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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 12/23

Fiz uma música para o meu pai, mas não consegui cantá-la

Max Eluard  Uma coisa que estou percebendo é que você é muito sensível com a música.
Moacyr Luz  Puta que pariu!
Max Eluard  Há algum estudo ou um labor? Porque da maneira como você compõe, vê a música e sente as coisas, é tudo emoção.
Moacyr Luz  Estudei para tocar violão. Cheguei até a estudar na Pró-Arte, uma escola que tinha uma importância filha da puta. Até Toninho Horta passou por lá. Mas aí a gente volta àquela história do compositor. Nasci para ser compositor. Então, não tem jeito! As propostas, as soluções, as coisas que você vai enxergando… Vou falar uma coisa aqui que vai ficar meio “esse cara é maluco”, “ele está inventando!”. Rapaz, tem hora que olho para o violão e tenho até medo de pegá-lo, porque sei que vou fazer uma música. “Será que vou ter fôlego para fazer essa música? Aí fico refreado. A minha mulher é testemunha disso. Às vezes, estou em casa, dez, onze horas da noite, e me vem uma música na cabeça. Rapaz, chego a pedir “Ai, meu Deus, por que isso veio?!” [risos]
Max Eluard  “Tô cansado!”
Moacyr Luz  Porque não consigo mais dormir, bicho! Quero dormir! E aquilo vem, viro para um lado, viro para o outro. É inacreditável! Olha, depois quero pegar o violão para mostrar uma música nova que fiz.
Zé Luiz  Vou pegá-lo.
Moacyr Luz  Posso mostrar agora?
Tacioli  Claro!
Moacyr Luz  Essa música nasceu exatamente assim, há 15, 20 dias: eu estava muito triste dentro de casa, cansado dessa perna. Na hora em que peguei o violão, eu disse “Vou fazer uma música agora”. A música veio toda, bicho! Toda, toda, toda!! Fiquei nervoso – tenho um gravadorzinho que pego quando sinto que a música vem -, botei e a música saiu toda. [ri]
Seabra  É quase fisiológico!
Moacyr Luz  Eu havia estado três dias antes com o Ivor Lancellotti, que é um compositor brilhante. Conheço o Ivor desse período, 72, 73, 74, 75, da época em que eu morava e convivia com o Hélio. O Paulo Cesar Pinheiro ia diariamente encontrar com o Hélio, porque eles estavam produzindo o Claridade, famoso disco da Clara Nunes. Também o disco do João Nogueira, Vem que tem. E, às vezes, o Ivor aparecia para cantar umas coisas, coisas que a Clara gravou. E a uma certa hora, já tínhamos bebido o suficiente para falar tudo o que a gente queria [risos], e aí, “Mas não é possível! Pô, Ivor, nunca fizemos nada na vida!” Acabei a música e me veio de dá-la ao Ivor. Liguei para ele de manhã. “Ivor, fiz uma música pra você!” Cara, dois dias depois ele me deu a letra! Não consegui cantar a porra da música! Chorava pra burro! Aí, fui, fui, fui, três dias depois fiz uma música para o meu pai, mas não consegui cantá-la. Demorou quase um ano para eu poder cantá-la.
Max Eluard  Houve um momento em que você sacou isso, “Tenho que começar a lidar com essa sensibilidade”?
Moacyr Luz  Várias vezes, a minha vida inteira. Profissionalmente, quando fiz “Coração do agreste”, que é uma música que a Fafá de Belém gravou e que foi da novela Tieta, contrariando aqui meu amigo, acabou ganhando Prêmio Sharp de Melhor Música do Ano. Ali tive a consciência de que… Qual foi a pergunta que você fez? Eu esqueci.
Max Eluard  Se você percebeu em algum instante…
Moacyr Luz  Pois é, ali percebi que eu era um compositor, mesmo!
Tacioli  Mas existiu um momento em que a razão questionou essa sua sensibilidade, de você terminar uma música e achar que ela não está legal?
Moacyr Luz  Ah! Várias vezes. Tenho lá um baú com essas coisas. [risos]
Seabra  Você deixa ali mesmo?
Moacyr Luz  Deixo ali e não mexo mais.
Seabra  Não mexe?!
Moacyr Luz  Para não dizer “Eu não mexo mais!”, elas estão lá, sei lá, se um dia estou com uma outra consciência sobre isso. Mas não mexo mais! Não faço nada que não tenha terminado tudo.
Tacioli  Pelo que você disse, parece-me que tem muitas músicas desde a época que você começou a compor com o Aldir, não?
Moacyr Luz  Muita coisa!
Tacioli  Mas nem quando você está para gravar um disco novo, você chega a ouvir o que está no baú?
Moacyr Luz  Não, não! Não mexo nisso. Só se acontecer, em 20 anos, alguma coisa.
Seabra  Estão gravadas em fitas?
Moacyr Luz Gravadas em fitas. Não sei em que ordem e de que maneira elas estão. Tenho muita coisa. A Juliana Amaral está gravando um disco e vai gravar uma música minha [n.e. “Revela”, composta com Salgado Maranhão, e gravada em Águas daqui, de Juliana Amaral e recém-lançado pela Lua Discos]. Cadê o violão? O Zé foi pegar?
Tacioli  No caso da Juliana, você permitiu que ela mexesse em seu baú ou você apresentou algo que estava guardado?
Moacyr Luz  A Juliana foi um caso desses, mas com músicas que estão acabadas, já feitas. Não são músicas que eu vou… Ô, Zezão! [n.e. Zé Luiz entrega o violão]
Max Eluard  Ninguém tem acesso ao baú.
Moacyr Luz  Ele está falando as coisas que faço pela metade. Aí, não, ninguém mexe, não existe a música. Mas o baú me rendeu, de uma tacada só, essa música que a Juliana gravou. E vou fazer de tudo para o Mariozinho Rocha ouvi-la.
Zé Luiz  É bonita, hein!
Moacyr Luz  Espetacular, modéstia à parte. E no mesmo dia, uma música que fiz para o ECO-92… Eu e o Aldir fizemos uma música sobre tribos indígenas que foram dizimadas, e agora o Keko Brandão gravou.
Zé Luiz  O Keko Brandão e o Lula Barbosa cantando. Chama-se “Jungle Tears” (“Lágrimas da selva”). Permita-me [dirige-se ao Moacyr]. Essa música que a Juliana gravou dele, tranqüilamente estaria em uma trilha de novela em um outro momento do Brasil.
Moacyr Luz  Se um outro tivesse gravado isso…
Zé Luiz  É um clássico! É um bolero maravilhoso!
Moacyr Luz  Ouçam isto! Essa foi a música que eu fiz com o Ivor. [canta] “Só sei que nos meus planos / pensei muitos anos / pra gente seguir / e diz que eu vou levando / que aceitei os danos / eu sou mesmo assim / que a casa por enquanto / só cresceu em tamanho / e que pro meu espanto / já consigo dormir e dormir / e só dormir. / Não diz que eu ando louca / que até fechei a boca/ foi bom, emagreci / que solo em teu piano / grito que também sou feliz / e dei para compor / foi fácil pra mim / que fiz desse abandono / mil encontros sem fim / mas diz que ainda estou aqui / só diz que nos meus planos / pensei em muitos anos / pra gente seguir / e diz que eu vou levando / que aceitei os danos / eu sou mesmo assim / que a gente por enquanto / só cresceu em tamanho / e que pro meu espanto / já consigo dormir e dormir / só dormir / não diz que eu ando louca / que até fechei a boca / foi bom, emagreci / que solo em teu piano / grito que também sou feliz / e dei pra compor / foi fácil pra mim / e fiz dos meus encontros/ mil encontros sem fim / mas diz que ainda estou aqui.” Bacana, né? [aplausos] Rapaz, quando o Ivor me deu essa letra, eu fiquei… porra… linda, né? Mandei essa música para a Leila e para a Nana. Vamos ver, né?

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