. A história dois: estou saindo do Villaggio em um domingo e resolvo ir ao Pirajá. E eu, malandro, carioca, pego um táxi e digo assim: “Meu amigo, me leva ali na Faria Lima, mas vê se não me dá muita volta, não! Dá para chegar em quatro horas?” Aquela brincadeira, carioca, metido a malandro. “Que é isso, rapaz, um cara que participou do Festival, que eu torci, não posso…” E a terceira história, que aconteceu dia 23 de abril, mais ou menos. Tô em uma procissão de São Jorge lá em Quintino, 30 mil pessoas, uma loucura. E eu, com essa bengala, estava um pouco mais cansado, não sei se sento, como é que me sento ali num cantinho. Um cara me oferece uma caixa de cerveja para eu sentar, e eu ali, não me consigo sentar, aquele plástico. E aí vem uma senhora. Pode perguntar isso para a minha mulher. “Senta aqui, meu filho, aquela música que você fez para o Festival, a música da água [n.e. “Eu só quero beber água”, de Moacyr Luz], é a coisa mais linda que existe!”
Zé Luiz  E aquele dia a gente…
Moacyr Luz  …No centro do Rio. Estávamos na Lapa, eu tinha levado o Zé para tomar um negócio no Morro da Conceição. Quando ele desce me vem um garoto pedir um autógrafo.
Zé Luiz  Você ficou meio assustado na hora, né?
Moacyr Luz  É porque a gente não entendeu muito bem esse processo.
Tacioli  Acompanhei o Festival in loco e a impressão que tive, talvez pela mão da Globo, era de uma artificialidade.
Moacyr Luz  Tinha, tinha.
Tacioli  Com torcidas que se expressavam unicamente graças aos movimentos das câmeras.
Moacyr Luz  Então, são duas frentes. Tentar reproduzir o Maracananzinho? Não existe mais isso! Mas estou falando daquelas pessoas que estavam ali dentro.
Zé Luiz  Tenho uma teoria: se uma das dez mais belas músicas que estavam ali tivessem ganho o Festival, mesmo com todos os problemas que o cercaram, a história seria outra. A Ná, que foi considerada a melhor intérprete, está com um repaldo muito maior hoje.
Seabra  Vale dizer que o disco da Ná Ozzetti pela Som Livre saiu sem lançamento.
Zé Luiz  Mas hoje já se fala de Ná Ozzetti de outra forma. Se os cinco primeiros colocados fossem realmente os cinco melhores, a história seria outra. Modestamente, opinião minha.

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