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Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 7/19

Quero a capacidade de não fazer nada!

Dafne Sampaio – Quando você fez “Música serve pra isso” você acreditava que a tecnologia poderia dar paz de espírito?
Pereira – Não, essa música eu fiz sem usar o cérebro. Eu tinha um método de compor e depois nunca mais consegui fazer. Foi uma época em que o Mulheres ganhou uma grana, eu tinha tempo para compor. Fiquei dois meses, todo o dia, virava para o pôr do sol e cantava todos os lugares-comuns que eu conseguia. E depois cortava e misturava. Não sei bem o que eu quis dizer, mas ouvindo a música digo “porra! O avião foi inventado, a tecnologia, as telecomunicações, então tratem de servir ao fim a que vocês foram criados, seus bostas! Vocês não mandam na gente!” O avião serve para quê? Tô com tesão numa mulher que mora em Pequim. Ele serve para eu ir para lá, comê-la e ser feliz para sempre. O cara está com câncer e precisa saber o nome do remédio que vai salvá-lo. Ele pega um telefone celular e pergunta para o médico da Groenlândia: “Qual é?” É isso. Ou bem a coisa cumpre a sua função, ou pô, tudo vai dar câncer na gente, cara! Num certo sentido, tô ficando um burro velho, estou cansado de punheta. O que é punheta? É o avião pelo avião, é a música pela música, o celular pelo celular. Jogo da seleção brasileira: eu francamente torci para o Brasil ganhar da Venezuela, mas me deu vontade de chorar. Puta, vi o Ademir da Guia, o Pelé, o Rivelino. Sou do tempo do 4-2-4, que os pontas eram abertos, seu time perdia de 4 a 0 mas você ia para casa com tesão, “Porra, o Corinthians tomou de quatro, mas foi o Pelé que fez os quatro gols”.
Monteiro – Aqueles jogos de 7 a 5, 6 a 3.
Pereira – Mais do que isso, permitia-se a derrota, permitia-se o erro, permitia-se a humanidade, não eram onze cyborgs correndo. Eram seres humanos. Estou um pouco de saco cheio das coisas serem mais importantes que a gente. A década de 90 exacerbou isso, cara! Tô de saco cheio, então vou fazer um disco reclamando disso. Quero o ser humano de volta. Quero a capacidade de não fazer nada! Tô batalhando para isso na minha vida. Não tenho certeza do que estou falando, mas quero, durante uma tarde – se eu não tiver culpa disso aí, porque tenho filho para sustentar e eles não têm culpa do que penso e do que faço -, o máximo de preguiça que eu me der o direito de ter, o máximo de tempo que eu me der o direito de gastar. Vamos ver!

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