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Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 5/19

Publicamente não posso me permitir ser pessimista

Monteiro – Você participou da remasterização dos CDs dos Mulheres…
Pereira – Mas só ouvi as masters. Não parei para ouvi-los em casa num som normal.
Monteiro – Nos discos dos Mulheres, você diz “Pô, isso poderia ser feito hoje que ainda seria moderno”. Você tem essa consciência de que naquela época vocês estavam fazendo algo que era diferenciado para o mercado?
Pereira – Não tinha muito isso, porque fazíamos numa ignorância muito forte que a liberdade dava. Agora, ouvindo o disco com o André na masterização, e até ouvindo antes de masterizar, fiquei pensando “porra, a gente fez muita coisa que só aconteceu 10 anos depois”. Primeiro: misturar eletrônica com sons primitivos. Segundo: misturar coisas do folclore, coisas mais naïfs com essa estética urbana de metafísica, de filosofia. Fizemos isso aí. Misturar formas de música de um jeito desvairado. E destruir, quebrar os timbres dos instrumentos, nós também fizemos. São coisas que, especialmente no Brasil, foram acontecer nos anos 90. Por outro lado, ouvindo os dois discos, o primeiro é um disco que soa mais da época. Tem reverbe, bateria eletrônica; é um disco em que a gente era mais inexperiente, a produção foi do Peninha Schmidt e do Paulo Calazans, que estavam na gravadora grande, produziam MPB e a gente estava aprendendo ali. Assim, o disco tem umas quebras, mas é um álbum que soa como um dos anos 80: bumbo, caixa e reverbe. Já o segundo, que é uma produção da gente, oMúsica serve pra isso, ouvindo na masterização, está intacto. Não tem reverbe! É um disco de 89 quase sem reverbe. Tem uma certa sujeira de timbre, tem uma certa doença emocional. Timbramos muito bem o álbum. Está bem feito, bem tocado.. é um disco legal. Muita gente acha ele menos caótico que o Ciência…
Max Eluard – Como assim “uma certa doença emocional”? O que é isso?
Pereira – Doença emocional… Quando vejo uma obra de arte, ela tem que ter algo politicamente incorreto, tem que ter a coisa selvagem, tem que ter a tristeza, a doença, a alegria, o exagero, a estupidez. E esse segundo disco tem. O primeiro é mais um circo, também tem, mas nesse segundo é mais intensa. Eu e o André estávamos em crise. Foi um disco que acabou ficando um pouco na minha mão. Não foi sofrido, mas não teve um clima como o do primeiro, que foi mais deslumbrado. Porém a amarração sonora do Música serve pra isso é fuderosa.
Max Eluard – Você disse que os dois primeiros discos dos Mulheres saíram com muita liberdade e que no Na tradição você estava tentando achar de novo uma liberdade, sentia-se meio preso. Essa liberdade você encontrou no Mergulhar. E para o próximo disco, você está mais livre ou mais preso?
Pereira – Não sei. O problema dos Mulheres, que encheu o saco da gente, era a obrigação de ser gozado ou ser maluco. Se você pegar Música serve pra isso já é mais poético, mais lírico. Então quebrei isso no Na tradição, mas eu estava escravo de ter que quebrar minha imagem de Mulheres Negras. Como de certo modo noMergulhar paguei meu carma, fiz um disco como eu queria, vendesse ou não, foda-se! Toquei com meu amigo, soou como eu quis, não tomei preju. Quando acabei oMergulhar falei “Não tenho pressa nenhuma de fazer disco”. E o próximo álbum sairia dos shows que fiz no Supremo, mas o projeto está congelado porque deu problema na edição e produção. Pode ser que saia no futuro, mas o meu sonho era ter feito esse disco ao vivo de crooner, um disco de festa, um disco bocó no bom sentido. Aí fui na Lua e o Zé Luiz falou: “Com essa crise, estamos com os estúdios sobrando aqui. Se você vier em janeiro, fevereiro você tem estúdio. Faz um disco seu, autoral”. “Ih! rapaz, não tenho repertório”, fiquei nervoso, meio pressionado. Fui para casa e a histeria me fez compor. Então, não sei o caráter desse disco novo. Acho que vai ser livre. Não sei, não sei se o mundo está acabando. Tô com medo, sou um cara medroso. Coisas que eu fantasiava quando era adolescente estão acontecendo. Por exemplo: vi aqueles aviões batendo na torre, eu achava que aquilo ia acontecer. Quando vi, na hora, é óbvio. Só que a partir dali – pô! sou um cara fantasioso -, na minha cabeça já vieram um milhão de hipóteses. Sou um latino-americano que tem uma visão dos Estados Unidos pela maneira como eles lidam com a economia e a política internacionais. Então, não sei. Francamente é um disco influenciado pela queda das torres. Quando mulá Omar, amigo de Osama Bin Laden, fala que vão destruir os Estados Unidos… Não tem mais volta! Os Estados Unidos estão perdendo dinheiro. Eles não perdem sangue, eles perdem dinheiro. Já estão sangrando muito. E com eles a cultura pop, de algum modo. E com eles o Terceiro Mundo, que é capacho deles. E dentro do Brasil, o que tem de mais americano? É São Paulo! E dentro de São Paulo, o que tem mais de americano? A classe média! E onde eu vivo? Classe média, de São Paulo, no Brasil. [risos gerais]
Max Eluard – Eles estão de olho em você!
Pereira – Então, num certo sentido, esse disco expressa o fim de um sonho. É como se eu dissesse “Pô! não dá mais para eu ser americano, para eu me desinfluenciar do rock and roll”. Preciso me virar para as minhas coisas, o meu bairro, a minha cidade. Só que não tem São Paulo! Meu, nesse disco estou buscando desesperadamente ser paulistano. Falo no meu bairro, nas ruas que ando para comprar palheta de saxofone.
Max Eluard – Mas é pessimista ou desiludido?
Pereira – Não é pessimista e não é desiludido. Posso até ser meio descrente, mas publicamente não posso me permitir ser pessimista, acho que é fugir do pau, é entregar os pontos. É como diz a letra do Paulinho da Viola, “Faça como o velho marinheiro, que durante o nevoeiro, toca o barco devagar”. É que nem respiração circular de saxofone, que você faz a nota se prolongar. Não é o pulmão, você não está respirando, é a mecânica da boca que faz o ar ir para o instrumento. Não é o ar que você usa para ficar vivo. É um pouco isso. Vamos dizer que eu esteja semimorto ou descrente, mas tenho que usar as partes do meu corpo, da minha ideologia ou da minha mente que acreditam em liberdade, libertação, beleza. Ao mesmo tempo vou ter que falar do medo, da destruição.
Max Eluard – Qualquer pessoa normal só pode fazer uma análise pessimista do mundo, mas o otimismo tem que vir…
Pereira – É. Mas sou de escorpião e esse é um signo que lida com a destruição o tempo todo… Vi aquele prédio caindo, meu! O mundo mudou, o mundo está mudando. A estrutura de poder entrou em xeque. Pô! Tenho 42 anos e em 42 anos nunca a estrutura de poder entrou em xeque desta maneira, mesmo para os americanos, mesmo para o George Bush. Por outro lado, a gente está vivendo um momento que pode ser que a gente morra de antraz semana que vem, mas o momento para a humanidade é muito lindo, cara! É um momento de transformação, não tem volta. Nós vimos a história! Antes eu não tinha visto. Não foi a ditadura, talvez a 2a. Guerra Mundial, sei lá, ali rolou história. O mundo não é mais igual.
Max Eluard – E qual o lugar da música nessa mudança?
Pereira – Não sei. Em momentos de guerra, pânico, transformação, da gente perder o controle do que está acontecendo, de não sabermos bem para onde o barco está indo, são momentos que não tem lugar para muita punheta não! É o que eu digo, sou de escorpião, latino, mediterrâneo, paulistano sangue quente, que é uma característica desta cidade, a poesia tem que ser visceral. Na música é isso. No mercado não sei o que vai acontecer, mas como ouvinte, quero ouvir coisas viscerais. Por isso ando ouvindo hip hop. Não é tudo que gosto não, mas quero ouvir coisas sinceras, só que caindo máscaras, porra! Não dá para ouvir coisas fingidas! Tanto no texto, quanto na produção. Não por acaso a gente tem ouvido tanto disco sem reverbe nenhum nos últimos anos. Cada vez tem menos maquiagem, cada vez tem menos roupa de artista e roupa de rua. Talvez seja isso, talvez seja uma época de franqueza. Tomara!

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