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Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 6/19

Não separo compor música de cagar!

Monteiro – Existe uma pesquisa de som antes das regravações que você faz? Na hora de compor o seu material, essas músicas vão ao encontro dessas necessidades pessoais?
Pereira – Senti isso no Fanzine e cantando no Supremo só música dos outros. Se viajar, pirar, você não precisa mais compor. É melhor pesquisar e cantar coisas que já estão feitas, que vão dizer o que você quer e muito melhor do que você iria conseguir. E cantando clássicos. Sei que não vou fazer um clássico. Hoje não tem mais isso, de você fazer uma música que se torne imortal e encerre o assunto. Mas quando Roberto Carlos fez “Detalhes”, rolou. Quando Noel Rosa fez “Feitio de Oração”, rolou. Quando Cassiano fez “A lua e eu”, rolou.
Max Eluard – Mas é questão do momento? Não se tem mais condições para se produzir um clássico?
Pereira – É uma questão da história. Como eu estava falando, hoje todo mundo é artista. Talvez isso seja o caminho para ninguém mais precisar ser artista. Então, hoje não tem mais clássico. Clássico é uma coisa que aglutina uma população em torno de uma música, que é comum para todo mundo. Mas o mundo está super fragmentado, né?! Até o Narciso, o ego da gente tem que ser mais humilde. Puta, como é que eu falo… se o mundo antigamente era uma pequena cidade do interior, e cada pessoa era uma pessoa com o seu nome, hoje a gente é uma Praça da Sé gigante, cada um por si, Deus por todos. Daqui a pouco vamos estar fazendo a música para nós mesmos. É da história. Querer clássicos da música popular é nostalgia. Quando eu era pequeno tinha. Tenho essa nostalgia. Quem nasce agora acho que nem tem isso. “Satisfaction”, “Help”, “Cocaine”, não vai existir mais isso.
Ricardo Tacioli – Você consegue pontuar quando essa produção de clássicos terminou?
Pereira – De clássicos? A história foi a matando aos poucos. Quanto mais você massifica a produção de arte, mais desmistifica. E desmistifica no sentido de tirar a mística, tirar o sagrado, tirar o mistério. A luta agora é a gente encontrar o tal do sagrado. Para mim isso é vital. E como é que vai achar o sagrado? No seu umbigo, no seu caminho para a padaria, nas pequenas músicas que você faz, que você escuta e só uns dez conhecem. É isso! Tem que achar o sagrado no quarteirão. Antigamente era para o mundo. Antigamente tinha o Jimi Hendrix, um herói mundial morto. Agora, meu, se eu morrer aqui são dez pessoas que me conhecem, e quem vai me chorar são minhas negas. É ruim para o ego pra caralho! Fui criado vendo ídolos. Não vejo ídolo agora não! O Andy Warhol falou em 15 minutos de fama, né?! Puta, não tem mais nem 15, cara, não dão 3 minutos.
Max Eluard – Agora são 15 frames.
Pereira – É. Para o meu ego eu gostaria de ser um ídolo mundial. Maravilhoso! [risos] Mas a marcha da história é inapelável, pau no cu, vamos nós. Ninguém mais manda nada.
Tacioli – Maurício, você falou que na história da música popular brasileira existem clássicos que retratariam o mundo de hoje. Que clássicos são esses? Um Assis Valente?
Pereira – Tem de todos os tipos. O que é “Entre tapas e beijos” senão a dialética. Não é a dialética?! A dialética ao alcance do povo. “Entre tapas e beijos”, pô!, Leandro & Leonardo. “Pense em mim”, Leandro & Leonardo, é um clássico. “Detalhes” é um clássico! Um clássico da relação humana. De você romper uma relação afetiva forte e ficar o frangalho em ambas as pessoas, por mais que o corpo e a mente digam que não. Cara, isso é Shakespeare, é Homero, é o caralho!
Max Eluard – Isso resume a existência humana.
Pereira – Pô, total! “Construção” [n.e. Faixa-título do álbum lançado em 1971], de Chico Buarque, que é o inapelável da matéria, você trabalha para viver, ganhar o seu. É a vida sem espírito. Eu lembro porque ouvia muito essa música, tinha uns 10, 12 anos e fiquei chapado, não entendia nada.
Max Eluard – É perturbador.
Pereira – É perturbador. Mas tem um monte de coisas. “Yellow submarine”. Pô, os caras vivendo no fundo do mar, todo mundo se dando bem, passeando no submarino amarelo. Não é o que todo mundo quer? Tenho preguiça de trabalhar. Se eu ganhasse na loto não ia mais fazer disco, tenham certeza. Não porque não goste de música, adoro música. Eu ia coçar o saco!
Max Eluard – Não ia fazer mais música?
Pereira – Talvez fizesse, mas…
Daniel Almeida – Mas você ia querer ter a necessidade de produzir.
Pereira – Não! Que produzir! Nada!
Max Eluard – Se expressar, produzir!
Pereira – Não, fazer nada é se expressar.
Almeida – Falar da vendinha.
Pereira – Não, aí eu ia na vendinha. [risos]
Max Eluard – Você fala da vendinha para suprir essa necessidade de ir à vendinha?
Pereira – Não sei por que falo da vendinha [risos gerais]. Talvez se eu ganhasse na loto eu simplesmente não enchesse o saco. Talvez se todo mundo ganhasse na loto ninguém precisasse encher o saco fazendo obras de arte. Não sei, às vezes me dá essa sensação. Estou falando sem saber, mas de algum jeito a gente sempre se expressa. Namorando, tendo filho, cagando, vendo jogo de futebol, indo na vendinha, compondo músicas. Não separo compor música de cagar. Lembro-me de uma noite em que compus duas músicas, uma delas foi “Dia útil”. Fiz duas, três em meia hora, isso há uns cinco, seis anos. O cheiro do meu corpo depois que fiz essas músicas era muito ruim, tinha toxina pra caralho no meu suor. Precisei tomar um banho. E como outras coisas fisiológicas. Pra mim, compor é assim. Para outro cara, pregar um botão pode ser assim. Para outro, ir ao jogo do Palmeiras e dar porrada é assim. Para outro, fazer amor é assim. Para outro ainda, comer uma bracciola gostosa é assim. Ou para outro cara, sofrer é assim.
Max Eluard – Então, mesmo se você ganhar na loto você não vai conseguir parar de fazer música.
Pereira – Não sei, não sei. [risos] Mas aí só vou fazer a cada 10 anos. Gozado, em 2000 eu vim assistir a um show do Zé Geraldo aqui no SESC Pompeia. Ele havia dado uma canja no meu show no segundo semestre. E eu nunca tinha visto um show dele, conhecia algumas músicas e tal. Show lotado, um público diferente do que eu tenho acompanhado por aí, um público que não era da moda, que não era da Folha de São Paulo. Porra, as músicas eram sobre preguiça. Pô, vou dar uma bola, vou ficar com a minha mulher no mato, não quero trabalhar hoje, quero vagabundear. Por que não se fala mais nisso? Por que em todas as músicas atuais todo mundo quer fazer alguma coisa?! Meu, nós precisamos aprender a fazer uma coisa por dia. Sou muito cismado com o tempo. Aqui em São Paulo a gente tem um carro. Com um carro você faz 20 coisas por dia. Tenho andado cada vez menos de carro. Roubaram o meu, então fiquei duas semanas andando a pé. Fazia duas coisas por dia, mas acho que a minha relação com o mundo era mais intensa. Eu tinha que andar a pé. Noção de distância. Meu avô era caixeiro-viajante, viajava no interior. Quando ele perdia um trem, ia a pé para outra cidade. Andava 10, 12 quilômetros num dia a pé. Pô, 12 quilômetros é da Paulista à Penha, cara! Estamos iludidos, nós perdemos a noção de tempo e espaço. Eu fiz “Música serve pra isso” há 12 anos [canta] “microondas, avião, cumpra a sua função, calme um coração que sangra”. Na época eu não sabia por que havia feito aquilo. Hoje olho para o mundo que a gente vive, um mundo de CD, internet, avião, vôos internacionais baratos. A gente está fora do mundo! Chega a ser uma doença você sentar num lugar e em três horas estar em Maceió. Dá uma noção de poder que a gente não tem. E a gente tem o mesmo número de neurônios do tempo das cavernas. Temos as emoções semelhantes à da caverna. Eu não sei…

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