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Entrevistas de música brasileira

Moacyr Luz

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Moacyr Luz

parte 9/23

O cara no 1º disco já ganhou mais que o Tom Jobim em 30 anos!

Tacioli  Moacyr, de que forma esse mecanismo, essa estrutura em torno da música interfere na hora de compor, ainda mais para você, que não rumina uma composição, você não a deixa na gaveta, ela já nasce pronta?
Moacyr Luz  Olha, o constrangimento por viver numa situação em que teria que mexer com esse eixo para poder… não!
Tacioli – Mas você nunca se deparou com uma situação dessa?
Moacyr Luz  Várias vezes. Existiram situações em que eu estava vinculado a editora e recebia uma lista. O editor falava “Bicho, faz esse negócio aí que a gente consegue! Faz uma força, vê se entra, e melhora aí os teus direitos!” Olho para aquilo… Da última vez, há dois anos, eu disse assim, “Me faça um favor. Não me mande mais esses pedidos! São horrorosos!”
Zé Luiz  Tipo?
Moacyr Luz  Ah! Não posso dizer nomes! [risos] Coisa horrorosa! Você constata assim: período de dupla. Duplas e nomes, não sei de onde eles tiram aquilo. Combinação de letras, palavras, nomes, todos são irmãos! Agora é a fase dos irmãos gêmeos! A mãe já começa a se preparar para ter um… [risos] Porra, é um negócio muito louco! A decisão de cultura hoje está muito diferente. Não tem aquela coisa do caminho árduo, não! A família investe. O pai larga até o trabalho para ser empresário do filho. Isso é uma coisa inimaginável. É evidente que você tem que viver com dignidade do que você trabalha. Se eu sou compositor, faço músicas, faço shows, eu tenho que ganhar dinheiro, né? Agora, essa sangria, essa falta de amadurecimento que o dinheiro acaba acarretando. O cara no primeiro disco já ganhou mais dinheiro que Tom Jobim em 30 anos de trabalho. Alguma coisa não está certa! O futebol passa por isso.
Seabra  Voltando aquele papo que tivemos antes de começar a entrevista, se existissem mais espaços…
Moacyr Luz  Se o Brasil oferecesse mais espaços, tivesse preparado para a nova educação que está surgindo… A gente acabou não gravando isso. Valeria a pena conversarmos um pouco sobre isso. Estávamos discutindo que o Brasil, na hora em que consegue ter um pouco mais de educação, em que consegue dar um pouco mais de oportunidade para as pessoas realizarem um trabalho ou um projeto, o país não segura, não comporta. Estou falando para registrar, porque sinto muito isso. Não se tem espaço no Brasil! Tenho melancolias profundas, uma coisa de pedir a Deus para evitar isso dentro de mim. Assistindo aqueles documentários, vejo um sujeito na região do Norte tocando um violão, cheio de esperanças. Aquele cara não pode ter menos esperanças do que eu. Ele não pode ter o direito de ter menos esperanças do que eu. Mas fico imaginando a distância que ele está de tudo, de ser ouvido. Um cara com 20 anos de idade, a mão direita, os acordes, mas ele está no Norte. E ainda mais, sedimentado com essa formação nova, com esse conceito do negro entender que é negro, do branco entender que é branco, de opções de sexo, de tudo. O cara inclui isso em sua obra. Ele está ali no Maranhão, não tem inveja da música que é feita no eixo Rio-São Paulo. Ele inclui as raízes verdadeiras de sua região, põe para pesar mais sua obra, mas ele está lá, numa cidade do interior do Maranhão. Com que esperança? É uma loucura, bicho!
Tacioli  Entrevistamos ontem o Cordel do Fogo Encantado, de Pernambuco.
Moacyr Luz  Conheço. Vi uma entrevista do garoto [n.e. O vocalista Lirinha]. Achei interessante, bem articulado, com palavras bonitas.
Tacioli  E que impressão você teve?
Moacyr Luz  A impressão? Essa melancolia, desculpe-me. Apesar que eles estão em São Paulo. Ele explicando o cordel com entusiasmo, explicando por que virou cordel, o tipo das palavras. Acho brilhante, mas sinto essa melancolia.
Tacioli  Mas você entende que esse fascínio, essa paixão que essas figuras têm…
Moacyr Luz  Tem um valor?
Tacioli  Não, é importante até para superar essa melancolia.
Moacyr Luz  Pô, é fundamental!
Seabra  Mas o Cordel é uma exceção.
Tacioli  É uma exceção? Talvez Pernambuco tenha quebrado momentaneamente a hegemonia musical do eixo Rio-São Paulo.
Moacyr Luz  Quebrou muito com o Chico Science.
Tacioli  Com o Chico Science e com todo o Mangue Beat. Enfim, os holofotes se voltaram para o que se produzia naqueles lados.
Moacyr Luz  É verdade. É verdade, mesmo!

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