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Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 19/19

Não sou um cara com sonoridade de grandes gravadoras

Tacioli – Maurício, o que você tem ouvido?
Monteiro – Você consegue identificar algum grupo de rap que você ouviu recentemente?
Pereira – Nas rádios eles não falam, mas tenho gostado de um cara que é o NDee Naldinho. Sabe quem é esse cara? “O 5º vigia” é a música de sucesso dele.
Monteiro – Da rapaziada que está fazendo som hoje, ele é o mais tosco e combativo. Ele não tem ligação com outros rappers, faz o trampo em casa.
Pereira – Eu não sei se as músicas são dele. Esse “O 5º vigia” é a história dos caras que vão assaltar e, de repente, tem um vigia a mais. Eles não sabem e o cara morre.
Max Eluard – É o quinto vigia! [risos]
Pereira – É legal! Tem quatro vigias no banco, está tudo esquematizado, mas quando eles estão saindo, pinta o quinto. A polícia vem, pá. Achei a montagem do texto muito boa.
Monteiro – Ele vende bem. A gravadora é a TNT, um selo. O cara faz disco no fundo do quintal. Esse álbum que tem “O 5º vigia” chama-se Preto no gueto e vendeu 30 mil cópias.
Pereira – É mesmo?! Procurei esse disco lá na Lapa numa barraca de pirata. [risos] Eu não devia fazer isso com o hip hop, deveria comprar na lei. Vou comprar na lei!
Monteiro – Ele está lançando o disco ao vivo.
Pereira – Eu queria o outro, tem o “Firmeza” [n.e. “Aquele mina é firmeza”] , que é de um cara que perde a mina. É muito legal! E Racionais, que são muito bons, Thaíde, que é um sociólogo da coisa, um intelectual.
Monteiro – Hoje a música que fala para a molecada é o rap. O que você quer quando é moleque? Você quer uma música que seu pai não goste, porque senão não tem graça. “Não vou a um show com o meu pai”. O rap é a única coisa que fala para essa molecada, que incomoda.
Pereira – E tem muita coisa fraca, muita coisa estereotipada. Ontem eu estava ouvindo um cara no rádio, e ele cantava assim [canta] “Eu tô no mundo da luaaaaa!”. Tem um vibrato maluco.
Monteiro – É o SNJ.
Pereira – Puta, é muito bom, é um rap meio de terror [risos].
Monteiro – É sensacional esse menino. A banda são quatro, mas ele é espetacular. Não sei como aprendeu a cantar desse jeito, é o mais diferente.
Pereira – Tinha um cara chamado Ataliba e a Firma, é mais antigo, tem uns 5 anos ou mais. Sumiu! O Skowa me apresentou umas letras dele anos atrás, umas coisas muito boas.
Monteiro – Ele tem uma música que se chama “Política” que é espetacular.
Pereira – É, mas o Skowa me mostrou umas coisas que não sei se foram gravadas. Tem uns caras bons. O que mais estou ouvindo? Sou um ouvinte de rádio, e basicamente de rádio pirata. Tinha uma rádio aqui em São Paulo, comunitária, 91.9, que agora virou black. Era uma rádio em espanhol para a colônia boliviana no Bom Retiro, Casa Verde. Tocava cumbia, rancheira, mas de som mesmo não tinha nada legal.
Monteiro – Você em nenhum momento citou um estilo musical.
Pereira – Estilo como?
Monteiro – Como o rock. Você citou artistas. Teve um momento em sua vida que você falou “música é …”? Ou sempre foi assim, música pela música?
Pereira – Sou um cara de rádio, meu! E rádio dos anos 60. Como eu disse que passava Altemar Dutra, passava Ray Charles, passava Stones. E paulista, né?! Num certo sentido, a gente ouve muita coisa aqui. Hoje ouvi dois discos: Ben Harper e Hank Willians, que é um cara que eu tenho paixão, é um americano velho. E mais um disco que gosto muito, de um argentino chamado Axel Krigier. Um jornalista argentino, que tinha um programa de música brasileira em Buenos Aires, me procurou e quis saber quem eu era. Trocamos muita figura, dei muita dica pra ele, e ele me mandou uns discos malucos de lá, de uma gravadora chamada Los Años Luz. Tem um cara chamado Axel Krigier, que parece Os Mulheres Negras. Coisas interessantes, muito sampler, um som podreira, e um espírito meio solitário, pensar com a própria cabeça. Gostei muito! Que mais?! Como estou produzindo um disco de um cara, não estou ouvindo muito.
Tacioli – E quem é o cara que você está produzindo lá em Recife?
Pereira – Chama-se Armando Lobo. É um cara do Recife, branco, músico erudito, fanático pela música barroca. Ele faz letras que tem tudo a ver com catolicismo e putaria. E o Recife branco é o frevo, que é polifônico como o barroco. A gente aqui acaba conhecendo mais o Recife preto, índio, que é o maracatu, o caboclinho. Ir lá gravar esse cara foi uma puta viagem pra mim. Ele tem uma erudição pernambucana. Mistura muita coisa pernambucana com esse viés barroco, e é um letrista muito bom.
Almeida – E por que ele te chamou?
Pereira – Foi um amigo comum que me indicou. Do jeito que a produção dele era específica, eu era o único cara para ser indicado. Primeiro, porque é uma mistura de alhos com bugalhos. Segundo, que apesar de ser um músico muito bom, ele não tem experiência, tem uma certa ingenuidade nesta putaria do pop. Se em algumas coisas ele tem muita experiência, noutras ele precisa de um tutor para dar uma orientada, empurrá-lo para um lado, para outro. Experiências com estúdio, com músicos, com mercado de música, trazê-lo um pouquinho para São Paulo. Com ele faço um trabalho de Telê Santana. Como fiz com todo mundo que produzi: a Banda Paralela, o Bico de Pena, a Rita Monteiro, que lançou agora um disco totalmente independente. São pessoas que produzo o disco e ensino a pescar. “Não, tenta a mídia assim, faz o show assado, experimenta isso, escuta aquilo, presta atenção no reverbe, edição é assim, pagar os músicos é assado, direito autoral”. É caçar talento. Imagino que no segundo, terceiro disco desses caras, se eles crescerem, eles não vão estar mais comigo. Falando de futebol de novo, eu seria aquele técnico do juvenil, que forma o cara e manda, depois não é mais comigo. Não sou um cara que faz discos com sonoridade de grandes gravadoras. Meus discos são meio fora da moda, não de moda. Não produzo como o Dudu Marote ou como o André, que tem mais intimidade com o estúdio. Sou mais um filósofo popular. Dou uma formação e os caras vão. O trabalho desse sujeito é muito forte, muito forte.
Max Eluard – Vamos embora, antes que batam na gente.
Pereira – É verdade. Vambora.

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