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Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 2/19

Minha fonte de drama e estética é andar na rua

Max Eluard – Mas voltando ao Mergulhar, você disse que o conceito do disco está vivo e novo ainda. Mas que conceito é esse?
Pereira – É gozado você me perguntar isso numa hora em que estou compondo. Pô! Fazia 5 anos que eu não sentava para compor. Não sei se vou fazer um disco para o meu gosto que seja bom como o Mergulhar, bom de melodia, bom de letra, bom de canções, bom de idéias. Eu me expressei com facilidade e com exatidão. Estou sempre em crise, mas não estava em crise de linguagem, ou comigo mesmo, ou de olhar para o mercado e saber o que é. Eu tinha uma tampa para fechar, tinha uma etapa para cumprir. O Mergulhar era um jeito de eu olhar para a minha profissão, o jeito de, definitivamente, depois de Na tradição, poder ser mais poeta, mais lírico, mais delicado, de eu poder falar das grandezas das coisas cotidianas. Não por acaso tem músicas como “Dia útil” ou “Inventor brasileiro”. Porra, o meu ídolo é o homem da rua! Tirando ir no cinema que vou de vez em quando, não vejo muito show, peça, não leio grandes livros. Minha fonte de drama e estética é andar na rua. Tomo metrô, vou para o centro, ando na Lapa. Isso vai estar muito no meu disco novo, vocês podem ter certeza. Ouço muita rádio comunitária – agora mesmo, vindo para cá, estava ouvindo a 99,7, chama-se RCP, não sei se é oficial, comunitária, pirata, mas ela toca charm e hip hop. Agora tem um programa que se chama Hip hop Brasil ou uma coisa assim. São 8 horas, agora? Gozado, é pirata, na Hora do Brasil! Das 7 às 8 tem hip hop brasileiro, que nem tudo eu adoro, mas acho importante ouvir texto de paulistano. Isso vai estar no meu disco novo. Voltando ao Mergulhar, é um disco que me satisfaz, é um disco espontâneo. Fiz o que queria, gravei um disco como eu quis e registrei o trabalho do Daniel Szafran, que é superimportante. Como no Mulheres, quando se registrava o trabalho do Abujamra, que é um músico muito especial. No Na tradição, o Cláudio Boni, que era um trombonista que sempre tocava comigo e que morreu em um assalto há dois anos, músico muito especial, é o único registro que se tem do cara. No Mergulhar tem o Szafran que é um músico fabuloso. Não tem pianista em São Paulo com a selvageria dele. Por “n” razões o Mergulhar está intacto e tem esse caminho dele, de ser um álbum espontâneo, meio selvagem. É um disco de rock and roll mesmo sendo piano e voz.
Max Eluard – O Na tradição é um disco mais próximo do trabalho dos Mulheres Negras. Qual diferença você vê do Na tradição para o Mergulhar?
Pereira – É. No Na tradição eu estava mais radical. Saí dos Mulheres e precisava me mostrar como poeta. Na capa do Na tradição eu estava com a cara séria, de jeans e camiseta … [risos]
Max Eluard – A roupa engajada…
Pereira – Não, estou com roupa de operário em fim de semana. Falei “não posso ser gozado, não posso ser engraçado, não pode ter piada, não pode nada. Tenho que ser completamente diferente, não posso ser um personagem como eu era no Mulheres”. Então no Na tradição eu estava mais com essa neura, mas poeticamente ele me agrada. E outra coisa: como produtor de discos, no Na tradição eu não estou maduro ainda. Já produzi um monte de coisa, mas estava muito verde porque não tinha grana e fiz as coisas sozinho. Fiz de um jeito muito naturalista, não comprimi nada, não destimbrei nada, não tive tempo de remixar mil vezes. O disco é todo analógico. Foi um disco difícil de fazer; demorei 2 anos para fazê-lo. Gravar mesmo gravei em uma semana, mas sabe a dificuldade de botar um disco na praça? Tava enrolado. Foi difícil de produzir, um parto dolorido, sofrido. Montar banda, manter banda. Já no Mergulharfui mais relax para o estúdio, não estava com pressa, já tinha tocado dois, três anos com o Daniel na estrada, o repertório estava resolvido e calhou de eu achar o André Magalhães para gravar o disco no estúdio Zabumba. O cara foi um mestre. Ele sabia gravar um piano, sabia gravar voz…
Guarda do SESC – Estou fechando aí, viu!
Pereira – … o clima foi super de camaradagem, mais descontraído. A diferença do Mergulhar para o Na tradição é que o Mergulhar foi muito mais solto. O Na tradição foi difícil, um puta parto dolorido.
Max Eluard – E em qual contexto da sua vida foi feito o Mergulhar?
Pereira – O Mergulhar? Deixa eu ver… Eu tava saindo do Fanzine [n.e. Banda homônima ao programa da TV Cultura que Maurício integrava na primeira metade dos anos 90]. Estava com uma over de músicas na cabeça, não estava tão perto do Mulheres, estava mais perto do Fanzine, que era o quê? Eu tinha um trabalho operário de músico, trabalhava todo dia na televisão das duas às dez da noite. Cantei 600 músicas em dois anos. Era operário. Vai lá, pá, bate a dominante, canta, maquiagem, volta, pá, intervenção. Era um trabalho com música, assalariado e pesado. Isso me fez refletir sobre a profissão. Músicas como “Dia útil” só podiam ter saído dali. A coisa de ter cantado muita música dos outros – cantei Lamartine, Noel, Amado Batista, Zezé Di Camargo, Raul Seixas, tudo que vocês imaginarem. Fiquei promíscuo com a poesia da música popular. No Mulheres, 80% das letras eram minhas. Eu tinha cabeça de poeta, não eram letras de letrista. No Na tradição começou a ser letrista e no Mergulhar é um letrista solto, despadronizado, para o bem e para o mal. Porque gosto de ouvir uma música do Zezé Di Camargo, acho bonito o cara fazer coisas simples no padrão. Poeticamente eu estava mais liberto de ser poeta. Então o Fanzine me soltou muito, o volume de trabalho e a influência de música muito popular me deixou um cara mais solto no Mergulhar. Ali eu já estava com um disco e dois filhos nas costas, estava tudo mais fácil e eu estava menos burro, vamos dizer.

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