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Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 3/19

Arte sem sagrado é punheta!

Monteiro – Pelo que a gente percebe, a música te alimenta. Compor é uma necessidade?
Pereira – Me alimenta e me sufoca, porque se eu fosse dono de um boteco em Pindorama eu também estaria bem.
Monteiro – Música serve para quê, afinal? Você acredita em música como instrumento de mudança da sociedade, já que agora estávamos falando de hip hop e esse pessoal escreve muito nessa linha combativa.
Pereira – Quando comecei a ouvir música… bom, quando comecei eu era bem pequeno. Nasci em 59 e nos anos 60 eu ouvia muita música na televisão. Festivais da Record, O Fino da Bossa, Jovem Guarda. E quando eu tinha 8, 9 anos, Tropicalismo. Tinha aquele programa na Tupi, Divino Maravilhoso [n.e. Programa de televisão apresentado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, dirigido por Fernando Faro e Antonio Abujamra]. Então música para mim era do rádio e da TV, eu não comprava disco. E a música da segunda metade dos anos 60 tinha esse caráter de mudar o mundo, mesmo a Jovem Guarda, jovens, Tropicalismo, virou tudo de cabeça para baixo. Tinha o Geraldo Vandré, os festivais, Beatles, Stones. Assim, a minha coisa infantil com a música é que ela vai mudar mundo. A música é um instrumento de transformação de costumes. Nos anos 70 ouvi muita MPB e jazz. Não foi uma época em que ouvi rock and roll e pop. MPB quer dizer Caetano, Gil, Chico, Milton. Tinha a ditadura. Depositava-se uma esperança nos músicos, parecia que eles iriam salvar o mundo, não por acaso censuravam tanto os caras. A gente depositava uma esperança nesses compositores populares que no fim eram quem analisava o País em termos que dava para a gente entender. Então, puxa, vou dizer que por 20 anos da minha vida a música na minha cabeça foi um troço transformador mesmo! Nos anos 80 não sei mais o que pensei. Fiquei profissional aos 25 anos; antes eu não era músico, foi meio sem querer. Eu era um ouvinte atento e acho que já na primeira metade dos 80 não tinha mais essa coisa que a música ia transformar o mundo, os costumes e a política. A ditadura meio que acabou, a música ficou um troço muito comercial com FMs de montão e trilhas de novela… Quando fiquei músico no Mulheres, a coisa minha e do André era o ímpeto selvagem de fazer música de qualquer jeito, com poesia junto. Gozado, nunca parei para analisar isso. Nos anos 90 para mim é a tristeza, não tem mais isso de salvar o mundo e isso me dói. Isso de ter milhões de CDs hoje em dia tem dois lados: um é legal, democratiza a arte, mas a música perdeu o sagrado. E eu busco isso! No Mergulhar é muito clara essa busca. Tem muita arte sendo produzida no mundo. E mais gente fazendo arte do que gente consumindo arte no mundo hoje. Tem computadores, tinta barata, instrumento barato, tudo é barato. Todo mundo tem linguagem, tecnologia. Se você ficar na sua casa mijando em pé e puser uma câmera, aquilo é arte de algum modo! Mas não me conformo com essa perda do sagrado. Pra mim, arte sem sagrado é punheta! Então é muito difícil hoje eu querer ver obra de arte. E onde tem o sagrado? Na rua, na rua!!
Max Eluard – Como foi perdido esse sagrado? Você vê uma ruptura, um momento ou um evento?
Pereira – Os anos 90 foram cruéis, porque foram os anos das aparências, de você parecer artista, de você fazer uma coisa que parece música, de você parecer bad boy, de você parecer guerrilheiro, de você parecer transformador. Foi a década da roupa, cara! E não do coração! Foi a época do olho, do olhar a coisa e pensar que é, de pensar que a aparência é que é. Os anos 90 foram a era da publicidade.
[segurança do SESC Pompeia interrompe mais uma vez]
Pereira – A gente pode só terminar isso aqui?

[em novo lugar, nas mesas externas da lanchonete]

Pereira –
 Estávamos falando das aparências, não?! O sagrado da música dançou um pouco aí, porque ficou tão fácil ter música, de fazer e consumir que a gente perdeu um pouco… Sempre penso que há dois lados: não acho que é legal esse papel do artista endeusado num monte Olimpo, não está certo! Mas a música, toda a forma de arte, a obra de arte tem que expressar essa divindade, o sagrado, e não obrigatoriamente o artista. O artista tem que ser meio cavalo, que nem quando vai no terreiro, você faz o serviço e tchau. Até porque tem uma cisma de que uma sociedade podre é que precisa de artista. Porque se a sociedade for linda, legal, resolvida que nem o Paraíso antes da cobra, você não precisa do artista para ver a arte. O artista é uma muleta, e a arte que você paga para ter, você paga para ter uma visão do mundo, da beleza ou das questões, da inquietude. Deduz que essa arte é poluição. É como se eu dissesse: quando o mundo for perfeito não vai mais precisar de artista e tudo será obra de arte. Quando saio a pé da minha casa, para dar uma volta ali na Vila Ipojuca, um cocô de cachorro, um velhinho fazendo a barba, as pessoas atravessando a rua, isso é arte!! Mas quando o mundo for assim não será mais preciso a minha profissão; vou poder ter o meu boteco em Pindorama e tudo mais.
Max Eluard – Então o seu papel é tirar da frente das pessoas esse monte de sujeira e feldade para poder ver o velhinho fazendo a barba?
Pereira – Ou então até ver a sujeira e falar que é sagrado também! A feiura também é sagrada! Ou você encara cada segundo como um filme, como um disco, como uma peça, um poema. É isso que digo, se você entender cada segundo da sua vida como a prática da arte – acho que budistas pensam assim – você não precisa de artista. Quem é o artista? Um cara que você paga para fazer algo que você pode fazer. Pô! É meio estúpido isso que vou dizer, mas artistas são o sinal de uma sociedade doente. Por outro lado, como o mundo nunca vai deixar de ser doente, acho melhor a gente fazer vistas grossas e se entregar às grandes obras de arte que tantos artistas ou a rua têm para oferecer.

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