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Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 4/19

Artista tem o ego exacerbado. É doença profissional!

Monteiro – Eu estava num show da Ná Ozzetti [n.e. Show, homônimo ao disco lançado pela Som Livre em 2001, com repertório centrado em sambas-canções clássicos] em que ela cantava aquelas músicas extremamente poéticas que dão vontade de chorar. Mas essas canções foram feitas na década de 40, quando você não tinha uma indústria esperta como se tem hoje, que saca todos os detalhes para se fazer um artista. Esse amadurecimento do mainstream acabou influenciando na formação desse tipo de artista que hoje não dá tanta atenção para a arte como sagrada?
Pereira – Olha, não sei, deixa eu pensar…
Monteiro – Porque quando você pega a molecada que está começando a fazer música, isso torna-se uma chance de ascensão social.
Pereira – Isso tem a ver.
Monteiro – E aí, “opa! vou ter casa própria agora”. Não existia essa perspectiva.
Pereira – No duro?! É com meia dúzia de pessoas a cada dez anos que isso acontece. O sonho existe! É menos do que isso. As pessoas vêem você ter uma banda ou fazer uma música, tocar um instrumento… Parece que isso tem mais a ver com o Narciso de cada um do que com aquilo que falei de você ser cavalo de energias que já estão aí, fazer o coletivo. Isso é da época! E quem sabe se essa postura de todo mundo querer ser artista já não é o começo de não precisar mais de artista? Não sei dizer, não sei dizer. Pode até ser que tenha o tal sagrado por aí e eu não enxergue no pop. Mas, realmente, não enxergo não.
Max Eluard – Agora há pouco você comentou sobre a vaidade, que a vontade de ser artista nunca vai com a vontade de cada um. Acho que é meio inevitável a partir do momento em que você passa a ser uma pessoa pública. E mesmo o processo de criação tem muito de você ali, do que você é, do que você acredita. Como é lidar com a vaidade? Qual é o lugar dela?
Pereira – Para mim é contraditório porque sou um sujeito meio tímido e virei artista sem querer aos 25 anos. No começo eu achava que não tinha vaidade. Quando estava no Mulheres Negras, que caí de pára-quedas, falei, “não, não tenho, já estou com uma roupa aqui que esconde a minha cara”. Na rua não me conheciam direito. Mas tem, cara! O ego sobe! Por exemplo: os sapateiros tinham uma doença profissional chamada saturnismo provocada por eles ficarem com a tachinha de chumbo na boca. Toda profissão tem uma doença profissional. Um tem calo, fica com a mão grande, outro tem o pulmão … Artista tem o ego exacerbado, é doença profissional. Pô, em casa com os meus filhos eu já tenho mais ego, é doença! No meu caso tem dois lados: essa coisa de vaidade, de ego, essa veadagem toda me irrita muito; por outro lado existe, eu tenho e tem que ter porque do jeito que o mundo é não basta você fazer obra de arte, você tem que se comportar como artista. Por quê? Você tem que se defender da gravadora e se defender do público. Se você não impuser respeito, mesmo que seja com a máscara, você está fodido, basicamente. Isso estou aprendendo. Para um cara tímido isso não é fácil, tento diminuir minha barreira com o público, com a imprensa, com gravadora. Muitos caras me dão umas porradas por conta disso. Muitos caras se arrogam para cima de mim. Tudo bem, sou zen nesse sentido. Mas entendo que, de vez em quando, você precisa chegar pisando duro, bater o pau na mesa, chegar com muita pose, senão não levam você a sério. Então, não vou mais falar mal do mundo, não vou falar que o mundo é ruim, feio. Falarei que o mundo é maluco, divertido e interessante. Temos que dançar um pouco conforme a música. Por isso, quando falei que não registro os meus shows, por um lado estou sendo burro mesmo. Do mesmo jeito que se eu quiser falar para vocês que não basta ser poeta e fazer a música e foda-se o resto, não tem isso, cara, tenho que saber dar entrevista, tenho que saber usar uma roupa. Até para eu estar de jeans e camiseta como aquilo na capa do disco, gastei 30 segundos. Já que não gastei seis dias, gastei 30 segundos. Temos que lidar com a matéria, não é só… o cavalo tem que ir bem vestido para o terreiro.
Max Eluard – Pentear a crina. [risos]
Pereira – É, tem que pentear a crina. É isso aí.

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