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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 14/23

Jiló com maxixe, quiabo, bacon e linguicinha. Esse é o meu prato nobre!

Almeida  O que você colheu como compositor da superexposição gerada pelo sucesso de “Coração do agreste”? Você pensou em mudar a sua forma de compor?
Moacyr Luz  Apesar dela ter sido uma música popular, ela tem isso aqui. Vou cantar a parte do refrão para você. [canta] “Eu voltei no curso / revi meu percurso / me perdi no leste / e a alma renasceu / com flores de algodão / no coração do agreste / quando eu morava aqui / olhava o mar azul / num afã de ir e vir / ai finge uma saudade / a felicidade / pra voltar aqui” É uma música popular, mas não tem nada nela que me envergonhe. É uma música melodiosa, tem uma harmonia carinhosa. Não foi uma coisa que mudou nada. Tanto é que a única coisa foi que ela tocou. O “Mico preto” não tocou tanto, era abertura de novela. Essa daqui tocou um pouquinho: [canta] “Clara / cara / rara / dona de mim” – que o 14 Bis gravou [n.e. “Dona de mim”, composta com Aldir Blanc e gravada pelo grupo no álbum Quatro por quatro, EMI-Odeon, 1993]. Sinceramente, não me alterou em nada. Hoje se o Milton Nascimento gravar uma música minha não altera nada. Quer dizer, altera a honra, mas não é a minha cabeça, nunca passei por isso. E nunca tive nenhum sentimento de constrangimento por ter feito uma música de sucesso.
Almeida  Mas por você achar que era a sua chance de “Sou o autor dessa música, vou…”
Moacyr Luz  Não. Sinceramente, você não acha – vou me sentir um pavão agora, vou me foder todo! Vocês não acham que estão aqui hoje por alguma coisa que eu tenha feito? Pode até ter começado pelo “Coração do agreste”, não sei. Não posso acreditar que vocês estejam aqui de araque, né? Então, passa por aí. É uma coisa que vai construindo a sua obra, dos espaços. Talvez se eu tivesse fazendo mais sucesso, o site não estaria me entrevistando. Estaria procurando um injustiçado qualquer.
Almeida  A gente iria te procurar, mas você não iria querer falar com a gente. [risos]
Moacyr Luz  Não, não, porque vocês iam fugir da linha.
Seabra  Não sei se cabe aqui, mas você vai ficar surpreso com a linha do Gafieiras.
Moacyr Luz  Tem de tudo?
Max Eluard  Justamente. Você falou aquela hora do Belo. Mas a gente entrevistaria o Belo sem problema algum.
Moacyr Luz  Imagino que sim.
Tacioli  Como entrevistamos o Lindomar.
Moacyr Luz  Mas o Lindomar é interessante.
Max Eluard  A proposta do site não passa pelos nossos gostos pessoais. A gente não está discutindo isso no site. A gente tenta ver a música brasileira no horizonte.
Moacyr Luz  É interessante isso.
Max Eluard  Sem castas, sem uma ser superior a outra. É complicado você julgar a expressão artística de uma figura simplesmente pelo mecanismo que envolve a produção do cara.
Moacyr Luz  Lógico! Perfeito!
Max Eluard  O cara não tem culpa, mas é como ele se expressa, e é uma expressão artística legítima. Mas ele está envolvido por um mecanismo que faz ele andar de Ferrari.
Moacyr Luz  Concordando com o que você está falando, eu não acho justo, por exemplo, as pessoas cobrarem de determinadas personalidades, muitas delas do samba, que o cara continue pobre. E na hora que o cara melhora de situação… Só você quer ele pobre ali, naquela meia hora no botequim, depois você quer ir embora pra casa.
Max Eluard  São bons os injustiçados!
Moacyr Luz  Exatamente.
Max Eluard  Porque a gente não vai valorizar quem está bem.
Moacyr Luz  Também acho que a questão da Ferrari é o exercício que você investe. Vamos voltar a falar de uma pessoa que eu admiro, que é o Chico César. Ele pode tentar evoluir para um troço maior, mas ele conseguiu ver a tempo, e equilibrou as coisas para que não houvesse aquele lance do condomínio. Daqui a pouco você está sufocado por um exagero de coisas. Vejo assim essa história toda, do trabalho que você vai fazendo. Se você estiver fazendo o seu trabalho, sem você estar muito preocupado com “Preciso ir às festas badaladas porque meus amigos estão aqui, mas eu detesto”. Moro na Zona Norte, não vou à Zona Sul para nada. Às vezes, meu amigo fica lá em casa e diz “Moacyr, vamos lá em Copacabana, Ipanema”. Copacabana ainda vou, porque pra mim Copacabana é o troço mais underground que existe!
Zé Luiz  De vez em quando, né? Adoro a Zona Norte.
Moacyr Luz  Eu não saio. O meu limite é Bonsucesso. Eu te digo uma coisa: já deixei de ir a Reveillon de personalidade na Avenida Atlântica, um negócio top de linha, nego disputando convite e a pessoa me ligando, exigindo a minha presença. Eu, em cima da hora, rui a corda. Não fui! Fiquei vendo fogos no Méier. Também não estou fazendo disso uma bandeira, mas é a minha personalidade. Não promovo diante de mim uma situação pra galgar de uma outra forma as coisas que tenho que fazer.
Rozana Lima  O Zeca Pagodinho é como você, né?
Moacyr Luz  Sou discípulo dele, pô!
Rozana  Ele não sai.
Moacyr Luz  Ele ficou tão antimídia que os marqueteiros conseguiram criar uma mídia em cima de sua antimídia, e isso já está começando a incomodá-lo, a constrangê-lo o fato de tomar cerveja num copo de geléia. Se ele não quiser mais tomar num copo de geléia, não vai poder. É um troço muito louco!
Max Eluard  Uma camisa de força.
Zé Luiz  Daqui a pouco vão criar copos de geléia Zeca Pagodinho. [risos]
Moacyr Luz  Exatamente.
Max Eluard  Aquilo deixa de ser um copo de geléia.
Moacyr Luz  Uma vez tive uma felicidade na minha vida – sempre recebi visitas em minha casa. Mas um dia fui pego de surpresa por um telefonema do Nei Barbosa. Ele sabe que às sextas-feiras, quando não trabalho, faço um botequinzinho em minha casa. Compro uns tira-gostos, invento umas coisas de cozinha. Gosto muito disso! Então, sempre vai alguém em casa, como Luiz Carlos da Vila, que admiro muito, um dos grandes compositores brasileiros. Vai a galera toda! E um dia me liga o Nei Barbosa: “Bicho, estou com o Zeca aqui na Barra e ele me perguntou se tem alguma coisa na sua casa hoje. Ele vai aí!” “Porra, pelo amor de Deus!” E o Zeca chegou lá em casa. Era uma sexta-feira. A mesa estava bonita pra burro! Estava eu, o Aldir e o Luiz Carlos, tomando uma cerveja a uma hora da tarde. E agora, nós três, fizemos um samba, hein! Na minha casa tem o prato nobre, que é um jiló com maxixe, quiabo, cheio de bacon e lingüicinha, que faço em uma travessinha. Esse é o meu prato nobre! Depois pode ter lagosta, mas a comida mesmo, o forte é o jiló. Aí chega o Zeca. Quando ele olhou para aquele prato de jiló, “Meu cumpade, troco qualquer camarão por um jiló desse!” [risos] Então, isso é bem da natureza dele. E o Aldir é a mesma coisa. Ele tem 16 mil livros em casa.
Tacioli  16 mil livros?
Moacyr Luz  Uma biblioteca com seguro. Olha um samba bem popular, meu véio! [intima o violão] Já cantei esse samba duas vezes em roda e ficou bom pra caramba, com todas pessoas cantando. [canta] “Meu pai me disse / que a tradição é lanterna / vem do ancestral e é moderna / e tudo que é modernoso / e aí é o meu coração que governa / na treva é a luz mais eterna / e tudo mais poderoso / E também me disse daquele jeito orgulhoso / que o samba é mais que formoso / que ninguém lhe passa a perna / É a marola que vira um mar furioso / Netuno misterioso / O tesouro na caverna / Meu pai me disse que a tradição é lanterna / vem do ancestral e é moderna / e tudo que é modernoso / e aí é o meu coração que governa / na treva é a luz mais eterna / e tudo mais poderoso / E também me disse daquele jeito orgulhoso / que o samba é mais que formoso / que ninguém lhe passa a perna / É a marola que vira um mar furioso / Netuno misterioso / O tesouro na caverna / A jura é para quem rezar / A reza é para quem jurar / A alma que fica é a do fundador / futuro é para quem lembrar / E é isso que o pai me ensinou / Acabou /Acabou meu pai / Acabou / Acabou, meu pai / Acabou / Acabou, meu pai / Acabou / Acabou, meu pai /Acabou” [aplausos]
Monteiro  Popular, mesmo!
Moacyr Luz  É! [risos]
Zé Luiz  Esse foi um dos que você me mostrou pelo telefone?
Moacyr Luz  Esse foi um.
Tacioli  E qual é o nome, Moacyr?
Moacyr Luz  “Cabô, meu pai”. De Moacyr Luz, Luiz Carlos da Vila e Aldir Blanc. Isso é samba para ser cantado com palma de mão. [canta a melodia, palmeando]

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