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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 11/23

O Tom é um dos responsáveis por eu beber demais

Monteiro  O fato de você ter cruzado com o Hélio aos 15 anos de idade e ter começado com música naquele momento, deu uma guinada em sua vida. Música, além de pagar as contas, serve para quê? Você acredita na música como instrumento de mudança?
Moacyr Luz  Olha, eu não tenho muito essas filosofias com música, não! O disco Na galeria fiz todo – tenho uma mesinha de botequim lá em casa, de mármore, e em frente tem um jardinzinho e uma portinha de ferro -, a música foi acontecendo por ali. Eu tinha escolhido várias músicas e eu as deixava soltas. Outra coisa: tem músicas que escuto, e se eu fechar o olho, a minha pele chega a esticar como se eu tivesse voltando no tempo. Sinto o cheiro da namorada, sinto o cheiro de um bolo que comi, da rua que passei. A pele chega a doer. “Caramba, olha aquela música!” Aprendi isso com o Hélio. Uma vez ele falou assim comigo: “Não tente copiar a frase do guitarrista, não!” Antigamente se fazia rotação 16. Pegava o LP e diminuía a rotação do toca-disco. “Não tente fazer isso. Admire o que o cara está fazendo. Você vai compreender com tanta diferença, com tanta sutileza, que isso vai entrar em seu ouvido naturalmente e você vai ter essa frase.” Então, tem músicas que eu fico admirado, e fico naquilo… Uma vez vi o Tom Jobim em um posto de gasolina, na praia. Fui falar com ele . Ele me deu uma atenção maravilhosa. O Tom é um dos responsáveis por eu beber demais. Eu bebo pra burro! E eu aprendi isso muito com ele. O Tom bebia muito e isso não impedia dele compor as coisas. Uma vez a gente recebeu uma homenagem da Prefeitura. Dezesseis compositores que fizeram músicas em homenagem ao Rio de Janeiro. Aí fomos almoçar na Prefeitura. Entre as pessoas que estavam lá, destaco o João Nogueira, o Tom Jobim, o Braguinha. Foi muito bonito! O Tom ele é a coisa, é a música que faz você se apaixonar. Um cara que fez uma coisa elaborada como “Trem para Codisburgo” [n.e.Composição de 1973], uma coisa brilhante! Está no disco Urubu. É brilhante! Ele faz, eu adoro. A Elis e a Elizeth gravaram, mas elas mudam a nota, uma canta diferente da outra. Mudam aquela nota [canta] “Não pode mais meu coração / Viver assim dilacerado (…)”. Não é esse trecho, não! É uma palavra igual a autonomia, né? Quero registrar: eu, atualmente, estou apaixonado pela música “Obrigado”, do Gudin, que vocês entrevistaram. É uma música de passar mal. Liguei pra ele, eu chorava tanto de emoção. Liguei de manhã, acordei-o. “Bicho, não estou me agüentando com essa música”. É uma música que fala de amor, e os dois agradecem pelo tempo junto que viveram. É maravilhoso!

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